Alta SociedadeCapítulo 1 de 1
Capítulo 1

Baile

O salão respirava dinheiro. Não o dinheiro vulgar, que faz barulho, mas aquele antigo, polido por gerações, capaz de se esconder no brilho baixo dos lustres, na prata sem digitais, no perfume importado que ficava suspenso entre um cumprimento e outro. Catarina Azevedo atravessou a entrada principal com a coluna ereta e um sorriso treinado, sentindo o peso delicado do vestido azul-marinho roçar seus tornozelos como água noturna. À sua volta, São Paulo fingia ser leve. Taças tilintavam. Risos subiam em ondas medidas. Mulheres com diamantes no pescoço inclinavam a cabeça para ouvir segredos que fingiriam esquecer. Homens de ternos impecáveis se apertavam as mãos com cordialidade suficiente para esconder contratos, dívidas e antigas ofensas. Catarina conhecia aquele idioma desde criança. — Ombros — murmurou sua mãe ao lado dela, sem mover os lábios. Catarina corrigiu a postura um centímetro. — Sorriso. Ela sorriu mais. — Menos. O sorriso se ajustou, domesticado. A mãe a observou por um segundo com a precisão de quem avalia porcelana rara antes de uma exposição. — Perfeito. Perfeito era a palavra que perseguia Catarina havia vinte e oito anos. Perfeito o cabelo preso num coque baixo, com duas mechas soltas apenas o bastante para sugerir espontaneidade. Perfeita a maquiagem que não escondia, apenas corrigia. Perfeita a ausência de fome, de cansaço, de opinião. Perfeita, sobretudo, a proximidade de Lucas Castro, que a esperava perto da escadaria central com uma taça de champanhe na mão e a expressão confiante de um homem acostumado a ser recebido como solução. Lucas era bonito de uma forma institucional. Maxilar limpo, sorriso fácil, olhos atentos às câmeras antes mesmo de cumprimentarem pessoas. Seu terno parecia recém-saído de uma campanha. Talvez estivesse. Talvez ele próprio fosse sempre uma campanha. Quando Catarina se aproximou, ele abriu o sorriso no ângulo exato. — Você está deslumbrante. — Obrigada. Ele beijou o rosto dela. Um beijo leve, público, posicionado. O flash de um fotógrafo estalou à esquerda. Lucas entrelaçou os dedos nos dela com naturalidade calculada. Catarina sentiu o gesto como uma pulseira fechando. — Sua mãe disse que hoje teremos uma boa oportunidade para as fotos — ele comentou, baixinho. — Minha mãe sempre sabe quando uma oportunidade está usando smoking. Lucas soltou uma risada curta, sem saber se ela brincava ou arranhava. — Estamos sendo observados. — Nós sempre estamos. Ele apertou a mão dela, não com afeto, mas com aviso. Catarina manteve o sorriso. O baile beneficente da temporada existia, oficialmente, para arrecadar fundos. Oficiosamente, era onde a alta sociedade decidia quem seria perdoado, quem seria convidado e quem deixaria de existir sem que uma palavra dura precisasse ser dita. Naquele ano, a presença dela ao lado de Lucas significava mais que um namoro assumido. Significava uma ponte entre os Azevedo e os Castro: um casamento que ainda não fora anunciado, mas já era tratado como alicerce de futuras alianças, inclusive uma costura empresarial que seu pai chamava de “necessária” e sua mãe de “elegante”. Catarina chamava de destino alheio. — Seu pai está com os Castro — disse Lucas, apontando com discrição para um grupo de homens próximo ao bar. — Parecem animados. Ela olhou. Seu pai ria com a cabeça levemente inclinada, aquele riso de salão que não alcançava os olhos. Ao lado dele, homens importantes falavam com a solenidade de quem transformava promessas em cifras. — Homens ficam animados sempre que conseguem vender o futuro dos outros — Catarina disse. Lucas virou o rosto para ela. — Hoje não, Catarina. Havia uma fadiga antiga naquela frase. Como se ele já estivesse casado com a necessidade de contê-la. Ela retirou os dedos dos dele com suavidade. — Vou respirar um pouco. — Quer que eu vá? — Não. A resposta saiu antes do verniz. Lucas piscou, ferido mais no orgulho que no sentimento. Catarina suavizou o tom. — É só um minuto. O salão está abafado. Ele olhou para as câmeras, para a mãe dela, para o pai dela, para tudo menos para ela. — Volte logo. Ela se afastou antes que ele encontrasse uma maneira educada de proibir. O corredor que levava ao jardim de inverno era mais silencioso. O som da orquestra chegava filtrado pelas portas altas, convertido em memória. Catarina caminhou devagar, inspirando o cheiro de flores brancas, cera de madeira e chuva distante. Lá fora, São Paulo estava coberta por uma umidade fina que borrava os vidros. Dentro, o mundo seguia perfeito demais para ser verdadeiro. Catarina parou diante das portas envidraçadas do jardim de inverno. Por um instante, ninguém a observava — nem mãe, nem fotógrafo, nem noivo de campanha. Ela fechou os olhos e respirou fundo, deixando o ar úmido limpar o cheiro doce do champanhe que ainda não havia bebido. Quando os abriu, viu o reflexo de um homem nas vidraças. Ele estava atrás dela, a alguns passos, observando-a com a tranquilidade de quem não pertencia àquele baile e tampouco se importava em fingir o contrário. Terno escuro, sem gravata. Mãos no bolso. Um estranho que não parecia perdido. — A senhorita está bem? — ele perguntou. A voz era baixa, séria, sem o açúcar treinado do salão. Catarina virou-se devagar. Pela primeira vez em horas, seu sorriso não foi corrigido por ninguém. Foi apenas dela. — Ainda não sei — respondeu. — Estou tentando descobrir.