As batidas na porta soaram como uma pancada no peito. Helena congelou, os dedos pairando sobre as teclas empoeiradas do piano de seu pai. O apartamento, seu santuário de partituras e silêncio, encolheu ao redor dela, transformando-se numa armadilha. A madeira estremeceu com outro golpe, mais brutal. Não era a vizinha. Eram eles. As vozes ásperas do telefone, as ameaças veladas que agora chegavam para serem cumpridas.
O pânico subiu como uma onda, gelado e rápido. Ela recuou, buscando com o olhar algo, qualquer coisa. O telefone na mesinha era inútil. Ligar para quem? Para a polícia, e confessar que a herança do seu respeitado pai não passava de uma dívida colossal com as pessoas erradas? A fechadura estalou com a força de um osso quebrando e a porta se escancarou.
Dois homens preencheram o vão, largos em ternos que repuxavam nos ombros. O cheiro de rua e cigarro barato invadiu o espaço, profanando o ar que antes cheirava a papel antigo e cera. Um deles tinha o rosto marcado por uma cicatriz esbranquiçada; o outro sorriu, um brilho metálico no fundo da boca.
— Signorina Bianchi — a voz do primeiro era oleosa, satisfeita. — Estávamos com saudades.
Helena deu um passo para trás, a mão roçando o pêndulo frio de um metrônomo sobre o piano. Uma arma patética. Seu coração não batia mais, apenas vibrava na base da garganta, roubando-lhe o ar.
— O que vocês querem? — A pergunta saiu como um sussurro frágil.
— O que é nosso — disse o segundo, passeando pelo cômodo, seus olhos avaliando cada objeto com desprezo. Ele parou diante de um porta-retrato, o dedo sujo pairando sobre o rosto sorridente do pai dela. — Seu pai foi... descuidado. E os juros, signorina, nunca dormem.
Seu olhar pousou no piano de cauda, um brilho malicioso nos olhos. — Um belo móvel. Talvez pague a primeira parcela.
— Não toque nisso. — A frase escapou, dura e instintiva. Uma faísca de desafio no meio do terror.
O homem riu, o dente de metal brilhando. Ele ergueu a mão, não para o retrato, mas para as teclas do piano, um gesto de pura profanação. A mão, no entanto, nunca completou o arco.
Um terceiro homem estava parado na porta. Simplesmente ali, como se tivesse se materializado do silêncio. Não era corpulento como os outros, mas a atmosfera da sala se comprimiu ao redor dele. O poder que ele emanava não precisava de volume.
Os dois brutamontes congelaram. O sorriso de um murchou, o olhar do outro se tornou acuado. Viraram-se com a lentidão de servos pegos em falta.
— Don Vittorio. — A reverência na voz era grossa de medo.
O recém-chegado não lhes deu atenção. Seus olhos, de um cinza cortante como gelo, estavam cravados em Helena. Ele vestia um sobretudo escuro, impecavelmente cortado, um estudo em poder contido. Nenhuma arma à vista, apenas uma calma absoluta que era infinitamente mais intimidante do que a violência dos outros.
Ele entrou, e o som dos seus sapatos de couro no assoalho foi a única coisa que quebrou a quietude.
— O dinheiro que ele devia era meu. — A voz de Vittorio Giordano era baixa, sem emoção, mas cada palavra era uma sentença. — E o método de cobrança é meu.
Os homens encolheram-se visivelmente.
— Nós só... estávamos lembrando a signorina do débito, Don Vittorio. Em seu nome.
Vittorio finalmente lhes concedeu um olhar. Foi rápido, desdenhoso, como se olhasse para uma mancha no chão.
— Fora.
Não foi uma ordem. Foi um fato. Eles se esgueiraram para fora como ratos, desaparecendo no corredor. Vittorio fechou a porta com um clique suave, selando a sala. O espaço, agora com apenas os dois, pareceu ainda menor, o ar rarefeito. Ele e ela. A presa e um predador muito mais perigoso.
Seus olhos cinzentos passearam pelo apartamento, notando o sofá gasto, as pilhas de livros, as partituras amareladas. Seu olhar demorou-se no piano, com uma apreciação que era quase pior que o desdém do outro. Então, voltou para ela.
— Helena Bianchi — ele disse o nome dela como um fato que acabara de confirmar. — Filha de um homem que fez promessas que não podia cumprir. Agora, a dívida é sua.
O estômago dela revirou. Ele sabia tudo. Cada detalhe da sua ruína.
— O que... o que vai fazer? — ela conseguiu perguntar, a voz trêmula.
Ele se moveu, não na direção dela, mas até a janela, observando as luzes distantes de Milão. — A dívida é impagável para você. Eu sei disso.
— Não tenho nada — ela sussurrou, a confissão de sua derrota.
Vittorio se virou, o rosto metade na sombra. — Você está errada. Você tem uma coisa.
Ele atravessou a distância entre eles em passos lentos e deliberados, parando perto o suficiente para que ela sentisse a energia que irradiava dele. Não era calor. Era pressão. Ele a observava não com luxúria, mas com a precisão de um negociador avaliando sua única moeda de troca.
— Eu preciso de uma esposa — ele declarou, o tom tão pragmático quanto se discutisse o clima. — Uma fachada. Alguém com um nome limpo, uma história que inspire simpatia, para se sentar ao meu lado. Uma Signora Giordano.
O mundo inclinou. Helena piscou, a mente tentando processar a absurda transição da violência bruta para aquela proposta insana. Uma esposa.
— Por quê? — a palavra arranhou sua garganta.
Um vinco de impaciência surgiu entre as sobrancelhas dele. — Porque preciso de uma. Porque você não tem outra opção. E porque salvar a jovem pianista órfã da ruína é uma narrativa que ninguém questionará. Conveniência, signorina. A sua e a minha.
Em troca, sua proteção. A dívida desapareceria. Ninguém nunca mais ousaria forçar sua porta. Seu silêncio seria comprado. Sua vida seria dele.
— É uma jaula — ela disse, a voz baixa, mas firme.
Pela primeira vez, algo brilhou nos olhos dele. Um respeito relutante. — Todas as vidas são. A minha apenas é mais confortável.
Ele deu o último passo, o espaço entre eles agora íntimo e sufocante. Helena sentiu o cheiro dele, uma mistura cara de tabaco e algo amadeirado. Não recuou. Estava paralisada entre a certeza da destruição e uma salvação que soava como o inferno.
Vittorio estendeu a mão na direção dela, a palma virada para cima. Não era um toque, era uma oferta. Uma ordem.
— Você tem até o amanhecer para pensar, mas a decisão já foi tomada. Meu motorista estará lá embaixo em cinco minutos. Não me faça perder mais tempo do que seu pai já me fez.