A Casa Blackwood
Cap. 5 de 20 · 20%

Linhas Cruzadas

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O trinco da porta era uma piada. Helena encostou a testa na madeira fria do quarto, tentando ancorar-se enquanto a sua mente, o seu refúgio de lógica e método, se desfazia. Lá fora, o silêncio regressara, mas era um silêncio predador, manchado pela memória da violência impossível que testemunhara. O som do impacto, uma nota grave e húmida que violava as leis da física. A velocidade de Liam, um borrão que o cérebro se recusava a processar. E o rosnado. Um som gutural, arrancado das profundezas de uma biologia que não devia existir. O medo inicial, um choque galvânico, recuara, cristalizando-se em algo mais afiado: fúria. Uma raiva fria e precisa pela ofensa à sua inteligência. Tinham-na contratado para resolver um enigma, mas esconderam a peça central do tabuleiro. A adrenalina que restava nos seus músculos não pedia fuga, mas confronto. Calçou as botas, os atacadores esquecidos, e desceu as escadas em silêncio, não como uma cientista, mas como um animal farejando o seu adversário. A luz que sangrava por baixo da porta da biblioteca foi o seu destino. Ela empurrou a porta. Sem cerimónia, sem aviso. Liam estava de costas, de pé junto à lareira acesa, a sua silhueta a recortar a dança das chamas. A forma como os seus ombros se imobilizaram foi o único reconhecimento da sua presença. O ar na sala era denso, uma mistura de papel velho, couro, do cheiro acentuado de uísque e da tensão que crepitava tão alto quanto a lenha. — Explique-me o que eu vi. — A voz de Helena saiu baixa, desprovida de tremor. Era a voz que usava no laboratório, a que exigia dados, não desculpas. Ele demorou-se a levar um copo de cristal aos lábios, o líquido ambarino a apanhar a luz do fogo. Uma manobra de tempo, de controlo. — Era suposto estar no seu quarto. A evasiva foi como óleo no fogo. — Responda à pergunta. A sua força, a sua velocidade… Nenhum homem arremessa um cervo de duzentos quilos. Diga-me que tipo de homem o faz. Finalmente, ele virou-se. A luz dourada da lareira talhava sombras duras no seu rosto, tornando os seus olhos em lascas de gelo num mar de fogo. Havia um cansaço ali, não apenas do esforço físico, mas uma exaustão que parecia ter séculos. — O tipo de homem que lhe disse para ter cuidado nesta floresta. — Aquilo não era a floresta, Liam. Era você. — O nome dele soou como uma transgressão na sua própria boca. Ela deu um passo, cruzando o limiar do tapete persa, invadindo o seu espaço. — O animal estava anormalmente agressivo. Assim como a anomalia que encontrei na amostra da enseada. Está tudo ligado. Ao vosso segredo. Digam-me a verdade para que eu possa fazer o meu trabalho. — O meu único trabalho é mantê-la viva — retorquiu ele, a voz um barítono grave que vibrou no chão de madeira. — O seu é analisar a água, não a minha família. — Como é que eu posso separar os dois? — A frustração fez com que desse outro passo. Estava perto agora. Perto o suficiente para ver o pequeno corte por cima da sua sobrancelha direita, uma linha vermelha que ele parecia ignorar. A cada batida do seu coração, uma voz na sua cabeça gritava perigo; outra, mais antiga, exigia respostas. — Contrataram-me para encontrar uma anomalia, mas a maior anomalia desta propriedade acabou de me salvar a vida violando todas as leis da biologia. Acha mesmo que eu vou simplesmente… esquecer? Liam pousou o copo na prateleira da lareira com um baque surdo e definitivo. E então, moveu-se. Um único passo lento e deliberado que aniquilou a distância entre eles. De repente, ele era tudo o que existia. Uma parede de calor e sombra que bloqueava o fogo, o mundo. Helena ergueu o queixo, uma resposta puramente instintiva, recusando-se a ceder terreno. O frio do quarto desapareceu, substituído pelo calor que irradiava dele. O seu perfume — uísque, fumo de lenha e algo mais primário, almíscar e ozono — invadiu os seus sentidos. O seu coração, antes furioso, agora martelava contra as suas costelas num ritmo diferente, uma cadência confusa de medo e… outra coisa. Uma coisa que ela se recusava a nomear. — Você pede-me para ser cega — sussurrou ela, a sua voz subitamente rouca, o ar rarefeito entre eles. Os olhos dele, tão perto agora, não eram gelo. Eram fogo contido. Ardiam com uma intensidade que a despiu, camada por camada, até à sua certeza científica, deixando apenas a mulher vulnerável para trás. — Eu estou a pedir-lhe para confiar em mim — murmurou ele, a sua voz uma vibração sentida mais do que ouvida. O seu olhar desceu para os lábios dela por uma fração de segundo insuportável, e o universo inteiro pareceu prender a respiração. Confiança. A palavra mais absurda. A exigência mais impossível. Confiar no epicentro do terramoto que abalava os seus fundamentos? Confiar na personificação viva do mistério que a podia destruir? A sua recusa não precisou de palavras. Ele viu-a no seu olhar, na forma como o seu corpo se enrijeceu contra o impulso de se inclinar para ele. Uma sombra de… desapontamento? Resignação? Atravessou-lhe o rosto por um instante, antes que a máscara impenetrável voltasse ao lugar. Ele deu um passo atrás. O feitiço quebrou-se. O ar frio da biblioteca precipitou-se para o vácuo, fazendo-a estremecer. A perda do seu calor foi um golpe físico. — Fique no seu quarto esta noite, Doutora Vidal — disse ele, a voz novamente distante, a do guarda. — E tranque a porta. Sem mais uma palavra, Liam contornou-a e saiu, deixando-a sozinha com as chamas moribundas e o eco da sua ordem. Helena ficou imóvel, a respiração a voltar em arrancos dolorosos. A sua mão tremeu ao subir até ao peito, não para acalmar o coração, mas para sentir a prova de que ainda batia. A raiva tinha-se esvaído, deixando para trás um resíduo perigoso, uma curiosidade pulsante pela força que a mantivera imóvel, a centímetros do perigo e do desejo. Chegara a Blackwood para estudar uma anomalia na água. Mas, de pé naquela biblioteca, a pele ainda a formigar onde o seu calor quase a tocara, uma verdade muito mais alarmante tomou forma. O verdadeiro laboratório era ela, e o espécime incontrolável era a sua própria reação àquele homem. A pergunta já não era *o que* ele era, mas o que é que ele a estava a transformar.
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