Dez anos, e a primeira coisa que Paraty fez foi tentar quebrar os tornozelos de Marina. Cada passo nas pedras irregulares era uma punição que subia pela sua coluna, um lembrete físico de que ela não pertencia mais àquele chão. O sol de fim de tarde banhava as fachadas coloniais numa luz dourada e impiedosa, fazendo o ar pesado de maresia e jasmim parecer grudar em sua pele, dificultando a respiração. Era uma beleza que sufocava.
A pousada da avó, “Recanto da Gaivota”, era uma ferida aberta no meio de tanta cor. As duas janelas azuis no andar de cima pareciam olhos fechados, a placa de madeira desbotada, uma lápide. Marina apertou a alça da bolsa de couro, o material liso uma âncora para a vida que construíra longe dali. Não viera por nostalgia. Viera para amputar. Vender e cortar a última raiz que a prendia a esse lugar.
Lá dentro, o cheiro era de poeira e ausência. Móveis cobertos por lençóis brancos feito fantasmas aguardavam em silêncio. Seus passos no ladrilho hidráulico ecoavam altos demais. O plano era frio, cirúrgico: corretor, assinatura, o primeiro ônibus para São Paulo. Vinte e quatro horas para apagar dez anos. Sobre o balcão da recepção, no entanto, uma pasta com a caligrafia elegante da avó sabotou sua eficiência. Entre recibos e reservas antigas, um clipe enferrujado prendia uma nota adesiva amarelada. Apenas cinco palavras: “Verificar limite com o casarão.”
O casarão.
O nome não dito explodiu em seu peito, um único golpe surdo e doloroso. O casarão vizinho. O sol imponente ao redor do qual a pequena pousada sempre orbitara. Marina fechou os olhos, mas a imagem da fachada branca e ocre estava gravada em suas pálpebras. Era apenas um imóvel. Um vizinho com uma pendência burocrática. Uma formalidade antes da fuga. Engoliu em seco, a determinação endurecendo seus ombros. Melhor acabar logo com isso.
Os vinte metros até o portão de ferro do casarão pareceram um quilômetro. Cada pedra da rua era uma memória: ali, ele a esperara depois do trabalho; daquela janela, ela o vira ler até tarde. O jardim, antes selvagem, agora era um primor de simetria. A pintura, impecável. Alguém cuidava muito bem do lugar. Respirando fundo um ar que não preenchia seus pulmões, ela empurrou o portão, que rangeu baixo, acusador.
Subiu os três degraus de pedra, a mão pairando diante da porta de madeira maciça. A batida que deu soou para si mesma como uma confissão. O silêncio que se seguiu foi quase absoluto, até que passos soaram do lado de dentro. Firmes. Deliberados. Não eram os passos arrastados do pai dele. Eram mais jovens. Mais pesados.
A porta se abriu.
E o mundo de Marina parou de girar. Não de um jeito poético. Parou com a violência de uma colisão. O ar foi arrancado de seus pulmões, os sons da rua — o mar, as vozes, os pássaros — sugados para o vácuo que se abriu entre eles na soleira da porta.
Era ele.
Dez anos o haviam esculpido. Havia novas linhas ao redor de sua boca e de seus olhos, linhas que ela não vira se formar. O cabelo mais curto, uma barba rala cobrindo um maxilar que se contraiu no instante em que seus olhares se cruzaram. Os ombros estavam mais largos sob a camiseta cinza, um corpo forjado pelo tempo e pelo trabalho, não mais o rapaz esguio que ela deixara para trás.
Mas os olhos... Os olhos eram os mesmos. A mesma mistura incerta de mel e verde que a luz de Paraty sempre alterava. E agora, eles a fitavam com um vácuo de emoção. Uma frieza polida, profissional, como se ela fosse uma completa estranha.
— Pois não? — A voz dele era mais grave, a formalidade uma muralha erguida no espaço de uma batida de coração.
Marina abriu a boca, mas as palavras haviam se transformado em cinzas. Seu plano, sua eficiência, a mulher de negócios que forjara em São Paulo — tudo se desintegrou sob aquele olhar. Ela era de novo a garota de vinte e dois anos, paralisada e em fuga.
Um brilho de reconhecimento finalmente passou pelos olhos dele, mas foi imediatamente apagado por algo mais duro. Gelo. Mágoa antiga, afiada pela indiferença. Ele se endireitou minimamente, um ajuste quase imperceptível que a excluiu do seu mundo.
— Marina. — Seu nome, na voz dele, não foi uma saudação. Foi uma constatação. Uma sentença.
Ela continuou imóvel, a bolsa uma âncora inútil agora que o mar a havia engolido. Todas as desculpas que nunca dera e todas as mentiras que contara a si mesma evaporaram. Só restavam os dois, e o abismo de três mil seiscentos e cinquenta dias entre eles. Ele esperou um segundo, dois, o silêncio dela pesando no ar quente. Então, inclinou a cabeça, os olhos frios a perfurando.
— O que você quer aqui?