O baile de máscaras era uma mentira com lustres de cristal. Três dias após a rendição de Sayuri na padaria, o mundo de Ren a engoliu por inteiro. Ela se sentia um fantasma no vestido de seda cor de ameixa que ele mandara entregar, um corte impecável cujo valor poderia ter salvo o negócio de sua família. Não era um presente; era um uniforme. Uma armadura que não a protegia, mas a exibia como um troféu.
Ren movia-se ao seu lado, a mão pairando a centímetros de suas costas, uma promessa de toque que nunca se concretizava. Para o salão apinhado de sorrisos corporativos, ele era o CEO se recuperando com uma nova e charmosa cautela, os óculos escuros uma muleta social. Para ela, ele era um predador em seu habitat, e o zumbido das conversas era apenas o som de sua selva. Cada passo era um teste, cada instante uma lição em sua nova cumplicidade forçada.
— O patrocinador do evento — disse ele, a voz um murmúrio em seu ouvido enquanto fingia contemplar um tríptico expressionista — acredita que arte e comércio são a mesma coisa. Ele está errado. A arte é honesta sobre suas manipulações.
O comentário a arrepiou. Não era para o quadro que ele olhava. Seus olhos, ocultos pelas lentes escuras, varriam a sala, mapeando aliados e ameaças. Ele não estava apenas vendo; estava caçando. E ele a incluía naquele segredo, a única pessoa no mundo que conhecia a farsa, unindo-os em uma bolha de cumplicidade que a sufocava e, perigosamente, a fascinava.
Ao atravessarem uma ala mais congestionada, o clarão de um flash explodiu à esquerda. Um paparazzi. O som foi um estalo no ruído branco do salão. Instintivamente, Sayuri recuou, e o salto fino de seu sapato encontrou o mármore polido no ângulo errado. O chão correu em sua direção, uma vertigem súbita e humilhante.
O tempo se partiu.
Não houve o reflexo absurdamente rápido que ela vira no corredor. O que aconteceu foi mais lento, mais primal. A mão de Ren, que antes pairava no ar, moveu-se com intenção letal e envolveu a sua. Não foi um apoio protocolar no braço, não foi um toque contido. Seus dedos se entrelaçaram nos dela, uma captura firme, quente e inquestionável. Uma posse.
A queda foi evitada, mas a vertigem de Sayuri apenas se aprofundou, transformando-se em algo denso e elétrico.
O calor da palma dele contra a sua foi um choque sistêmico. Súbito. Inegável. A textura áspera de sua pele, a força contida em seu aperto — não havia nada do homem frio e calculista ali. Era a mão que dobrara um fornecedor, que assinara o cheque de sua liberdade e de sua prisão. E agora, a segurava como se ela fosse algo a ser guardado, não apenas gerenciado.
Ela olhou para as mãos unidas. Os dedos longos e pálidos dele cobrindo quase que completamente os seus, ainda marcados por anos amassando pão. O contraste era o resumo de suas vidas. E, no entanto, a conexão era um idioma próprio, primitivo e livre de mentiras. O primeiro gesto honesto entre eles.
Ren não a soltou. O perigo passara, mas sua mão permaneceu, uma âncora que a prendia a ele. Seu polegar moveu-se, uma carícia única e lenta sobre o dorso da mão dela. Um gesto tão mínimo, tão devastadoramente íntimo, que roubou o ar de seus pulmões. Seu coração, que ela mantinha sob rédeas de ferro, tropeçou.
Ela ergueu o rosto, sem fôlego. Por trás das lentes escuras, não podia vê-lo, mas sentia o peso de seu olhar fixo nela. A mandíbula dele estava travada, a postura de controle absoluto levemente trincada. O predador, por um instante, parecia pego em sua própria armadilha. A corrente que a atravessara parecia espelhada na rigidez dele, na forma como ele prendeu a respiração por um batimento cardíaco a mais.
— Takeda! Que bom vê-lo em pé e circulando!
A voz oleosa de um homem mais velho, de terno prateado e sorriso de tubarão, quebrou o momento. O homem, Kaito, olhou para as mãos entrelaçadas deles, e o sorriso se alargou com malícia.
Ren não vacilou. Em um movimento fluido, ele puxou a mão de Sayuri para si, guiando-a até que ela repousasse em seu antebraço. Um gesto formal, de posse. Um xeque-mate em público. Ele se virou para o homem, a calma de volta à voz, mas o calor de seus dedos ainda queimava através do tecido do terno.
— Kaito-san. Sempre um prazer. — A cortesia era uma fina camada de gelo sobre águas profundas.
Os olhos de Kaito avaliaram Sayuri de cima a baixo. — Vejo que encontrou uma boa distração para se ocupar durante a recuperação.
Uma distração. A palavra a atingiu como um tapa. Ela era um acessório. Um passatempo. Sangue subiu ao seu rosto e ela fez menção de se encolher, de puxar a mão, mas o aperto de Ren em seu braço se tornou ferro. Não a deixaria recuar. Não a deixaria fugir.
Ele não olhou para Kaito. Seu rosto inclinou-se minimamente na direção dela, o perfil escondido nas sombras da iluminação do museu. O mundo ao redor desapareceu de novo. Só existia a pressão de seus dedos, a tensão em seu domínio e sua voz, um murmúrio baixo e rouco. Ele respondeu a Kaito, mas as palavras eram apenas para ela.
— Não. Meu norte.
O som a atingiu mais forte que o clarão do flash. *Norte*. Uma direção. Um ponto fixo em um mapa em branco. Não era uma distração, era um destino. A sala girou lentamente, as vozes distantes. Ele ainda a segurava, o polegar pressionado contra o pulso dela, como se medisse a corrida de seu sangue. Aquilo não era um resgate; era uma reivindicação. E Sayuri, presa em seu aperto, sentiu o terror de uma nova pergunta tomar forma em seu peito: o que era mais perigoso, o homem que a usava por conveniência ou aquele que, por um instante, a fez desejar que suas mentiras fossem verdade?