A pergunta de Vittorio pairava na sala de música, uma assombração. Ele não explicou onde a ouvira tocar antes. Simplesmente se virou, deixando-a com o eco das palavras e o cheiro de uísque e poder que parecia impregnado em cada móvel daquela casa. Helena permaneceu no banco de couro, os dedos dormentes sobre o marfim, a mente vasculhando o passado em busca de um rosto, de uma sombra na plateia. A memória era um muro liso, impenetrável.
Os dias que se seguiram transformaram a mansão em um mausoléu silencioso. A rotina, antes apenas vazia, agora era opressiva. O piano de cauda, antes um presente enigmático, tornara-se um sarcófago de ébano que ela não ousava mais abrir. Tocar fora um ato de fúria, uma forma de se encontrar no meio do caos, mas a resposta dele a fragmentara. Ele não a punira. Pior: ele a vira. E agora, ela não tinha mais onde se esconder.
A insônia era uma febre baixa que a consumia ao anoitecer. Naquela noite, o silêncio da casa era tão absoluto que zumbia nos ouvidos. Helena desistiu dos lençóis de seda que pareciam frios como mortalhas e levantou-se. Envolta em um robe, desceu a grande escadaria, os pés descalços afundando no tapete grosso, uma ladra em sua própria prisão. Precisava de ar, de um copo d’água, de qualquer coisa que a lembrasse de que ainda estava viva.
O corredor principal estava mergulhado na escuridão, exceto por uma única fresta de luz sob a porta do escritório de Vittorio. Ela estacou, o coração batendo contra as costelas, um pássaro assustado. Silêncio. Talvez ele tivesse adormecido sobre os papéis. Um instinto de autopreservação a impeliu para a parede oposta, mantendo-se nas sombras, mas a curiosidade era uma força magnética. Foi quando o ouviu.
A voz dele. Controlada, perigosamente baixa.
— Não é uma questão de custos. É uma questão de mensagem.
Uma pausa. Helena prendeu a respiração, cada nervo tenso. Sentia o frio do mármore subir por seus pés, ancorando-a àquele momento.
— Marco Bellini tem que entender as consequências. — Outra pausa, mais curta. A voz dele caiu um tom, tornando-se algo mais denso, mais letal. — De forma... permanente.
O nome, Marco Bellini, flutuou no corredor escuro, carregado de uma violência que fez a pele de Helena se arrepiar. Não era raiva o que ela ouvia. Era algo muito mais frio: cálculo.
— O haras dele. Os cavalos da Irlanda são o seu orgulho. — A voz de Vittorio era quase um sussurro, uma carícia venenosa destilada no fone. — Quero que seja uma perda inesquecível. Quero que ele olhe para as próprias mãos e se lembre do preço de cobiçar o que é meu.
A última frase foi dita com a calma de uma lâmina deslizando sobre a pedra de amolar. Helena recuou, a mão subindo para abafar o som agudo de sua inspiração. A posse. *O que é meu.* Ela não era a esposa, não era a mulher. Era um objeto, uma propriedade. Mas a verdade que se desdobrou em seguida foi ainda mais terrível.
Recuando nas sombras, ela se virou e forçou as pernas a subirem a escada. Movia-se como se estivesse debaixo d'água, um passo de cada vez. O aviso de Sofia, a governanta, ecoou em sua mente como um sino fúnebre: *Há outros caçadores neste bosque, senhora*. Os guardas nos portões. O olhar de sentinela de Vittorio da janela do jardim. Não era uma encenação de poder para intimidá-la. Era real.
Ela não estava em uma jaula para que não fugisse. Estava em um santuário para que não a encontrassem.
O perigo não era apenas o homem com quem se casara. O perigo era o mundo dele. Um mundo de sentenças sussurradas ao telefone, de chamas e dívidas pagas com sangue.
No topo da escada, quando ela estava quase segura na penumbra do segundo andar, um clique suave ecoou lá embaixo. A porta do escritório se abriu. A luz amarelada inundou o corredor, projetando a sombra longa e afiada de Vittorio no chão e na parede.
Helena congelou. Metade de seu corpo estava banhado pela luz fraca de uma arandela, a outra metade, perdida na escuridão. Ele estava parado no térreo, a mão ainda na maçaneta, e ergueu a cabeça lentamente.
Os olhos deles se encontraram através da distância. No rosto dele, Helena não viu raiva por tê-la flagrado. Não viu surpresa. Viu apenas um cansaço profundo, a confirmação sombria de um homem que carrega o peso do inferno nos ombros. Ele sabia que ela tinha ouvido cada palavra.
No seu silêncio, ele não negou nada. Apenas a encarou, e naquele olhar estava a verdade brutal que ele nunca diria em voz alta. *Este é o meu mundo*. A verdade atingiu-a com a força de um soco. *E agora, é o seu também*.
Vittorio deu um aceno de cabeça quase imperceptível. Não era uma ordem ou uma ameaça. Era uma dispensa. Uma aceitação do fato consumado. Então, ele virou na direção oposta, caminhando para seus próprios aposentos, a silhueta de um homem que vivia em estado de guerra permanente.
Helena permaneceu imóvel, a testa encostada na parede fria, a respiração presa na garganta. O som dos passos dele se afastando era o único ruído no silêncio denso que ele deixou para trás. O luxo da casa pareceu de repente uma casca fina sobre um abismo. O contrato queimado, o piano, a promessa de que ele não a tocaria… nada daquilo era sobre ela.
Era sobre ele. E sobre Marco Bellini.
O medo que sentia antes era o de um pássaro engaiolado. O que sentia agora era o pavor de saber que a gaiola era a única coisa que a impedia de ser devorada pelos lobos do lado de fora. E o dono da gaiola era apenas o mais perigoso de todos eles.