A frase em prata líquida queimou em sua retina, mas a dor real veio depois. Uma agulha de gelo cravou-se em sua têmpora, precisa e cruel. Diana recuou da mesa como se a madeira estivesse em chamas, um gemido estrangulado escapando por entre os lábios. A dor se multiplicou, uma segunda pontada, uma terceira, como se algo dentro de seu crânio tentasse martelar uma saída. O cheiro de ozônio e poeira antiga adensou-se, sufocante.
As paredes da biblioteca secreta ondularam. A luz das velas se distorceu em borrões febris e ela caiu de joelhos, o som do próprio sangue pulsando nos ouvidos, alto e selvagem como o mar numa tempestade. Uma névoa branca tomou sua visão, e no centro dela, um flash de violeta-elétrico, a cor de um relâmpago aprisionado, explodiu atrás de seus olhos. Era uma cor que não pertencia ao mundo.
— Diana.
A voz de Marcus. Não era uma pergunta. Era um comando cortando a escuridão da entrada, carregado com a força de uma avalanche contida. Ele estava parado ali, uma sombra na sombra, mas a urgência em sua postura era uma força física. Ele sentira.
— Saia de perto do livro. Agora.
Ela tentou obedecer, mas a dor a prendia ao chão, uma âncora fincada em sua alma. Com um grunhido que era pura frustração de lobo, Marcus cruzou a distância em dois passos largos e silenciosos. Ele não a tocou. Sua mão bateu com força na capa do tomo antigo, fechando-o com um baque surdo que ecoou como uma sentença. No mesmo instante, a pressão em sua cabeça se desfez. A dor recuou, deixando para trás um cansaço sísmico e a promessa de uma enxaqueca.
Ofegante, Diana apoiou as mãos no chão frio, a cabeça pendendo. — O que... foi isso? — conseguiu sussurrar, a voz rouca.
Seu silêncio foi mais alto que qualquer resposta. Ela ergueu a cabeça, a raiva começando a borbulhar sob a confusão e a dor residual. O rosto dele era uma máscara de granito, mas seus olhos... seus olhos queimavam com uma intensidade que ela nunca vira. Não era surpresa. Era confirmação.
— Seus olhos estão normais de novo — disse ele, a voz perigosamente baixa.
— Meus olhos? O que está acontecendo aqui? Que livro é esse, Marcus?
Ele a encarou por um longo momento, o Alfa Supremo avaliando-a. Então, agachou-se, mantendo uma distância calculada. Perto o bastante para dominar, longe demais para confortar. — O copo que quebrou. As dores de cabeça. A luz. Nada disso foi um acidente. — Sua voz era o raspar de pedra contra pedra. — O que você é, Diana?
A pergunta a atingiu como um tapa. — Sou uma loba. Como você.
Um sorriso mínimo, desprovido de humor, crispou seus lábios. — Não. Você é algo mais. Algo que eles temiam e que seu noivo era estúpido demais para entender. Sua linhagem é mais antiga que a maioria das alcateias. A família Vance... — Ele fez uma pausa, deixando que o peso de seu próprio nome a esmagasse. — …carregou um traço adormecido. Poder elemental. O Conselho chamava de bruxaria.
Bruxa. A palavra soou alienígena, suja. Um conto de fadas para assustar crianças. Mas a dor que ela sentiu, a luz prateada sob seus dedos, a energia que quase a partiu em duas... era real. O exílio, a rejeição, o desprezo de Dominic... Tudo se reconfigurou em sua mente com uma clareza brutal. Não a expulsaram por ser fraca. Eles a expulsaram por medo.
— Então... — sua voz tremeu, não de fraqueza, mas de uma fúria fria e recém-nascida. — Eles me jogaram fora por algo que eu nem sabia que existia?
— Eles sentiram o cheiro da magia em você, sutil como o ozônio antes de uma tempestade. E na covardia deles, preferiram eliminar a ameaça a enfrentá-la. — A validação dele era uma faca de dois gumes: a inocentava da fraqueza, mas a marcava com um poder que ela não fazia ideia de como controlar.
Uma batida seca e urgente na porta da biblioteca principal quebrou o feitiço. — Alfa?
Marcus se levantou num movimento fluido, seu corpo tornando-se uma muralha entre Diana e o mundo. — Entre, Elias.
Um homem alto e de ombros largos entrou, seus olhos varrendo a cena — Diana no chão, o Alfa de pé ao lado da estante secreta entreaberta — com uma disciplina que mascarava qualquer curiosidade. Era o beta. A lealdade era um manto em seus ombros.
— Notícias da fronteira leste — disse Elias, sem rodeios. — A alcateia de Dominic. Estão se movendo.
Marcus não se virou, mas Diana sentiu o foco dele se aguçar como uma lâmina. — Eles não são tolos de atacar meu território.
— Não estão atacando, Alfa. E não estão caçando. São mais de vinte, em grupos pequenos. Nossos batedores dizem que eles carregam pás e ferramentas.
A revelação pairou no silêncio denso, mais pesada que o segredo de mil anos que acabara de ser quebrado. Pás. Ferramentas. Diana olhou para o livro fechado na mesa, para suas próprias mãos. *O sangue desperta a pedra...*
— Estão procurando por alguma coisa — Marcus constatou, a voz gélida.
Elias assentiu, o olhar sério. — Pior, Alfa. Estão cavando.
Cavando. A palavra ecoou na mente de Diana, encaixando-se com um clique aterrorizante no que acabara de descobrir. O livro. A linhagem. O poder. Não era uma coincidência. Seu olhar disparou para Marcus, mas ele não estava olhando para seu beta nem para a porta. Ele estava olhando para ela, e em seu rosto havia uma expressão de cálculo frio, sombrio. Ele sabia. Ele sempre soube.
O jogo não tinha apenas mudado. Ela era a peça central.
— O que eles estão procurando? — ela perguntou, a voz soando estranhamente firme no silêncio tenso, a pergunta dirigida não a Elias, mas a ele. Ao homem que a trouxera para ali, sabendo exatamente a tempestade que ela carregava por dentro.