A Mãe do Ano
Cap. 2 de 22 · 5%

O Império Oculto

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O limpador de para-brisa varria a chuva em arcos silenciosos, uma metralhadora hipnótica marcando o tempo. Yuka mantinha as mãos no volante com uma pressão contida, os nós dos dedos brancos, ignorando a voz polida do GPS que tentava guiá-la de volta para casa. A casa não era o seu destino. Cada gota que escorria pelo vidro trazia o rosto de Hikari Tanaka, o sorriso condescendente, a sugestão de que Haruto, seu filho, não pertencia àquele mundo. Ela deixou para trás as colinas exclusivas do Colégio Aoyama, trocando as mansões muradas pelos desfiladeiros de vidro e aço de Shinjuku. O carro deslizou para o subsolo de um arranha-céu anônimo, parando numa vaga reservada que a aguardava. Antes mesmo que o motor silenciasse, um manobrista de uniforme impecável abriu a porta. Ele não a saudou com um nome, apenas com um aceno de cabeça respeitoso e eficiente. O reconhecimento estava no silêncio. Ela era uma força, não uma pessoa. Deixando o casaco para trás, como se abandonasse a pele da mulher humilhada horas antes, Yuka caminhou em direção a um elevador privativo. A porta se abriu ao toque de sua impressão digital, engolindo-a sem som. O escritório no quinquagésimo sétimo andar era o antônimo da sala de Hikari Tanaka. Em vez de mogno e tradição, havia pedra negra, aço e um silêncio que parecia absorver a luz. As paredes eram janelas do chão ao teto, revelando uma Tóquio encharcada que se estendia a seus pés como um tabuleiro de jogo. Em um canto, uma única orquídea branca era uma concessão solitária à vida orgânica naquele domínio de precisão absoluta. — Bem-vinda de volta, Shirai-sama — disse sua assistente, Emi, levantando-se de uma mesa que era uma lâmina de metal. — Sua chamada com Zurique é em quarenta minutos. — Cancele — a voz de Yuka era outra aqui, mais baixa, vibrando com uma autoridade que não admitia réplica. — Remarque. Emi fez uma reverência mínima e voltou ao seu terminal. Nenhuma pergunta. Nenhuma hesitação. Era assim que o universo de Yuka funcionava. Ela parou diante de sua própria mesa, um monólito de obsidiana polida. Sobre a superfície vazia, um único porta-retrato digital exibia fotos de Haruto. Yuka tocou a tela, congelando a imagem em um menino de sete anos, um sorriso rasgado pela falta de um dente. Aquele sorriso. Era por ele. A raiva que sentira no colégio não era nada; um fogo de palha. O que sentia agora era o peso frio do aço. Era o fardo e o combustível da promessa que fizera a si mesma no dia em que o pai de Haruto as deixou: aquele menino jamais conheceria a fraqueza. Um toque no comunicador embutido na mesa. — Kenji. Agora. Menos de vinte segundos depois, a porta se abriu. Kenji, seu chefe de operações e a memória viva de seu império, entrou com a eficiência de quem não desperdiça um único movimento. Ele estava com ela há quinze anos, desde que o fundo era apenas uma aposta ousada. Hoje, ele era o guardião de segredos que poderiam abalar nações. Ele parou a exatos três passos da mesa, em silêncio. Yuka não olhou para ele. Seus olhos estavam fixos na cidade lá fora. — Colégio Internacional Aoyama. Kenji piscou uma única vez. Foi o equivalente a um grito de surpresa. — Quero a estrutura societária. A holding controladora. Balanços dos últimos cinco anos, auditados e não. Perfil de cada membro do conselho: afiliações, dívidas, vícios. — A voz dela era um bisturi, cortando o ar. — E um perfil completo da diretora. Hikari Tanaka. Kenji memorizou tudo, seu rosto uma máscara impassível. — Objetivo da análise? — ele perguntou, a voz neutra. — Alavancagem? Aquisição? Yuka pensou na metáfora de Tanaka. Na ponte que ela deveria construir para “ajudar” Haruto a sair. Um sorriso quase imperceptível tocou seus lábios. — Verificação estrutural — disse ela, a voz baixa e letal. — Quero saber exatamente onde a ponte quebra. Kenji assentiu, a ordem perfeitamente compreendida em seu subtexto. Em menos de um minuto, ele se foi. Sozinha, Yuka viu a raiva da tarde se transmutar. A humilhação se solidificou em propósito. Ela não iria queimar o colégio. Incêndios são caóticos, vulgares. Ela se tornaria a dona da terra, a controladora da água, a credora da hipoteca. Ela possuiria as fundações e, um dia, Hikari Tanaka acordaria em um castelo de cartas, sem entender como o chão sob seus pés desapareceu. Uma hora depois, seu terminal piscou. Gráficos e nomes preencheram a tela escura. A holding do Aoyama era uma fortaleza de tradição e dinheiro antigo, impenetrável à primeira vista. Mas toda fortaleza tem um ponto cego, uma rachadura. Seus dedos deslizaram pela tela, passando por nomes de famílias poderosas. E então parou. Um nome menor no conselho de administração. Tadaya Matsumoto. Um histórico de investimentos recentes e arriscados, dívidas alavancadas em outros setores. Um homem se afogando em silêncio, tentando manter a aparência. O elo fraco. O primeiro tijolo. Ela tocou o comunicador novamente. — Kenji. — Sim, senhora — a resposta foi imediata. Yuka observou o nome de Matsumoto brilhar na tela, uma presa destacada na escuridão. — Encontre o principal credor de Tadaya Matsumoto. E compre a dívida dele. Toda ela. Ela encerrou a chamada. Do outro lado do vidro, as luzes de Tóquio cintilavam, indiferentes. Hikari Tanaka havia cometido um erro fatal: ela cutucou uma mãe. Mas, pior do que isso, ela havia insultado uma predadora em seu próprio território, sem saber que o tabuleiro era muito maior do que a sua sala com cheiro de mogno. E Yuka Shirai não jogava para competir. Ela jogava para possuir.
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