O silêncio no lobby da Dynamic Corps era uma arquitetura por si só. Um vazio caro, preenchido apenas pelo clique distante de um salto agulha em mármore e o zumbido quase inaudível da climatização. Cada som parecia acentuar o quanto Clarice e Mel não pertenciam àquele lugar. Sentada numa poltrona de couro rígido, ela criou uma fortaleza invisível ao redor da filha, um último refúgio contra os olhares que a mediam e descartavam na mesma fração de segundo.
Para resistir, Clarice sacou uma arma secreta da bolsa: um desenho amassado. — Olha, meu amor. O seu T-Rex laranja veio conhecer o castelo do papai. — A folha de sulfite, uma bandeira de um mundo de giz de cera e dedos melecados de geleia, pareceu um ato de rebeldia. Mel abraçou o papel, e por um instante, o brilho nos olhos da filha foi o único calor naquele aquário de vidro e ambição.
— Com licença?
A voz era jovem, quase um pedido de desculpas. Um rapaz, engolido por um terno que parecia emprestado, pairava a uma distância segura. O nó da gravata, ligeiramente torto, era um detalhe humano que o denunciava. Ele não pertencia àquele lugar mais do que ela.
Clarice ergueu a cabeça, a desconfiança como um escudo. Ele não tinha a postura predatória dos outros, o olhar que calculava o valor de tudo. Trazia o desajeitamento de quem ainda não aprendera a camuflar a própria alma.
— A senhora… quer uma água? Um café? Eu vi que estão esperando. — O rosto dele corou, e seu olhar desviou para Mel, que o fitava com a solenidade de uma rainha em seu trono. A gentileza, tão deslocada ali, desarmou Clarice. Um músculo em suas costas, que ela nem sabia estar tenso, relaxou minimamente.
— Uma água. Obrigada. — A palavra soou estranha em sua própria boca.
Ele voltou com dois copos, um deles pequeno, com canudo, que entregou diretamente a Mel. — Pra você, capitã.
Mel deu um sorriso que poderia financiar pequenas nações. — Sou a rainha do T-Rex.
O rapaz riu, um som genuíno e quente que pareceu quebrar uma regra tácita do ambiente. — Perdoe minha ignorância, majestade. Meu nome é Leo.
— Clarice. — Ela o estudou. Havia um nervosismo nele, a urgência de quem precisa voltar para sua insignificância sem ser notado. — Não é uma boa ideia falar conosco, é?
O sorriso de Leo vacilou, trocado por um olhar cúmplice. Ele deu uma olhada sutil para a recepcionista, um gesto que dizia tudo. — Minha mãe diz que o universo sempre cobra de quem ignora uma criança esperando. — Seu olhar caiu sobre o tablet no colo de Clarice, e a compreensão substituiu a simpatia. — Reunião da Apex. Ouvi dizer que um ativo essencial ficou pra trás.
Clarice estremeceu. Como um estagiário — só podia ser um estagiário — saberia daquilo? — Por isso não posso ir embora.
Leo passou a mão pelo cabelo, desfazendo o penteado corporativo. — Clarice… a recepcionista não é o problema. Ela é só o primeiro porteiro. Tem gente aqui que é paga para construir muros.
— Eu sou a esposa dele — a frase saiu com mais força do que ela sentia, um eco de uma identidade que parecia não ter valor ali dentro.
— Eu sei. É por isso que estou te avisando. — Ele se inclinou, a voz reduzida a um fio, uma confidência perigosa. — A barreira não é o 'Senhor Ferraz'. A barreira tem outro nome.
Um arrepio percorreu a nuca dela, mais frio que o mármore sob seus pés. — Que nome?
Os olhos de Leo varreram o lobby, como se as paredes tivessem ouvidos. — Neste prédio, todo mundo que não se chama Arthur Ferraz presta contas a Veronica Leclair.
O nome era elegante, mas o jeito como ele o disse deu peso de sentença. — Diretora de Operações. É só o título no crachá. Na prática, ela é a arquiteta. A mulher que desenhou a torre de marfim em volta do seu marido. A recepcionista é um muro. Veronica Leclair é a fortaleza.
Clarice sentiu o ar faltar. A imagem do seu Arthur, o homem que roncava baixo e roubava o edredom, protegido por uma arquiteta desconhecida, era um soco no estômago.
— Ela sabe que estou aqui?
Leo soltou um riso curto, sem humor. — Ela sabe de uma xícara de café fora do lugar três andares abaixo. Ela não só sabe que você está aqui. Ela esteve decidindo o que fazer com esse fato desde que você pisou aqui.
O bipe de um relógio digital o assustou, lembrando-o de sua própria corda bamba. — Eu preciso ir. De verdade. Só… tome cuidado.
Clarice o segurou pelo antebraço, um toque súbito, desesperado. — Cuidado com o quê, Leo?
Ele a encarou, a leveza evaporando de seu rosto. Por um instante, ele pareceu mais velho, mais cansado. — A gentileza. A gentileza dela é a arma mais perigosa neste prédio.
Leo se afastou, desaparecendo por um corredor como um fantasma. As palavras dele ainda pairavam no ar quando o celular de Clarice vibrou em sua mão. Uma notificação na tela bloqueada. Uma mensagem de um número que ela não conhecia.
“Sra. Ferraz, peço desculpas pela espera. Arthur está em um momento crítico. Talvez eu possa ajudar. Onde nos encontramos? — Veronica Leclair.”