O vestido era uma armadura de seda e diamantes, pesado como uma condenação. Cada flash de câmera feria os olhos, cada sorriso forçado que ela oferecia era uma nova fissura em sua compostura. O salão de festas da mansão Almeida transbordava de poder, riqueza e mentiras polidas, e Maya era o troféu no centro de tudo, exibida antes de ser entregue. Seu noivo, Marcos Naves, mantinha uma mão possessiva na base de suas costas, o toque leve, mas a mensagem, um ferro em brasa: *minha*.
— Deslumbrante, querida. Absolutamente deslumbrante — ele murmurava para os acionistas e rivais, mas seus olhos nunca encontravam de fato os dela. Varriam o salão, calculando ativos, medindo alianças. Ela era a peça final que uniria os impérios Naves e Almeida. A náusea subiu, ácida. Ela precisava de ar, de um único instante que fosse só seu.
Com uma desculpa educada que ninguém realmente ouviu, ela se desvencilhou do toque dele. Marcos já estava imerso em uma conversa com um senador. Maya flutuou pela multidão, seu sorriso congelado um escudo perfeito, e escapou para uma das varandas de pedra que se debruçavam sobre a escuridão do jardim. O ar frio da noite foi um alívio em sua pele febril. Ela se apoiou no parapeito, fechando os olhos, o som abafado da orquestra apenas um pulsar distante.
— Se escondendo à vista de todos, senhorita Almeida?
A voz dele, grave e quieta, não a assustou. Era como se uma parte dela o estivesse esperando. Liam Vance estava parado na outra ponta da varanda, uma silhueta contra a hera escura que subia pela parede. Ele não olhava para ela, e sim para a escuridão do jardim, o corpo num estado de repouso que era mais tenso que o de qualquer soldado em alerta.
— Talvez eu esteja apenas procurando um lugar onde o ar não seja tão caro — respondeu ela, sem se virar.
Ele finalmente a encarou. Seu terno preto, de corte impecável, não conseguia disfarçar os ombros largos e a rigidez de um corpo forjado para o combate, não para bailes.
— Nesse salão, a melhor forma de se esconder não é fugindo. É dançando.
Maya soltou uma risada curta, sem humor. — Dançar? Com meu noivo, que me segura como se eu fosse um título de propriedade?
O silêncio dele foi uma resposta. Então, passos lentos e medidos no mármore. Ele parou ao seu lado, não perto o suficiente para ser íntimo, mas perto o bastante para quebrar sua solidão. O cheiro dele era diferente de todos os outros homens ali dentro. Não era de colônia cara, mas de noite, ozônio e uma disciplina férrea.
— Então dance comigo — ele disse. Não foi um convite, foi uma declaração tática. E estendeu a mão.
O gesto pairou entre eles, uma oferta de camuflagem. Seu coração tropeçou, uma batida errada e alta. A lógica gritava para recusar, para correr. Aquele homem era o inimigo, a ruína de sua família. Mas seu corpo, esgotado de lutar, ansiava por um momento de trégua. Mesmo que fosse nos braços do perigo.
Hesitante, ela pousou os dedos sobre a palma da mão dele. A pele era calejada, inesperadamente quente contra a sua. Uma corrente elétrica, baixa e perigosa, subiu por seu braço. Ele a guiou de volta para a penumbra do salão, não para o centro iluminado, mas para uma área mais escura, perto das colunas, onde os casais se moviam como sombras.
A orquestra tocava uma melodia lenta, um lamento de violino. Ele a puxou para si, e a mão dele pousou firme na base de sua coluna. Não era o toque possessivo de Marcos, nem o toque hesitante de um cavalheiro. Era um ponto de controle, absoluto e seguro. Sua outra mão envolveu a dela, o polegar roçando suavemente seus nós dos dedos. Maya prendeu a respiração.
Eles começaram a se mover. Liam não dançava como os outros. Não havia floreios, apenas um comando silencioso e eficiente. Ele a guiava com a pressão mínima dos dedos, seus corpos se movendo como um só, e pela primeira vez naquela noite, ela não estava sendo exibida. Estava sendo contida. Ancorada. As luzes tornaram-se borrões, as conversas, um murmúrio indistinto. Restava apenas o ritmo lento da música e o centro de gravidade que era o homem à sua frente.
Ela ergueu o olhar. Os olhos cinzentos dele já estavam cravados nos dela, intensos, lendo cada emoção que ela tentava trancar. Contra todo o bom senso, ela relaxou um milímetro em seus braços, um suspiro escapando de seus lábios. Era a rendição mais perigosa de sua vida.
Foi então que ela sentiu a mudança. Sutil. A respiração dele não se alterou, mas o corpo enrijeceu sob suas mãos. Um músculo saltou em sua mandíbula. Os olhos de Liam se desviaram dos dela por uma fração de segundo, focando em algo por sobre seu ombro, a atenção de repente aguda como uma lâmina. Ela tentou virar a cabeça instintivamente, mas a pressão da mão dele em suas costas a manteve no lugar, firme.
— Não olhe — ele sussurrou, a voz rente à sua orelha, um arrepio percorrendo sua espinha. O comando era inquestionável.
Ele continuou a dançar, girando-a lentamente, mas agora o movimento era calculado, um reposicionamento tático. A dança se tornara, de fato, um esconderijo. Então ela ouviu. Fragmentos de uma conversa baixa e urgente, vinda de trás de uma coluna próxima. A voz de seu pai.
— …a carga de Santos precisa ser liberada até quarta. Sem falhas.
Uma outra voz, mais grave e desconhecida, respondeu: — Naves garante o porto. Mas o custo subiu.
— Pague. Apenas garanta que não haja rastros — a voz de seu pai era fria, cortante. — Como da última vez.
A frase pairou no ar, um eco sombrio das palavras que ela lera no diário de sua mãe. A música terminou, o último acorde de violino se desfazendo no silêncio tenso. Por um instante, eles permaneceram imóveis, a proximidade deles agora uma conspiração forçada.
Então, ele a soltou. O calor se dissipou instantaneamente, deixando-a fria e terrivelmente exposta. A máscara profissional de Liam estava de volta no lugar, seus olhos tão impenetráveis quanto vidro fosco. Ele lançou um olhar para o pai dela, que agora ria com Marcos Naves, alheio a tudo. Seu olhar voltou para Maya, tão afiado que a cortou.
— Esta festa celebra um acordo, senhorita Almeida — disse ele, a voz desprovida de qualquer calor anterior. Fez uma pausa, deixando o peso da verdade se instalar entre eles. — A pergunta é: qual deles?