O Faxineiro da Presidência
Cap. 5 de 20 · 20%

A Proposta Inesperada

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O fantasma do pai dela a assombrou no silêncio do elevador. Não o homem, mas a lembrança da madrugada: o terno amarrotado, o hálito azedo de uísque e fracasso, a súplica em vez de fúria. Daichi Morimoto falou de honra com olhos que haviam se esquecido do significado da palavra. E naquele vazio, Aisa entendeu que não havia luta. Havia apenas a queda, e a única escolha era como você se preparava para o impacto. A ascensão para a presidência era uma descida para o seu inferno pessoal. Aisa alisou a saia-lápis que parecia pertencer a outra mulher, de outra vida. A humilhação no arquivo, no dia anterior, era uma ferida latejante, mas a visão do pai quebrado a cauterizara, deixando no lugar uma determinação fria como o aço daquele elevador. A porta do escritório estava entreaberta. Um descuido arrogante, ela presumiu. Kaito estava em pé, de costas para a entrada, a silhueta recortada contra a janela panorâmica. O terno azul-marinho parecia forjado nele, uma armadura que o sol da manhã coroava com uma auréola profana. — Não é uma negociação. Resolva — A voz dele era baixa, cortante. Ele encerrou a chamada e, sem se virar, falou para o reflexo dela no vidro. — Oito e cinco. Seu primeiro dia e já está atrasada, senhorita Morimoto. O calor subiu ao rosto de Aisa, mas ela o forçou para baixo, trancando-o com o resto das emoções que não podia mais pagar. — Não vim pelo arquivo. Vim falar com você. Ele se virou lentamente. Havia um cansaço em seus olhos escuros que não combinava com a vitória. Não era a exaustão de uma batalha, mas o desgaste de uma longa vigília. — Nós não temos o que falar. Seu trabalho espera por você. No arquivo. Se não lhe agrada, a porta de serviço que usou por anos ainda está disponível. O insulto foi um bisturi, preciso e gelado. Aisa sentiu a ponta, mas se recusou a sangrar. Avançou um passo, parando diante da imensa mesa de carvalho que um dia fora o altar de sua família. — Eu vou fazer o trabalho — sua voz saiu firme, surpreendendo a si mesma. — Vou catalogar cada segredo sujo que minha família enterrou. Vou desenterrar cada osso. Um espasmo minúsculo repuxou o canto da boca dele. Um vislumbre de algo que poderia ser satisfação, ou talvez apenas curiosidade. — Um lampejo de bom senso. Estou impressionado. — Mas não como sua prisioneira — ela continuou, o coração batendo um ritmo frenético contra as costelas. — E não de graça. Eu proponho um acordo. O silêncio que se instalou era pesado, denso. A palavra “acordo” pairou entre eles, uma anomalia audaciosa. Kaito inclinou a cabeça, o gesto sutil de um predador que vê sua presa fazer algo inesperado. — Um… acordo? — repetiu, como se a palavra fosse um dialeto desconhecido e vulgar. — Você me contrata. Oficialmente. Com salário, contrato, horário. Serei sua funcionária, executando a tarefa que você determinou. Em troca, meu acesso aos arquivos será parte do meu trabalho, não parte de uma humilhação diária. A risada dele foi um estalo seco, desprovido de qualquer calor. — Você se encontra em uma posição peculiar para fazer propostas, senhorita Morimoto. Você tem uma dívida. Dívidas não são negociadas com contratos; são pagas com juros de suor e dignidade. Agora, se me der licença… Ele se virou, o gesto um ato de dispensa final. O desespero ameaçou subir pela garganta de Aisa, gelado e sufocante. Era sua última cartada, e ele a descartara sem nem olhar. — É a melhor oferta que vai receber — a voz dela cortou o ar, mais alta, mais afiada. Ele parou, a mão a centímetros do telefone. — O que disse? — Você quer a verdade. Um dossiê completo. Quem melhor para montá-lo do que a neta do traidor? — Ela deu a volta na mesa, diminuindo a distância, forçando-o a encará-la. Estavam perto agora. O cheiro dele, sândalo e algo mais limpo, mais austero, era uma presença sólida. — Alguém que entende o contexto, as pessoas, os negócios paralelos. Um funcionário comum levaria meses, talvez anos. Eu sei o que procurar. Serei mais rápida. Mais eficiente. — Seus olhos encontraram os dele. — Eu sou a sua melhor ferramenta. O escudo de indiferença dele finalmente trincou. Por trás da frieza, Aisa viu algo novo: surpresa genuína. Ele esperava lágrimas, raiva, súplicas. Não esperava um plano de negócios. Não esperava que ela transformasse a própria degradação em um ativo negociável. Seu olhar desceu para as mãos dela, que se agarravam à borda da mesa, os nós dos dedos brancos. Ele viu a mulher à sua frente: o cabelo com um fio fora do lugar, a exaustão manchando a pele sob os olhos, mas uma chama de determinação desesperada queimando neles. Não era mais a princesa arrogante. Era algo que ele não havia previsto em seu roteiro. — Você não quer um emprego — ele disse, a voz baixa, quase um murmúrio acusatório. — Você quer tempo. Quer uma brecha. Quer encontrar uma arma contra mim naqueles arquivos. — E você quer justiça — ela rebateu, sem desviar o olhar. — Estou lhe oferecendo o caminho mais curto até ela. Ou talvez… — Um desafio brilhou em seus olhos. — Talvez a caçada seja mais interessante que a captura. A mandíbula dele se contraiu. Atingido. Ele deu um passo para trás, restabelecendo a distância, a armadura se recompondo no lugar. O momento de vulnerabilidade se fora. — Saia do meu escritório. — A oferta é válida por vinte e quatro horas — ela disse, mantendo o queixo erguido enquanto recuava para a porta. Parou com a mão na maçaneta. — Pense nisso como um investimento na eficiência da sua própria vingança. Ela fechou a porta atrás de si, o clique suave soando como um xeque-mate. Kaito permaneceu imóvel. O silêncio voltou, mas agora estava carregado com a audácia dela. Ele caminhou até a janela, a cidade que conquistara estendida a seus pés. A proposta era um insulto, um truque transparente. E, ainda assim, a lógica era impecável. Irritantemente impecável. Seu plano era simples, limpo: arruiná-los, expor a verdade, assistir ao desmoronamento. O controle era absoluto. A proposta dela oferecia velocidade em troca de controle. Verdade em troca de proximidade. Ele olhou para o próprio reflexo no vidro, e por um instante não viu o CEO da Morimoto Tech, mas o garoto que perdera tudo. O plano era a única coisa que o sustentara por anos. Simples e limpo. Aisa Morimoto o acabava de tornar eficiente e sujo. E a escolha, pela primeira vez em muito tempo, não era óbvia.
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