[TESTE A/B v2 – GPT-5.5] As Cartas que Nunca Foram Enviadas
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O Peso do Retorno

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O ônibus entrou em São Bento das Águas com meia hora de atraso e um rangido tão fundo que parecia vir dos ossos da estrada. Helena Duarte desceu antes de estar pronta. A mala bateu no primeiro buraco da calçada, tombou de lado e quase a levou junto. Ela segurou a alça com força demais, como se aquilo pudesse impedir todo o resto de desabar. A cidade continuava pequena. As casas baixas, as fachadas gastas, o sino da igreja sempre atrasado dois minutos. Até o cheiro tinha esperado por ela: café passado, terra molhada, açúcar quente vindo da padaria da esquina. Uma cortina se mexeu numa janela. Um cachorro latiu atrás de um portão azul. Helena puxou a mala e tentou atravessar a praça sem olhar para os lados. Não conseguiu. — Helena? Uma mulher de avental branco saiu da padaria com as mãos cobertas de farinha. Parou no meio da calçada como quem vê um fantasma que cresceu demais. — Menina... você voltou. Helena apertou os dedos na alça. — Voltei. A mulher chegou perto, tocou seu braço por um segundo. Cheirava a pão doce e forno aceso. — Sua avó falava de você toda semana. Toda semana mesmo. Dizia: ‘Minha Helena cuida de livro antigo, livro que ninguém mais sabe tratar direito.’ Helena olhou para a etiqueta rasgada da mala. — Ela gostava de exagerar. — Aurora Duarte não exagerava. Enfeitava. É diferente. A mulher tentou sorrir, mas o sorriso não aguentou. Do outro lado da rua, um homem tirou o boné. Uma senhora deixou a sacola de feira pender no braço. Um rapaz que Helena não reconheceu disse seu nome com intimidade demais. — Meus sentimentos. — Sua avó era uma mulher rara. — Você corria aqui descalça, lembra? — Aurora guardava bala pra você atrás do balcão. — Vai ficar muitos dias? Essa pergunta ficou presa nela. Helena respondeu com um movimento curto da cabeça, desses que servem para tudo porque não dizem nada. A mala bateu contra seu tornozelo. Ela continuou andando antes que alguém tivesse a coragem de perguntar de novo. A igreja ficava no alto da rua, com as portas abertas e flores brancas demais na entrada. Dentro, o ar misturava vela, madeira encerada e perfume barato. Gente demais para um lugar tão pequeno. Vozes baixas demais para uma ausência tão grande. Na frente, o caixão de Aurora Duarte estava cercado por coroas. Helena parou no corredor central. A fotografia sobre a tampa mostrava Aurora com o cabelo preso, os óculos na ponta do nariz e aquele olhar de quem tinha acabado de corrigir alguém e ainda achava graça. A chama das velas tremia no vidro da moldura. Helena deu três passos. Depois mais um. Uma mulher de vestido escuro tocou seu ombro. — A viagem foi longa? — Foi. — Ela esperou você no mês passado. Disse que talvez você viesse no domingo. Helena ficou olhando para as pétalas já escurecidas nas bordas. — O ônibus atrasou hoje — disse. A mulher entendeu o que não tinha sido respondido. Afastou-se sem insistir. Helena se sentou no primeiro banco livre. A madeira fria atravessou o tecido da saia. Ela pousou as mãos sobre a bolsa e tentou escutar o sacerdote falar de bondade, de livros, de uma vida dedicada aos outros. As palavras subiam até o teto alto e voltavam pequenas. Aurora abriu a primeira livraria da cidade. Aurora ensinou crianças a ler. Aurora sempre tinha uma cadeira para quem precisava ficar em silêncio. Helena enfiou a mão na bolsa e encontrou o celular. A tela acendeu sem som. No topo da conversa, havia uma mensagem antiga que ela nunca tinha apagado. ‘Quando você vem? Separei uma caixa que é a sua cara.’ Três meses antes. A resposta dela ainda estava ali. ‘Assim que eu terminar um trabalho.’ Helena bloqueou a tela e empurrou o celular para o fundo da bolsa, como se pudesse esconder a frase de si mesma. Quando chegou a hora de se aproximar do caixão, as pessoas abriram espaço. Ela passou por rostos conhecidos pela metade, mãos estendidas, olhos úmidos que ela evitou encarar. O salto afundou no tapete gasto do corredor. Parou diante de Aurora. A avó parecia menor. Não pela morte exatamente, mas pelo vestido fechado até o pescoço, pelas mãos cruzadas com cuidado, pela ausência dos anéis grandes que batiam no balcão da livraria quando ela fazia contas. Helena encostou dois dedos na borda do caixão. A madeira lisa não combinava com Aurora. Aurora era balcão arranhado, chá fervido duas vezes, bilhete dentro de livro, voz chamando da escada: — Helena, cuidado com a lombada. Livro também tem coluna. Uma vela estalou ao lado. Helena abaixou a cabeça. — Desculpa — sussurrou. A palavra caiu ali, pequena demais para tantos anos. Do lado de fora, depois da cerimônia, a cidade se juntou em grupos sob as árvores. A garoa fina grudava nos cabelos e deixava a terra escura nas laterais dos sapatos. Helena recebeu abraços, apertos de mão, beijos no rosto que cheiravam a colônia. — Se precisar de ajuda com a livraria... — Aurora deixou tudo bem organizado, tenho certeza. — Você vai reabrir, não vai? — Aquela porta fechada acaba com a rua. Helena repetia respostas curtas. — Obrigada. — Vou ver. — Ainda não sei. As frases foram diminuindo, como moedas no fundo do bolso. Perto do muro, um homem de camisa clara segurava um caderno fechado. Não parecia pertencer a nenhum dos grupos. Tinha barba por fazer, o cabelo escuro marcado pela chuva e uma câmera pendurada no pescoço, virada para dentro do casaco, como se tivesse se arrependido de trazê-la. Helena deixou cair o folheto da cerimônia ao tentar guardar o lenço. Ele se abaixou antes dela. — É seu. Entregou o papel sem tocar nos dedos dela. Na capa, o nome de Aurora Duarte vinha impresso em letras pretas. — Obrigada. — Miguel Vasconcelos. Helena guardou o folheto na bolsa. — Você conhecia minha avó? — Conheci a porta da livraria fechando na minha cara. Eu tinha dezesseis anos e queria vender uns discos usados no balcão dela. A frase veio seca, mas havia humor escondido no canto. Helena levantou os olhos. — Ela não comprava disco. — Foi o que disse. Depois me mandou entrar, me deu café e me vendeu um livro que eu não podia pagar. — Cobrou depois? — Pior. Perguntou se eu tinha lido. Helena soltou um som breve pelo nariz. Quase riso. Quase dor. Miguel olhou para o caderno, mas não o abriu. — Vim escrever uma nota sobre ela. Pequena demais, provavelmente. Helena endireitou a alça da bolsa. — Hoje não é um bom dia para entrevista. — Eu sei. Ele deu meio passo para o lado, liberando o caminho. — Não pedi uma. A resposta a desarmou mais do que deveria. A maioria das pessoas carregava uma pergunta na boca desde que ela descera do ônibus: vai ficar? Miguel não perguntou. Talvez por educação. Talvez porque já soubesse que algumas perguntas fazem mais estrago quando são gentis. — Sinto muito pela sua avó, Helena Duarte — ele disse. Usou o nome completo sem pressa, como se não quisesse tomar nada dela. — Eu também — ela respondeu. Miguel atravessou a rua em direção à praça. Antes de dobrar a esquina, arrancou uma página do caderno, amassou e guardou no bolso. Helena ficou olhando até a primeira árvore cobri-lo. Depois puxou a mala e desceu a rua. A Livraria Aurora ocupava a esquina mais estreita do centro, entre uma loja fechada e uma casa de grades verdes. A fachada tinha sido azul um dia. Agora a tinta descascava em manchas, e a madeira aparecia por baixo como pele cansada. Sobre a porta, a placa balançava na garoa. LIVRARIA AURORA. Helena passou o dedo pelo cadeado. A ponta saiu preta de poeira. A chave estava num envelope que o advogado lhe entregara depois do enterro, junto com papéis, contas e uma frase dita sem cuidado: — Ela deixou tudo para você. Como se uma vida coubesse numa pasta de elástico. A fechadura resistiu. Helena tentou uma vez. Depois outra. Na terceira, a chave virou com um estalo alto, e uma pomba bateu asas no telhado vizinho. Ela empurrou a porta. O cheiro veio primeiro. Papel antigo, madeira fechada, cola seca, um resto de lavanda preso em algum tecido. A livraria respirou contra ela, como se tivesse prendido o ar por anos. Helena entrou e deixou a mala perto da porta. A claridade atravessava a vitrine suja em faixas tortas. Poeira flutuava sobre as estantes. O balcão continuava no mesmo lugar, com o vidro lascado no canto direito. Atrás dele, a cadeira de Aurora estava empurrada para trás, como se ela tivesse levantado para buscar alguma coisa e fosse voltar em dois minutos. No quadro de avisos, bilhetes antigos resistiam presos por tachinhas. Encomendas. Horários. Recados de leitores. Um papel amarelo dizia: ‘não vender o exemplar de capa verde.’ Sem título. Sem explicação. Bem ao estilo de Aurora. Helena passou a mão pela primeira prateleira. Os dedos deixaram trilhas limpas na poeira. Na seção infantil, um livro inclinado segurava outros três. Ela o endireitou antes mesmo de perceber o gesto. Atrás do balcão, havia uma caneca com flores azuis. Dentro, três lápis mordidos e uma tesoura pequena. Helena pegou um dos lápis. A madeira trazia marcas de dentes na ponta. A gaveta principal abriu com um gemido. Recibos. Elásticos ressecados. Um carimbo sem tinta. Um pacote de balas embrulhadas em papel transparente, todas grudadas umas nas outras. Helena pegou uma bala e riu sem som. Depois colocou de volta exatamente no mesmo lugar. O telefone fixo, mudo sobre o balcão, ainda tinha ao lado uma lista de números escrita à mão. As últimas letras de Aurora tremiam um pouco. Helena passou o polegar sobre a tinta e manchou a palavra entrega. Lá fora, a chuva engrossou. As gotas bateram na vitrine em pequenos estalos. A rua virou um desenho torto atrás do vidro. Helena tirou da bolsa a pasta de documentos. Abriu sobre o balcão. Contas atrasadas, taxas, notificações, avaliação do imóvel. Tudo preso com clipes, tudo organizado demais para doer menos. No fim, havia uma folha em branco que ela trouxera na viagem para anotar o que precisava resolver. Escreveu: funeral. Riscou. Escreveu: inventário. Riscou também. A ponta do lápis quebrou no terceiro risco. Helena procurou um apontador na caneca e não encontrou. Pegou outro lápis. Ficou olhando para a folha enquanto a água escorria pela vitrine. A cadeira de Aurora rangeu com uma rajada de vento que entrou pela fresta da porta. Helena foi até ela e empurrou a cadeira para baixo da mesa. O rangido parou. A livraria ficou tomada pelo barulho da chuva, pelo tique baixo de um relógio escondido e pelo peso de livros demais esperando mãos que talvez nunca voltassem. Na prateleira mais alta, um volume escorregou alguns centímetros e parou na beirada. Helena subiu no primeiro degrau da escadinha de madeira, alcançou o livro e o colocou de volta. A escadinha balançou. Ela desceu devagar, pegou a mala perto da porta e a levou para trás do balcão. Como quem invade uma casa que deveria ser sua. Abriu a pasta outra vez. No canto inferior da folha, com letra firme demais para uma mão tão cansada, escreveu uma palavra. VENDER. Depois ficou ali, de pé, com o lápis parado sobre o ponto final, enquanto a placa da Livraria Aurora batia lá fora como se discordasse dela.
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