O Segredo da Sala de Espera
Cap. 4 de 20 · 15%

Rastros do Poder

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A luz cinzenta de São Paulo infiltrou-se pelas frestas da persiana, encontrando Cecília sentada na escuridão. A xícara de café, intocada há horas, era um lago frio e amargo ao seu lado. O sono não era uma opção. Em sua mente, duas forças colidiam em um ciclo vicioso: o rosto de Antunes, torcido em desprezo, e a promessa de David, dita com uma tranquilidade assustadora. *“Eu não vou permitir.”* Uma frase que soava absurda contra a máquina implacável de um hospital. Homens como Antunes não eram detidos; eles eram a própria engrenagem. O jaleco branco pendurado na porta do quarto parecia um espectro. Vestir-se foi um ato de resignação, o tecido frio contra a pele um lembrete do que estava prestes a perder. O caminho para o cadafalso, ela pensou, com uma ironia que não lhe trouxe conforto. O hospital a recebeu com um silêncio que gritava. O ruído familiar da troca de plantão estava lá, mas a atmosfera havia se enrarecido. Conversas morriam quando ela se aproximava. Olhares a seguiam pelas costas, uma mistura de pena e curiosidade mórbida. Cecília sentia-se um animal ferido, exposto em uma arena. Ignorando a rota para a administração, um impulso a levou para a pediatria. Precisava saber de Maya. A enfermeira do balcão, uma novata de olhos assustados, digitou o nome no sistema. Sua testa se franziu. — Maya... Ah. Suíte 401. Ala privada. Cecília piscou. A ala privada era outro universo, um oásis de luxo para quem podia comprar a saúde a peso de ouro. Como uma criança admitida de forma irregular na emergência acabara lá? A resposta a atingiu antes mesmo que ela chegasse ao corredor exclusivo. A porta do 401 estava entreaberta e, através da fresta, a silhueta de David era inconfundível. Ao seu lado, gesticulando para um tablet, estava o Dr. Moraes, o pneumologista pediátrico mais renomado do país. Um homem cuja agenda era uma fortaleza e que certamente não respondia a chamados de emergência no meio da noite. Um calafrio percorreu a espinha de Cecília, um tipo diferente de medo. Não era sobre perder o emprego. Era sobre não entender as regras do jogo que estava jogando. Ela recuou antes de ser vista, o coração batendo descompassado. A promessa de David não era apenas uma palavra. Era uma força invisível que já estava dobrando a realidade daquele lugar. Com as pernas pesadas, ela desceu para o andar da administração. A secretária de Antunes, que sempre a tratou com a cordialidade de uma máquina, levantou a cabeça. Seus olhos, normalmente apáticos, estavam arregalados. Ela se atrapalhou com uma pilha de papéis. — Doutora Vasconcelos... O Dr. Antunes... a reunião... — ela engoliu em seco. — Foi... cancelada. — Cancelada? — a palavra soou oca, sem sentido. — Ele me intimou às oito. Disse que era inadiável. Nesse momento, a porta do escritório se abriu com força. Antunes surgiu, o rosto congestionado, o nó da gravata estrangulando seu pescoço. Ele a viu e estacou. Por uma fração de segundo, a fúria brilhou em seus olhos, mas foi imediatamente engolida por algo que fez o estômago de Cecília revirar: pavor. Antunes, o diretor que se movia pelos corredores como um deus menor, estava encolhido pelo medo. — Vasconcelos. — a voz dele saiu áspera, um arranhão. Faltava o peso do comando. Ele não conseguia sustentar seu olhar. — O seu... procedimento administrativo... foi avocado. Por uma instância superior. Aguarde comunicação. Volte ao trabalho. Ele passou por ela em passadas duras e rápidas, deixando para trás o cheiro forte de seu perfume caro misturado a uma nota azeda de transpiração. Cecília ficou imóvel no corredor, a confusão superando qualquer alívio. Instância superior? Naquele hospital, não havia nada acima de Antunes, exceto o próprio conselho. A ideia era tão absurda que ela a descartou. O resto do dia passou em um nevoeiro. Ninguém a abordou. Nenhuma notificação chegou. Era um fantasma funcional, realizando suas tarefas em um limbo de incerteza, sob olhares que não sabiam mais como classificá-la. Ao chegar em casa, a exaustão finalmente a alcançou. Só queria o silêncio. Foi quando trocava de roupa que seu celular tocou. Número privado. — Doutora Cecília Vasconcelos? — Sim. — Meu nome é Marcos Ribeiro, do sindicato dos médicos. A senhora me ligou ontem... sobre uma reunião com o Dr. Antunes. Cecília fechou os olhos, apoiando-se na parede. O golpe final. Tarde demais. — Liguei. Mas foi cancelada. Eu não... — Eu sei por que foi — a voz de Marcos não era a de um burocrata. Havia um tom de reverência, de quem testemunhou algo inexplicável. — Doutora, eu faço isso há vinte anos. Eu nunca vi nada, absolutamente nada, como o que aconteceu hoje. Recebi uma ligação. Não era do hospital. Veio direto do conselho administrativo do Grupo Santecor. Os donos de toda a rede. Cecília escorregou pela parede até se sentar no chão, o celular pressionado contra a orelha. Santecor. O nome flutuava no topo do organograma, uma entidade quase mítica. — O que... o que eles disseram? Houve uma pausa. Ela podia ouvir a respiração do homem do outro lado da linha. — Eles não 'disseram'. Eles 'informaram'. Que a queixa contra a senhora foi retirada. Que todos os registros da sua infração foram expurgados, permanentemente. Que o Dr. Antunes passaria por uma 'reorientação de prioridades'. E então... — a voz dele baixou para um sussurro conspiratório, quase assustado. — Disseram que era para eu lhe dar um recado. Palavras exatas. O silêncio esticou, pesado, preenchendo cada canto do apartamento de Cecília. Ela prendeu a respiração. — Disseram que a dívida estava paga. A palavra não trouxe alívio. *Dívida*. Ela ecoou no vazio, não como o som de libertação, mas como o clique metálico e definitivo de uma algema se fechando em seu pulso.
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