O cheiro de café fresco lutava para preencher a cozinha, mas era a risada de Mel que vencia. Com um movimento treinado, Clarice virou no ar uma panqueca com o formato imperfeito de um dinossauro. Na sua cadeirinha, Mel batia os pés descalços, os cachos loiros tremendo de expectativa.
— Rápido, mamãe! O T-Rex tá com fome de mil anos!
Um sorriso que realmente alcançava seus olhos se formou no rosto de Clarice.
— Um rei dinossauro precisa de um banquete preparado com perfeição, meu amor. Um segundo.
Foi então que o furacão Arthur Ferraz se materializou na porta da cozinha. Não havia mais o homem que entrava na ponta dos pés para roubar um beijo e um pedaço de pão quente. Havia o CEO. O terno cinza-chumbo, impecável, valia mais que o primeiro carro deles; o celular já estava colado à orelha, uma extensão de seu corpo.
— Remarca com eles. Meio-dia. Não, impossível antes disso — a voz dele era um bisturi, cortando o ar familiar da casa.
Ele se inclinou sobre Clarice, um beijo rápido no topo de sua cabeça. Um toque fantasma. O cheiro dele, uma mistura cara de sândalo e ambição, era uma afronta ao aroma de café e baunilha da panqueca. Era o perfume de outro mundo.
— Bom dia. Preciso ir.
Mel ergueu os bracinhos, o rosto iluminado.
— Papai, olha! Uma dino-panqueca!
O olhar de Arthur passou por ela, pela filha, pela obra de arte culinária, mas pousou no relógio de pulso. Um olhar que via o tempo, não o momento.
— Incrível, princesa. A gente se fala depois, ok?
E ele se foi. A porta da frente bateu com um clique suave, quase inaudível, mas que ressoou no peito de Clarice como uma porta de cofre se fechando. O silêncio que ficou era denso, pesado. Ela ficou parada, espátula na mão, o sorriso congelado numa linha fina. A distância entre eles não se media em quilômetros, mas em texturas. A vida dela era de farinha de trigo, giz de cera e joelhos ralados. A dele, de vidro, aço e fusões bilionárias.
— Mamãe? — a voz pequena de Mel a puxou de volta. — O rei T-Rex…
— Chegando, meu amor. O rei não vai passar fome.
Enquanto a filha comia, Clarice bebeu seu café, já morno, e tentou ignorar a sensação de que seu marido agora morava num país para o qual ela não tinha passaporte.
Foi só quando recolhia os pratos que o viu. Pousado na bancada de carvalho, deslocado entre um pote de geleia e um desenho colorido de Mel, estava o tablet de Arthur. Frio, fino, uma lâmina de vidro preto.
O ar fugiu dos pulmões de Clarice. Ela sabia o que estava ali. A alma da reunião do meio-dia. O projeto que ele chamava de "divisor de águas", mencionado em sussurros tensos tarde da noite. A apresentação que definiria o futuro da Dynamic Corps. Sem aquilo, ele estava desarmado.
Seu primeiro instinto: ligar. Inútil, ele não atenderia. O segundo: um motoboy. O lógico, o eficiente. A atitude que a esposa de um CEO tomaria.
Mas algo nela se rebelou. Não contra ele, mas contra a distância. Contra o abismo que o motoboy representaria. O motoboy era a rendição, a aceitação de que seus mundos eram tão separados que precisavam de um intermediário pago para se tocar. A Clarice que virou noites revisando os projetos da faculdade dele, que comeu pizza no chão com ele para comemorar o primeiro contrato, não chamaria um motoboy.
Atrás dela, Mel cantarolava uma canção inventada para o dinossauro meio comido no prato. E uma ideia, um impulso quente e perigoso, floresceu no peito de Clarice.
— Filha? — sua voz saiu mais firme do que esperava. — Quer fazer uma aventura de verdade?
Os olhos de Mel se arregalaram. — Onde a gente vai? Pra selva?
— Para um lugar ainda mais selvagem. Vamos levar uma coisa muito importante para o papai.
Vinte minutos depois, estavam prontas. Clarice não se deu ao trabalho de trocar a calça jeans e a camiseta de algodão. Era sua armadura de mãe. Pegou sua bolsa de lona, enfiou o tablet gelado e, num último impulso, dobrou o desenho de Mel que estava na geladeira e o guardou junto. Um dinossauro de giz de cera contra um mundo de tubarões.
O ônibus atravessou a cidade, e a cada quarteirão, Clarice sentia que deixava seu território para trás. As ruas arborizadas deram lugar a avenidas impessoais; as lojas de bairro, a fachadas de vidro espelhado. O som suave da vizinhança foi engolido pela urgência da cidade grande.
Quando desceram no ponto, o próprio ar parecia diferente, mais rarefeito. Homens e mulheres de roupas escuras passavam por elas como flechas, os rostos selados na mesma máscara de concentração que Arthur usava. Ninguém via uma mãe e uma filha. Viam obstáculos no caminho.
E então, ela a viu.
A torre da Dynamic Corps não era um prédio. Era uma declaração. Um caco de obsidiana cravado na cidade, tão alto que parecia distorcer o céu. Engolia a luz do sol sem devolver nada. Carros pretos e silenciosos deslizavam até sua entrada, cuspindo executivos em seu lobby de mármore e voltando para a selva de asfalto.
Clarice parou na calçada do outro lado da rua, a mão pequena e quente de Mel segurando a sua com força. A menina olhava para cima, de boca aberta, maravilhada com a altura.
Mas Clarice via uma fortaleza. Um monumento ao homem que Arthur estava se tornando, um lugar onde seu jeans e sua bolsa de lona eram um dialeto esquecido. Ela apertou a alça da bolsa, sentindo o contraste impossível: o peso do tablet bilionário e a leveza do papel de desenho da filha.
Por um instante, a vontade foi de voltar. Mas então ela olhou para o rosto de Mel, que apontou para o topo.
— O papai tá lá em cima? Perto das nuvens?
Naquele momento, a hesitação se transformou em desafio. Clarice respirou fundo o ar poluído e frio.
— Sim, meu amor. É lá que o papai está. Vamos?
Ela segurou a mão da filha com mais firmeza, olhou para a porta giratória que se movia como as mandíbulas de uma criatura paciente, e atravessou a rua.