A Herdeira que Você Enterrou
Cap. 4 de 24 · 13%

A Sombra do Traidor

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A madrugada se desfez sem que Letícia percebesse. Suspensa entre o fantasma de uma vida e a promessa assustadora de outra, ela viu a manhã invadir a suíte presidencial. A luz crua do sol não era um convite, era uma acusação, iluminando as páginas dos diários de sua mãe espalhadas pelo tapete como folhas caídas de uma árvore genealógica envenenada. Ela não dormira. Lera até a caligrafia elegante de Liana se tornar um borrão de tinta e dor, uma herança que ela não sabia que carregava. *O nó que me prendeu... alcançou você.* As palavras ecoavam no silêncio do quarto, não com a voz de uma mãe que nunca conheceu, mas com o timbre assustadoramente familiar de sua própria resignação. Um nó. A descrição era cirúrgica. Quatro anos com Marcos. Um emaranhado de concessões, humilhações silenciosas e sonhos pulverizados. Um nó que ela chamava de amor e que, ao ser desatado, revelou-se uma forca. Ela se levantou, o estalo em suas costas um protesto contra a vigília, mas sua coluna permaneceu ereta. O vestido cinza que Arthur lhe dera parecia uma pele emprestada, inadequada. No banheiro, maior que sua antiga sala, o espelho refletiu uma estranha pálida, com olheiras como hematomas. Mas os olhos… os olhos ardiam com uma febre nova. Não era só raiva. Era a dureza de um diamante bruto, arrancado da terra à força. O toque discreto do interfone a fez sobressaltar. Atendeu, a mão um pouco trêmula. — Senhora Vance? — A voz era jovem, impressionada. — O senhor Marcos... seu ex-marido... está na recepção. Ele insiste que precisa vê-la. O ar fugiu de seus pulmões. Marcos. Ali. A imagem do rosto dele, torto de desprezo enquanto lhe atirava as malas, voltou como um soco. Aquele nó familiar apertou-lhe a garganta, o instinto de anos gritando para que se escondesse, negasse, fugisse. Mas a voz do diário era mais alta. *Não. Não mais.* — A senhora quer que eu mande ele subir? — a voz da assistente hesitou. — Não. — A decisão cortou o ar antes que a dúvida pudesse respirar. — Eu desço. Letícia desligou, o coração uma batida selvagem contra as costelas. Sem armadura. Sem tempo. Teria de ser com o vestido anônimo e a dignidade recém-descoberta. O reflexo no espelho ainda parecia frágil, mas pela primeira vez, o julgamento no olhar era seu, e não dos outros. As portas do elevador privativo se abriram no térreo, revelando a cena como um palco congelado. O lobby da Vance Joias, um templo de mármore e silêncio, tinha seu centro profanado. Marcos estava lá, discutindo com um segurança, o terno que ela passara tantas vezes agora parecendo uma fantasia barata sob o brilho do poder real. Ao vê-la, ele se transformou. A irritação deu lugar a uma máscara de arrependimento ensaiado. — Leti! — Ele caminhou em sua direção, os braços se abrindo numa familiaridade que a revirou por dentro. — Graças a Deus. Eu estava tão preocupado. O apelido, antes íntimo, agora soava como uma ferramenta de posse. Ela parou a uma distância segura, as mãos cerradas ao lado do corpo. Da sua posição, ela viu Miguel. Perto de uma coluna, imóvel, não como um guarda, mas como um observador. Seu olhar não estava no intruso. Estava nela. Avaliando. Esperando. Ele não iria intervir. Aquele era o primeiro teste que não fora armado por sua avó. — O que você quer, Marcos? — Sua voz saiu fria, limpa de qualquer emoção que ele pudesse usar. — Eu quero você. Eu errei, meu amor, fui um idiota. — A voz dele era veludo, a mesma que ele usava para amaciá-la depois de cada ferida. — Essa loucura de império, de herdeira... isso não é você. Volte pra casa. Pra nossa casa. Um riso curto, um som de vidro quebrando, escapou dela. — Nossa casa? A casa da qual você me jogou na calçada com a roupa do corpo? O rosto dele vacilou. — Eu estava com a cabeça quente. O trabalho, você sabe... — Eu sei. — A palavra foi uma navalha. — Sei que enquanto eu contava moedas para fazer o mercado, você mantinha um apartamento no centro. Para ela. O silêncio no saguão tornou-se denso, pesado. O segurança deu um passo discreto para trás. Nos olhos de Marcos, o choque era feio, genuíno. Não pela traição, mas por ter sido descoberta. A máscara de arrependimento se estilhaçou. — Quem te contou isso? — ele sibilou. — Importa? — Os diários de sua mãe a ensinaram sobre homens que entregavam prisões douradas. Marcos era apenas uma versão de bijuteria. — Você não veio aqui por mim. Veio pelo que eu represento agora. Pela mulher que você desprezava e que, de repente, passou a ter um preço. O choque dele azedou em fúria. — Você tá se ouvindo? Olha pra você, nesse vestido ridículo. Acha que pertence a esse lugar? Eles estão rindo de você, Letícia. Você sempre será a coitada que eu tirei do nada. O insulto, que dias atrás a teria destruído, agora soou oco. Ela sentiu o mármore frio e firme sob os pés descalços dentro dos sapatos inadequados. Sentiu o olhar de Miguel, não de pena, mas de atenção concentrada. — Talvez — ela concordou, e a concordância o desarmou. — Mas mesmo que eu seja tudo isso, eu não sou mais sua. E isso, Marcos, é a única coisa que importa. Agora, vá embora. Ela se virou, dando-lhe as costas. O ato de finalidade ressoou mais que qualquer grito. Cada passo em direção ao elevador era uma pequena libertação, e o zumbido em seus ouvidos era o som de correntes se partindo. Estava quase lá quando a voz dele a parou, despojada de qualquer artifício. — Você acha que acabou. Não era uma pergunta. Ela não se virou, mas sentiu um arrepio percorrer sua espinha recém-ereta. Sentiu, mais do que viu, o olhar de Miguel se aguçar. — Nós não acabamos — disse Marcos, num tom baixo, frio e factual. Era uma promessa. — Você não me enterra duas vezes, Letícia. As portas do elevador se abriram à sua frente. A vitória de segundos atrás se dissolveu em gelo. O nó que ela pensava ter começado a desatar apenas mudou de forma, apertando-se em outro lugar, mais fundo e mais escuro que antes.
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