O dia seguinte não trouxe alívio, apenas repetição. O mesmo silêncio espesso, a mesma porcelana fria no desjejum. Vittorio não apareceu. Uma ausência que era tão presente quanto seu olhar na janela do dia anterior. Helena passou a manhã na biblioteca, um santuário de mogno e couro onde os livros pareciam reténs de um tempo esquecido. Ela não lia. Apenas sentava-se com um volume pesado no colo, o peso um contraponto para a leveza vertiginosa de sua situação. Cada rangido do assoalho em algum lugar da casa era um sobressalto. Cada sombra que se movia um alarme.
Foi então que a porta da biblioteca se abriu sem aviso.
A mulher que entrou não era uma empregada. Tinha a postura de quem não pede licença, de quem possui o chão que pisa. Vestia um vestido de seda cor de ardósia, simples e caro, que realçava uma figura esguia e uma autoridade natural. O cabelo escuro estava preso num coque baixo e severo, sem um fio fora do lugar. Seu rosto tinha a mesma estrutura óssea de Vittorio, os mesmos ângulos definidos, mas seus olhos eram de um castanho cortante, onde os dele eram abismos de noite.
Ela parou, a mão ainda no puxador da porta, e mediu Helena da cabeça aos pés. Não era um olhar curioso, era uma avaliação. Uma perícia.
— Helena Bianchi.
A voz era polida, fria, e o uso do seu nome de solteira foi uma navalha sutil. Helena se pôs de pé, o livro pesado escorregando de seu colo e caindo no tapete com um baque surdo que pareceu profanar o silêncio.
— Meu nome é Helena Giordano — ela corrigiu, a voz surpreendentemente firme.
A mulher sorriu. Um sorriso que não alcançou os olhos e morreu antes de nascer. Lentamente, ela fechou a porta atrás de si, o som um clique abafado e final.
— Eu sou Sofia. Irmã de Vittorio.
Helena assentiu, o coração batendo um compasso lento e pesado contra suas costelas. Recuperou o livro do chão, um gesto que lhe deu um segundo para se recompor, para firmar as mãos que ameaçavam tremer.
Sofia aproximou-se, movendo-se com a graça silenciosa de um predador. Não se sentou. Permaneceu de pé, forçando Helena a manter a cabeça erguida para encará-la.
— Meu irmão tem gostos… peculiares. — Sofia inclinou a cabeça, o olhar percorrendo o rosto de Helena. — Ele sempre foi atraído por coisas bonitas e quebradas. Acha que pode consertá-las.
A ofensa foi tão precisa, tão bem calibrada, que Helena sentiu o ar faltar. Não era um insulto grosseiro; era um diagnóstico.
— Não estou quebrada — respondeu Helena, a voz mais baixa, mas ainda tensa com resistência.
— Não? Uma família com um nome antigo, afogada em dívidas. Que vendeu a única filha para se salvar. — Cada palavra era uma pedra atirada com calma. — Parece-me a definição de algo quebrado.
Helena apertou a lombada do livro com tanta força que os nós dos dedos ficaram brancos. O silêncio que se seguiu foi um campo de batalha. Sofia esperava uma reação, uma explosão de lágrimas, uma negação raivosa. Helena não lhe deu nada. Apenas encontrou aquele olhar impiedoso e o sustentou.
A compostura de Helena pareceu irritar Sofia mais do que qualquer protesto. A matriarca deu uma volta lenta pela sala, os dedos deslizando sobre o dorso de uma poltrona de couro.
— Esta casa tem regras, Senhora Giordano. Elas não são escritas, mas são mais antigas e mais fortes que qualquer contrato que meu irmão tenha queimado. A primeira delas é lealdade. A segunda é silêncio.
Ela parou diante de uma janela, olhando para o mesmo jardim que Helena havia explorado no dia anterior.
— As pessoas que entram nesta família, ou se tornam parte dela, ou são… expelidas. Não há meio-termo. Vittorio pode estar encantado com a melodia de um pássaro engaiolado, mas a família precisa de uma águia.
Helena sentiu um calafrio que nada tinha a ver com a temperatura da sala. Era a primeira vez que alguém falava daquele mundo em voz alta. A *família*. Não o homem, mas o clã. Uma entidade viva, com olhos e dentes.
— O que você quer? — Helena perguntou, a pergunta escapando antes que pudesse contê-la.
Sofia virou-se, um brilho de algo parecido com respeito relutante em seu olhar.
— Quero saber o que *você* quer. Além do conforto e do dinheiro. Meu irmão não coleciona objetos. Ele investe. O que ele viu em você que vale o preço de trazer uma forasteira para o nosso centro?
A pergunta pairou entre elas, genuína e perigosa. Helena não tinha a resposta. Era a mesma pergunta que a assombrava desde a noite de núpcias.
— Talvez devesse perguntar a ele — disse ela, baixinho.
Sofia deu um passo à frente, invadindo seu espaço pessoal. O perfume dela era caro e sutil, um cheiro de gardênias e gelo.
— Vittorio vê o que ele quer ver. Nós… — ela fez uma pausa, o pronome plural englobando um exército invisível —…nós vemos o que é. E o que eu vejo é um risco. Você é uma variável desconhecida numa equação muito delicada.
Ela estendeu a mão, não para tocar Helena, mas para ajeitar uma dobra imaginária na gola do próprio vestido, um gesto de autocontrole e poder.
— Só um conselho, de cunhada para cunhada. O nome que você carrega agora não é um escudo. É um alvo. E há mais caçadores neste bosque do que apenas meu irmão.
Com isso, Sofia virou-se e saiu da biblioteca com a mesma certeza silenciosa com que entrara. A porta se fechou, deixando Helena sozinha no silêncio que agora parecia povoado de espectros.
Ela permaneceu imóvel, o livro ainda em suas mãos. O peso do papel e da cola não era nada comparado à nova gravidade que a prendia ao chão. Ela não era prisioneira de um homem.
Era refém de uma dinastia.
O calafrio se aprofundou. Ela olhou pela janela, esperando ver o vulto de Vittorio. Procurando na paisagem controlada um sinal daquele que a trouxera para ali. Mas não havia ninguém. E pela primeira vez, a ausência dele não pareceu uma ameaça.
Pareceu um abandono.