Rafael Montenegro ficou sozinho na sala de reuniões depois que Elisa Valença saiu.
Não por falta de resposta. Respostas ele tinha demais — quase todas afiadas o bastante para causar estrago. O problema era que, se fosse atrás dela naquele instante, escolheria a pior.
Sobre a mesa, as folhas que ela deixara pareciam um insulto discreto. Papel simples. Anotações à mão. Números circulados de caneta azul. Nada de gráficos bonitos, nada de capa preta, nada daquele teatro caro que executivos usavam para esconder medo.
E, ainda assim, em menos de vinte minutos, Elisa havia apontado falhas que muita gente ali dentro fingia não enxergar havia meses.
Rafael pegou uma das páginas.
Antecipações sem entrega comprovada.
A ponta do papel dobrou sob seus dedos.
Ela não devia saber onde doía.
Mas sabia.
Do lado de fora, o andar voltava ao normal: passos abafados no carpete, vozes baixas, uma impressora trabalhando ao longe. Rafael respirou fundo, largou a folha e saiu.
Encontrou Elisa na sala que haviam separado para ela. A porta estava aberta. O laptop já estava ligado, planilhas espalhadas pela mesa, uma garrafa de água ao lado. Nem parecia visita. Parecia alguém que chegara atrasada a um lugar que conhecia bem demais.
Ela levantou os olhos antes que ele batesse.
— Veio confiscar minha cadeira também?
Rafael parou no batente.
— Vim deixar claro como isso vai funcionar.
— Ótimo. Eu gosto de regras. Principalmente quando valem para todo mundo.
Ele entrou e fechou a porta devagar. O clique pareceu alto demais no espaço pequeno.
Elisa acompanhou o gesto, mas não se mexeu.
— Não precisa se preocupar. Eu não mordo documento.
— Documento, não. Pessoas talvez.
Ela pousou a caneta sobre a mesa.
— Você ensaiou essa no corredor?
— Eu não brinco com gente que aparece na minha empresa pedindo acesso total.
— Sua empresa está perdendo dinheiro por buracos que ninguém quer nomear. Eu pedi acesso porque trabalho com o que existe, não com o que deixam em cima da mesa para parecer bonito.
Rafael puxou a cadeira à frente dela, mas não sentou.
— E o que você quer encontrar?
— O que estiver errado.
— Resposta limpa demais.
— Pergunta suja demais.
O silêncio que veio depois não foi vazio. Tinha peso.
Havia nela uma calma que não combinava com a situação. Não era pose de consultora. Era outra coisa. Uma firmeza cansada, como se Elisa tivesse passado anos aprendendo a não baixar os olhos diante dele.
Rafael odiou perceber isso.
— Você sumiu — disse ele.
A caneta entre os dedos dela parou.
— Isso não está nos contratos.
— Está em tudo que você toca aqui.
Elisa soltou o ar pelo nariz. Quase um riso. Quase nada.
— Rafael, se você quer me punir por uma história antiga, faça isso depois que a empresa sobreviver.
O nome dele na boca dela bateu estranho.
Não foi doce. Não foi íntimo. Mesmo assim, alguma coisa em sua nuca ficou rígida.
— Você fala como se tivesse direito de organizar minhas prioridades.
— Eu tenho direito de fazer o trabalho que aceitaram que eu fizesse.
— Meu pai aceitou.
— O conselho aceitou.
— Eu não.
Elisa se levantou.
A distância entre os dois diminuiu sem que nenhum dos dois desse um passo. A luz fria da sala tocava o rosto dela de lado, marcando uma sombra leve sob os olhos. Rafael notou. Quis não notar.
— Então me demita — disse ela.
Ele apertou a mandíbula.
— Não me tente.
— Não estou tentando. Estou oferecendo uma saída simples. Você me tira daqui, mantém seu orgulho inteiro por mais uma semana e depois explica aos bancos por que preferiu uma briga pessoal a um plano de caixa.
Rafael deu um passo à frente.
— Você não sabe nada sobre o que eu prefiro.
Elisa não recuou.
— Sei que você prefere controlar a sala antes de ouvir a verdade.
A frase entrou fundo demais.
Por um segundo, a sala inclinou.
Rafael apoiou os dedos na borda da mesa.
O cheiro de café frio desapareceu. No lugar, veio um cheiro úmido, de chuva batendo em pedra quente. Uma imagem cortou sua cabeça: uma mão feminina segurando uma caneta preta; uma mesa pequena; um fio dourado no pulso; uma voz baixa dizendo algo que ele não conseguiu alcançar.
Depois, branco.
— Rafael?
A voz de Elisa veio de perto.
Ele piscou.
A sala estava no lugar. A luz também. Elisa tinha dado a volta na mesa e segurava a cadeira, pronta para puxá-la.
A mão dela estava a poucos centímetros da dele.
Rafael se afastou rápido demais.
— Não encosta em mim.
Ela parou.
O rosto dela quase não mudou. Só os dedos se fecharam na beirada da cadeira até a pele clarear.
— Eu não encostei.
— Não precisa.
Ele passou a mão pelo rosto e sentiu a têmpora fria. Suor. Ar-condicionado forte. Nada mais. Tinha que ser nada mais.
Elisa o observou em silêncio.
Esse silêncio irritou mais que qualquer resposta.
— O que foi isso? — ela perguntou.
— Nada.
— Você ficou pálido.
— Agora é médica também?
— Não. Só tenho olhos.
Rafael soltou uma risada sem humor.
— Use para os relatórios.
Ele foi até a porta, mas a voz dela o segurou antes que saísse.
— Eu não vim aqui para te machucar.
A mão dele parou na maçaneta.
Por um instante, aquela frase pareceu ter eco. Não naquele escritório. Em outro lugar. Com outra luz.
Rafael abriu a porta.
— Esse é o problema, Elisa. Você fala como se eu devesse acreditar.
Saiu antes que ela respondesse.
No corredor, alguém desviou dele com uma pilha de pastas. Rafael mal viu. Entrou em sua sala, fechou a porta e foi direto ao banheiro privado. Abriu a torneira. A água gelada bateu nas mãos, nos pulsos, no rosto.
Quando ergueu a cabeça, encarou o próprio reflexo no espelho.
A cicatriz perto da sobrancelha parecia mais clara sob a luz branca.
Cinco anos.
Cinco anos desde o acidente. Desde os dias apagados. Desde médicos explicando, com vozes educadas, que algumas partes da vida dele talvez nunca voltassem. Rafael aprendera a aceitar contratos que não lembrava de assinar, viagens que não lembrava de fazer, reuniões que só existiam em atas.
Lacunas eram fáceis quando ficavam quietas.
Elisa não ficava quieta.
E falava como se tivesse atravessado uma porta que ele nem sabia onde ficava.
Rafael fechou a torneira com força.
Não nela.
Nunca nela.
Quando voltou para a sala, Beatriz Montenegro estava perto da janela, olhando a cidade lá embaixo. Não pediu licença para entrar. Quase nunca pedia.
— Você está com a cara do seu pai quando tenta esconder dor nas costas — disse ela, sem se virar.
Rafael pegou uma toalha pequena e secou as mãos.
— Se ele mandou você defender a contratação, pode voltar.
Beatriz olhou por cima do ombro.
— Ninguém me manda vir aqui. Você sabe disso.
Ela usava um vestido claro, simples, e o cabelo preso deixava seu rosto mais sério. Beatriz tinha um talento irritante: entrava em uma sala e encontrava exatamente o que as pessoas tentavam esconder.
Hoje, isso era péssimo.
— Eu tenho trabalho — disse Rafael.
— Elisa também.
Ele jogou a toalha sobre a bancada.
— Começou.
— Ela viu em dois dias o que muita gente aqui finge não ver há meses.
— Competência não compra confiança.
— Não. Mas deveria comprar escuta.
Rafael foi até a mesa, abriu uma gaveta, fechou sem pegar nada.
— Você também vai fingir que ela não saiu daqui sem explicação?
Beatriz ficou quieta por tempo demais.
Ele levantou os olhos.
— O quê?
— Nada.
— Quando você demora assim, nunca é nada.
Ela caminhou até a cadeira à frente da mesa e apoiou a mão no encosto.
— Existem saídas que parecem abandono para quem ficou.
— Que defesa bonita.
— É só uma frase comum.
— Você sabia que ela voltaria?
— Soube quando seu pai soube.
— E achou uma boa ideia?
Beatriz passou o polegar pela costura da cadeira.
— Achei necessária.
— Para quem?
— Para a empresa.
— Só isso?
Ela o encarou.
Rafael conhecia aquele olhar. Era o mesmo de quando ele tentava arrancar dela alguma coisa sobre os meses apagados depois do acidente. Beatriz não mentia de forma aberta. Apenas fechava certas portas com o corpo inteiro.
— Você está vendo fantasma onde existe uma mulher trabalhando — disse ela.
— Não fale comigo como se eu fosse criança.
— Então não aja como se todo incômodo fosse prova de crime.
A frase pegou.
Rafael apoiou as duas mãos na mesa e inclinou o corpo para a frente.
— Quando olho para ela, tem alguma coisa errada.
Beatriz não piscou.
— Errada como?
Ele abriu a boca.
A mão com a caneta. O cheiro de chuva. A voz que não terminava. Elisa dizendo que não viera machucá-lo.
— Como uma lembrança que não é minha.
Beatriz perdeu um pouco da cor.
Foi rápido. Quase ninguém perceberia.
Rafael percebeu.
— Você sabe alguma coisa.
— Sei que você teve um acidente sério.
— Não foi isso que eu perguntei.
— E sei que forçar memória nunca te fez bem.
— Beatriz.
Ela se levantou antes que ele continuasse. Alisou a frente do vestido com as duas mãos, um gesto pequeno, controlado demais.
— Deixe Elisa trabalhar. Se ela falhar, você terá todos os motivos que quer para mandá-la embora. Se ela acertar, talvez você ganhe tempo.
— Tempo para quê?
Beatriz foi até a porta. Parou com a mão no puxador.
— Para decidir se quer salvar a empresa ou continuar brigando com os buracos na sua própria cabeça.
A porta se fechou quase sem som.
Rafael ficou parado, olhando para o lugar onde ela estivera.
Então abriu a gaveta de novo.
Não a de cima, onde ficavam os contratos recentes. A última. A trancada. A que ele quase nunca tocava.
Tirou a chave de dentro de um pequeno vaso de pedra sobre a estante e destrancou. Ali havia cadernos antigos, agendas, cartões, objetos recolhidos depois do acidente. Coisas que ninguém soube onde colocar. Coisas que ele não teve coragem de encarar.
Puxou o primeiro caderno.
Nada.
O segundo tinha anotações de reuniões, números, rabiscos nas margens. Sua letra, sem dúvida. Mais inclinada do que agora.
Folheou depressa até uma página marcada por um pedaço de papel amarelado.
Parou.
Não era uma ata. Nem um cálculo.
Era um desenho rápido, feito a lápis: uma mesa pequena, duas xícaras, uma janela riscada por chuva. No canto, uma mão feminina segurava uma caneta preta.
Rafael sentiu os dedos esfriarem.
A mesma mão.
A mesma imagem.
Virou a página devagar.
No verso, quase apagadas pelo tempo, havia duas letras cercadas por um traço firme.
E.V.