A Casa Blackwood
Cap. 2 de 20 · 5%

Território Marcado

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A luz que invadia a janela alta era cinzenta e anémica, filtrada pela muralha de pinheiros que cercava a Casa Blackwood. Helena dormira em sobressaltos, a imagem da fotografia impossível gravada a fogo na escuridão: uma fusão profana entre homem e lobo. Tratava-se de uma anomalia, e anomalias eram o seu território. Na sala de jantar, o silêncio era uma entidade. Havia um único lugar posto na longa mesa de carvalho. Pão, queijo, uma maçã. Uma cortesia ou uma sentença de isolamento. Helena comeu de pé, engolindo a comida com a urgência de quem precisa de escapar, de respirar um ar que não estivesse impregnado com os segredos de pedra daquela casa. O lago era uma bacia de obsidiana polida sob o céu de chumbo. Tinha uma beleza austera, quase fúnebre, que a acalmava. Ali, com a sua maleta de equipamentos, ela recuperava o controlo. O universo podia ter as suas aberrações, mas a água, a água obedecia às leis da química. Montou o seu laboratório portátil numa clareira, o clique metálico dos fechos de titânio soando como um desafio à quietude. O gesto de mergulhar o primeiro frasco de coleta na água escura era um ritual, uma dança precisa que a ancorava na lógica. Estava tão absorta a calibrar o medidor de pH que não sentiu a sua presença até ser tarde demais. Não houve som. Apenas uma súbita mudança na pressão do ar, a sensação primordial de ser observada. Ergueu a cabeça. Ele estava parado na linha das árvores, a uns vinte metros. Alto, sólido, uma silhueta que parecia ter brotado da própria terra. Braços cruzados, imóvel. Liam Blackwood. Não precisava de apresentações. Irradiava a mesma intensidade predatória do lugar, a mesma soberania silenciosa da mãe, mas nele era algo mais cru, mais físico. O vento agitava-lhe os cabelos escuros, mas ele permanecia imóvel, os olhos fixos nela. O peso daquele olhar era tão tangível quanto o frio que subia do solo. Helena forçou-se a baixar a cabeça, focando-se no visor digital. Uma mentira de indiferença. Anotou a leitura com uma mão que tremeu por um microssegundo. Que ele olhasse. Que testemunhasse o método, a ordem, a razão. Talvez a lógica o afugentasse. Os minutos arrastaram-se, medidos pelo arranhar da sua caneta e pela respiração contida no seu peito. Por fim, ele moveu-se. Os seus passos, sobre um tapete de folhas secas, eram quase inaudíveis, fluidos. Parou a poucos metros, um invasor que respeitava uma fronteira invisível, mas cuja presença a encolhia. — O que espera encontrar aí, Doutora Vidal? — A voz era grave, um barítono que vibrava mais no chão do que no ar. Não era curiosidade. Era um desafio. Helena não o encarou. — Anomalias. Inconsistências químicas. Qualquer desvio da norma. — Norma. — Ele soltou um som baixo, um escárnio velado de divertimento. — Não há muita ‘norma’ por aqui. Ela finalmente ergueu o rosto. Os olhos dele, um cinzento de tempestade, avaliaram-na com uma intensidade que parecia despir-lhe o jaleco de cientista, chegando à dúvida que ela se recusava a admitir. O cheiro dele alcançou-a — terra húmida, pinho e algo mais primal, selvagem. Incomodou-a que o seu corpo o tivesse registado. — É para isso que cá estou, Senhor Blackwood. Para definir a norma. Ele deu mais um passo, o olhar a varrer os seus frascos e sensores com desprezo mal dissimulado. — O meu avô dizia que este lago tem temperamento. Não se mede temperamento com uma garrafa. — E eu digo que ‘temperamento’ é uma palavra leiga para flutuações barométricas e ciclos de inversão térmica. — Helena endireitou as costas, sentindo o calor a subir-lhe pela nuca. Raiva pela sua presunção. E raiva de si mesma, pela forma como o seu pulso tinha acelerado. — Tudo tem uma explicação. O silêncio que se seguiu foi denso e cortante. O abismo entre o seu método empírico e o conhecimento dele, nascido daquele mesmo solo. Liam ergueu a mão, não para ela, mas para a esquerda, onde uma pequena enseada se escondia atrás de um emaranhado de salgueiros-chorões. — Não colete amostras ali. O tom não era um pedido. Era um decreto. Helena seguiu-lhe o gesto. A enseada parecia igual a qualquer outra parte da margem. — Porquê? — Porque eu estou a dizer-lhe para não o fazer. A arrogância pura da resposta fê-la cerrar os dentes. — Eu preciso de uma razão científica. Se uma área é demarcada como diferente, é precisamente a primeira que devo analisar. — A razão é que é perigoso. — Os seus olhos cinzentos faiscaram, a fachada de calma a quebrar-se por um instante. — Há correntes traiçoeiras. O fundo é lodo instável. As desculpas eram plausíveis, mas a sua inflexibilidade denunciava-as. Aquilo não era um aviso; era uma ordem de afastamento. Ele estava a proteger algo. — Eu sou cuidadosa. — Não o suficiente. — A voz dele era novamente controlada, o que era ainda mais exasperante. — As regras da minha casa estendem-se até à margem deste lago, Doutora. Fique longe da enseada. Sem esperar resposta, virou-lhe as costas. Moveu-se em direção à floresta e foi engolido pelas sombras com a mesma naturalidade desconcertante com que surgira, deixando para trás apenas o eco da sua proibição. Helena ficou paralisada, o ar a vibrar com a tensão da sua partida. Controlo. Presunção. Era a mesma arrogância que sentira em Elara, mas manifestada de forma bruta, territorial. Uma afronta direta à sua competência, à sua identidade. O seu olhar desviou-se das suas anotações, passou pela extensão de vidro negro da água e pousou na enseada proibida. Os salgueiros moviam-se com a brisa, as suas folhas a roçarem a superfície como dedos a acenar, convidativos e secretos. *Perigoso*. A palavra dele ecoou, mas na mente dela transformou-se noutra: *promissor*. Um músculo na sua mandíbula contraiu-se. Com gestos deliberados, guardou os seus equipamentos, mas deixou três frascos de coleta vazios sobre a maleta. O seu corpo virou-se, não em direção à casa, mas para aquele segredo velado por cortinas de folhas. O desafio dele tinha selado o seu destino. Afastou o primeiro ramo de salgueiro, as folhas húmidas a roçarem-lhe o rosto. A água na enseada era diferente — mais escura, e estranhamente imóvel, como se prendesse a respiração. Um brilho metálico ténue pulsou sob a superfície antes de desaparecer. Helena parou, o coração a martelar contra as costelas, uma mistura de medo e triunfo científico. Ela destampou o primeiro frasco.
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