Rafael ainda segurava o papel dobrado quando a luz da sala piscou.
Uma vez. Depois outra. O corredor ficou mudo de um jeito errado, sem passos, sem elevador, sem o som distante de alguém indo embora. A sede inteira pareceu prender a respiração junto com eles.
Elisa olhou para o celular. Sem sinal interno.
— Isso é alguma resposta sua? — Rafael perguntou, guardando o papel no bolso sem tirar os olhos dela.
Antes que Elisa pudesse rebater, a tela de projeção acendeu sozinha. Letras vermelhas cortaram a parede branca.
Falha de acesso ao servidor central.
Backup interrompido.
Base financeira indisponível.
A pasta de Elisa caiu sobre a cadeira.
— Você tem espelhamento externo?
Rafael já estava no notebook.
— Temos.
— Atualizado?
Ele digitou a senha com força demais.
— Deveria estar.
— Deveria não paga funcionário.
A frase acertou. Não como insulto. Como verdade. Rafael engoliu a resposta e esperou a tela carregar. Ela demorou. Demorou tanto que Elisa puxou uma cadeira e se sentou ao lado dele antes de pedir licença.
— Me dá acesso.
— Não.
— Rafael.
— Acesso total, não.
— Eu não quero escolher a cor da sua gravata. Quero descobrir por onde a empresa está sangrando.
— Você nem sabe se é ataque.
— Sei que o servidor caiu logo depois de alguém pedir contratos integrais. Sei que o backup parou fora do horário. E sei que, se você continuar tentando vencer uma briga comigo, amanhã talvez não sobre nada para defender.
Ele ficou imóvel por um segundo. Depois virou o notebook para ela.
— Acesso temporário. Comigo do lado.
Elisa puxou o teclado para perto.
— Melhor. Assim você aprende.
Um riso seco escapou dele.
— Você é insuportável.
— E útil. Hoje, escolha só uma coisa para odiar.
Os dedos dela correram pelas telas travadas. Rafael ficou de pé atrás da cadeira, perto o suficiente para ela sentir o calor do corpo dele antes do perfume discreto, limpo, perigosamente familiar. Elisa prendeu o ar e focou nos registros.
— Última alteração no pacote de rotinas... aqui.
Rafael se inclinou. O braço dele passou ao lado do ombro dela para apontar a tela. O punho da camisa roçou no cabelo preso dela.
Elisa parou de digitar por meio segundo.
— O que foi? — ele perguntou.
— Nada.
— Você sempre diz nada quando é alguma coisa?
Ela voltou ao teclado.
— Só quando alguém fala perto demais da minha orelha.
Rafael se afastou um palmo. Não mais que isso.
Na tela, uma linha apareceu. Autorização liberada às 19h42. Assinatura técnica: Leonardo Bastos.
Rafael apoiou as duas mãos na mesa.
— Leonardo liberou isso.
— Liberou o pacote. Ainda não prova que derrubou tudo.
— Mas você pensou.
Elisa não respondeu.
— Elisa.
— Pensei que foi conveniente demais.
A frieza dele rachou. Só um pouco. O bastante para ela ver o homem por trás do cargo.
— Dá para recuperar?
— Se o backup local não tiver sido corrompido. Se ninguém reiniciou do jeito errado. Se a base de contratos ainda estiver inteira.
— Quantos ses você consegue colocar numa frase?
— Quer consolo ou solução?
Rafael puxou outra cadeira e se sentou ao lado dela.
— Solução.
Ela assentiu.
— Então vamos trabalhar.
A noite fechou o andar por dentro.
As luzes entraram no modo econômico. A cidade virou pontos amarelos atrás do vidro. Na mesa, dois notebooks, cabos cruzados, relatórios abertos e xícaras esquecidas formavam um campo de batalha pequeno demais para duas pessoas tão orgulhosas.
Ele ligava para ramais que não atendiam. Ela recuperava arquivos por bloco, comparava versões, marcava inconsistências em uma planilha nova porque a antiga já não merecia confiança.
À meia-noite, Rafael empurrou uma xícara para perto dela.
— Café.
Elisa não ergueu os olhos.
— Com açúcar?
— Sem.
Ela tomou um gole. Forte. Quente. Ruim o bastante para acordar até os mortos.
Rafael observou a careta discreta.
— Acertei?
— Café ruim tem essa vantagem. Não exige precisão.
— Você sempre teve esse humor?
A pergunta veio baixa, sem lâmina.
Elisa girou a xícara entre os dedos.
— Só quando passo quatro horas salvando uma base que alguém tratou como brinquedo.
— Não foi isso que perguntei.
Ela olhou para a janela. O reflexo mostrava os dois lado a lado, pálidos pela luz das telas, próximos demais para inimigos.
— Eu era pior.
— Difícil acreditar.
— Você não me conheceu na faculdade.
O silêncio que veio depois pesou mais que a frase. Elisa percebeu tarde demais.
Rafael segurou o olhar dela pelo reflexo.
— Não conheci?
Ela bebeu mais café e queimou a língua. Merecido.
— A cidade é pequena. Todo mundo acha que conhece todo mundo.
— Eu não acho.
— Melhor para você.
Ele passou o polegar pela borda da xícara.
— Eu tenho pedaços.
Elisa ficou imóvel.
— Pedaços?
— Depois do acidente. Às vezes vem uma coisa solta. Um cheiro. Uma frase sem rosto. Uma mão na minha. Acordo com a sensação de que esqueci alguém na chuva.
A xícara dela tocou o pires com força. Café escorreu pela lateral.
Rafael viu.
— Era você?
Elisa pegou um guardanapo e limpou a mesa devagar demais.
— Hoje não é noite para isso.
— Você decide muito o que eu posso saber.
— Alguém precisa decidir enquanto você tenta arrancar respostas às duas da manhã.
— Você fugiu da pergunta.
— E você fugiu do servidor.
Um alerta amarelo piscou no notebook. Rafael olhou para a tela, mas não soltou a pergunta.
— Elisa.
Ela respirou fundo.
— Eu estou impedindo que amanhã você acorde no comando de uma empresa sem memória financeira. Pela segunda vez, talvez memória seja um luxo que a gente não pode pagar agora.
Ele recebeu a frase como quem recebe um golpe e decide não devolver.
— Você fala como se tivesse pago caro.
Elisa se levantou com a xícara vazia.
— Vou buscar mais café.
— Eu vou.
— Eu sei o caminho.
— Eu também.
Nenhum dos dois cedeu. Foram juntos.
A copa pequena estava escura, iluminada só pela luz fria da máquina. Rafael encostou no balcão enquanto Elisa encaixava duas cápsulas. O cheiro amargo subiu rápido, enchendo o espaço apertado.
— Você ainda mora sozinha? — ele perguntou.
Ela olhou de lado.
— Isso é conversa normal ou interrogatório com cafeína?
— Não sei mais fazer conversa normal.
A honestidade dele ficou ali, sem defesa. Elisa pegou uma colher descartável, pensou melhor e largou.
— Moro.
— Marcelo Valença não gosta que você esteja aqui.
— Marcelo Valença não gosta de muita coisa. Principalmente de Montenegro respirando perto de mim.
Rafael ficou alguns segundos calado.
— Ele tem motivo?
A máquina parou. O último pingo caiu no copo.
Elisa entregou o café a ele. Os dedos se tocaram.
Dessa vez, nenhum dos dois afastou a mão de imediato.
A pele dele estava quente. A dela, fria demais. Rafael baixou os olhos para aquele contato mínimo como se tentasse ler uma resposta na ponta dos dedos. O copo tremeu entre eles, e Elisa segurou mais firme.
— Tem — ela disse.
A palavra saiu menor do que deveria.
Rafael ergueu o rosto.
O espaço entre os dois ficou estreito. Um fio de cabelo escapou do coque de Elisa e caiu perto da boca. Rafael levantou a mão.
Parou antes de tocar.
Ela deveria ter dado um passo para trás.
Não deu.
O dedo dele chegou perto da pele dela, sem encostar, pedindo uma permissão que nenhum dos dois teve coragem de dar. O olhar dele desceu até a boca dela e voltou rápido, irritado consigo mesmo.
— Elisa...
O alarme do notebook apitou na sala.
Os dois se afastaram ao mesmo tempo. Café derramou no chão.
— Droga — ela murmurou.
Rafael já caminhava de volta.
— O que aconteceu?
— O sistema tentou reiniciar sozinho.
— Isso é ruim?
Elisa sentou e digitou antes mesmo de responder.
— Péssimo.
A partir dali, ele parou de disputar território. Quando ela pediu senha, ele deu. Quando ela mandou desconectar uma rotina, ele fez. Quando ela disse não toca nisso, ele tirou a mão do mouse como se a tela queimasse.
Às três e quarenta, recuperaram a base de contratos.
Às quatro e vinte, isolaram o pacote liberado por Leonardo Bastos.
Às cinco e dez, a primeira cópia segura começou a rodar.
A barra subia devagar. Um por cento. Dois. Três.
Elisa esfregou os olhos.
— Se travar aos sessenta, eu jogo esse notebook pela janela.
— A janela não abre.
— Então eu jogo você.
Rafael olhou para ela.
E sorriu.
Pouco. Cansado. Quase nada.
Mesmo assim, o sorriso mudou o ar da sala.
Elisa baixou os olhos antes que aquilo ficasse grande demais.
— Você devia fazer isso mais vezes.
— O quê?
— Parecer humano.
— Você devia me irritar menos.
— Não prometo.
Quando a barra chegou a cem por cento, o céu atrás dos prédios começava a clarear. A luz azul da manhã lavou a mesa bagunçada, os cabos no chão, as xícaras vazias, a guerra que eles tinham vencido por enquanto.
Elisa salvou a cópia externa e fechou o notebook.
— Pronto. Por enquanto.
Rafael soltou o ar devagar.
— Você salvou.
— Nós seguramos. Salvar é outra coisa.
Ela tentou levantar, mas a cadeira venceu. Deitou a cabeça sobre o braço dobrado na mesa.
— Cinco minutos.
— Elisa.
— Cinco.
Ele não insistiu.
O prédio começava a acordar lá embaixo, mas o andar ainda parecia preso entre a noite e o dia. Rafael desligou a tela mais forte, recolheu uma folha que ameaçava cair e ficou ao lado dela.
Elisa dormia com a mão perto do teclado. Alguns fios de cabelo cobriam parte do rosto. Sem o blazer impecável, sem as respostas afiadas, ela parecia menos distante. Ou talvez fosse ele que tivesse se aproximado demais.
Rafael tirou o paletó e o colocou sobre os ombros dela.
A mão dele ficou um segundo a mais no tecido aquecido pelo corpo dela.
Então veio. Um fragmento. Chuva. Dedos apertando os seus. Uma voz antiga, quebrada, pedindo para ele não soltar.
Rafael prendeu a respiração.
E, olhando Elisa dormir, teve medo de já ter soltado.