O Preço da Minha Proteção
Cap. 4 de 24 · 13%

Melodia Proibida

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A mansão Giordano não era silenciosa; ela impunha o silêncio. Um vácuo que engolia os passos em tapetes espessos e se agarrava às cortinas de veludo como poeira. Nos primeiros dias, Helena tentou lutar contra ele. Agora, no que imaginava ser o quarto dia, sentia o silêncio vazando para dentro dela, diluindo quem era. Ela se tornara mais um dos móveis cobertos por lençóis brancos, uma presença ornamental aguardando um propósito que nunca chegava. A presença de Vittorio era como o próprio silêncio: inconsistente, mas absoluta. Ele surgia sem aviso, uma sombra na soleira, o contraponto perfeito à sua existência fantasmagórica. As refeições eram trocas de talheres contra a porcelana, palavras monossilábicas suspensas no ar pesado. A indiferença dele era uma forma de controle mais eficaz que qualquer ordem, erodindo-a por dentro. Foi durante uma de suas andanças sem rumo, mapeando os corredores de sua própria prisão, que ela encontrou uma porta dupla no final de uma ala esquecida. Diferente das outras, não estava trancada. Ela a empurrou, e o ar que a recebeu era denso, carregado com o cheiro adocicado de madeira polida e tempo. Era um conservatório, uma parede inteira de vidro revelando uma parte selvagem e negligenciada do jardim. E no centro, sob uma lona grossa, um contorno que fez seu coração tropeçar. Helena se aproximou, os pés movendo-se com uma autonomia esquecida. Cada passo sobre o assoalho era um ato de profanação. As mãos, trêmulas, puxaram a cobertura. A poeira subiu em espirais na luz pálida, revelando o verniz negro de um piano de cauda. Um Bösendorfer. A respiração dela ficou presa na garganta. Não era um instrumento; era um monumento adormecido. Tocar. O pensamento foi um choque elétrico. Seria um grito. Uma quebra de contrato com o silêncio que a definia naquele lugar. Seria um ato de identidade, uma declaração de que Helena Bianchi ainda existia sob a casca da *Signora Giordano*. Seus dedos, incertos, traçaram a poeira sobre a tampa fechada. Um cronômetro do abandono. Com um movimento que drenou toda a sua coragem, ela ergueu a tampa. O rangido foi obsceno, um rasgo no tecido do vazio. As teclas de marfim e ébano, imaculadas, pareciam um desafio. O medo a paralisou por um instante — o medo de Vittorio, de sua fúria gelada, de ser punida por ousar fazer um som que fosse só seu. Mas a necessidade de se lembrar de quem era foi maior. Sentou-se no banco, que protestou com um estalo. Fechou os olhos, inspirando o cheiro de poeira e memórias. E então, tocou. A primeira nota de um noturno de Chopin saiu como um sussurro, pedindo permissão para existir. A segunda veio mais confiante. Na terceira, suas mãos se lembraram. A música explodiu dela, não como som, mas como sentimento puro. Notas que eram a solidão das salas vazias, a melancolia do jardim selvagem, a raiva silenciosa de sua impotência. Era uma confissão derramada no ar, uma torrente de vida que empurrava o silêncio para os cantos, que fazia a poeira dançar e o vidro da janela vibrar. Ela se perdeu. Esqueceu a mansão, o acordo, o homem que era seu dono. Havia apenas ela e a música, um diálogo com a garota que um dia sonhou com palcos, não com gaiolas douradas. Era por isso que ele a odiaria. Porque ao tocar, ela se tornava inalcançável. Livre. Quando a última nota se desfez no ar, o silêncio que retornou era diferente. Não era vazio. Estava carregado, denso com uma presença. Helena abriu os olhos. Vittorio estava parado na porta entreaberta, o corpo inclinado contra o batente. Não era a figura imponente de sempre. A jaqueta estava jogada sobre o ombro, as mangas da camisa dobradas nos antebraços. A luz do fim de tarde suavizava as arestas de seu rosto, e seus olhos não a fitavam. Olhavam para um ponto vago, logo acima do piano, como se ele estivesse assistindo à música se materializar no ar. Ele não a analisava. Ele escutava. Ou melhor, ele se lembrava. Ela congelou, as mãos pairando sobre as teclas como pássaros feridos. O sangue gelou em suas veias, antecipando a explosão. A ordem de parar. A reprimenda por sua rebelião. O silêncio se esticou, cada segundo uma tortura. Então, ele se moveu. O encanto se quebrou. A máscara de controle deslizou de volta para o lugar enquanto ele se endireitava e entrava na sala. O som de seus sapatos no assoalho era deliberado, rítmico, o único ruído no mundo. Ele contornou o piano, arrastando a ponta dos dedos pela madeira, deixando um rastro limpo na poeira. Parou ao lado dela, tão perto que ela podia sentir o calor de seu corpo. Helena prendeu a respiração, esperando o veredito. Ele olhou para as mãos dela, que agora tremiam visivelmente sobre o marfim. — Está desafinado — ele disse, a voz baixa e neutra. Uma constatação, não uma crítica. A frase a desarmou completamente. Era tão inesperado que ela não soube como reagir. Ele se afastou, caminhando de volta para a porta como se o momento nunca tivesse acontecido. Na soleira, ele parou, mas não se virou. — Mandei afiná-lo pela última vez quando minha mãe morreu. — A voz dele era apenas um murmúrio, quase engolido pela sala. — Ninguém o tocou desde então. Ele se foi. Os passos dele recuaram pelo corredor, deixando-a sozinha com o eco de suas palavras. Helena continuou sentada, paralisada, encarando a porta vazia. O ar crepitava. Aquilo não fora uma punição. Fora uma confissão. Uma chave para um cômodo trancado de sua alma que ele lhe entregara sem perceber. Ele não apenas a ouvira tocar; ele lhe dera o fantasma que assombrava aquela melodia. E agora, aquele fantasma era dela também. Ela olhou para as próprias mãos. Elas não tremiam mais de medo. Tremiam com o peso do que acabara de receber: a primeira rachadura na armadura de Vittorio Giordano. A primeira arma que ela não sabia se queria — ou ousaria — usar.
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