A Companheira Rejeitada pelo Alfa
Cap. 3 de 22 · 9%

O Abraço da Matilha da Lua Pálida

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A fúria de Marcus, que açoitara sua mente na margem do rio, quebrou-se como uma onda na rocha, deixando um silêncio exaustivo em seu lugar. O frio infiltrou-se no vácuo. O tremor que a sacudia já não era sobre desafio, era o corpo desistindo, os ossos vibrando em um ritmo que lhe roubava o controle. Cada passo na floresta desconhecida era um ato de guerra contra a exaustão. Ele a sentira partir, explodira e, agora, se fechara em sua indiferença de Alfa. O pensamento era veneno. Os joelhos dela cederam. A queda foi suave, o rosto pressionado contra um tapete de folhas úmidas. O cheiro de terra, de decomposição e vida nova, invadiu suas narinas. Talvez fosse um final digno, morrer livre. Foi quando um aroma cortou a névoa do seu desespero: fumaça de lenha, limpa e doméstica. Passos leves se aproximaram. Seus instintos, embotados pela dor, gritaram um último alerta, mas seus membros eram peso morto. Duas silhuetas se recortaram contra a lua, bloqueando a luz. — O que temos aqui? — a voz de uma mulher, calma, sem alarme. Kiara forçou os olhos a focar. Botas de couro, calças práticas. Uma delas se agachou. — Renegada — disse a segunda voz, um homem, o tom mais duro. — Cruzou o rio. Está encharcada. — É uma ômega — a mulher falou, e a palavra soou diferente, um fato, não uma sentença. Seus dedos, surpreendentemente quentes, afastaram uma mecha de cabelo do rosto de Kiara. — Sozinha e quase congelada. Vamos. Kiara se preparou para a brutalidade, a captura. Em vez disso, braços fortes a envolveram, erguendo-a do chão com uma facilidade cuidadosa. Ela enterrou o rosto no ombro do homem, não por submissão, mas porque a escuridão finalmente a engoliu por inteiro. Acordou com calor. Um calor que vinha de dentro, de um cobertor de lã e do crepitar suave de uma lareira. Abriu os olhos para a luz baixa de uma cabana simples, o ar perfumado com lavanda. Suas roupas encharcadas haviam sumido, substituídas por uma túnica de algodão, seca e macia. Sentou-se, o corpo uma sinfonia de dores, mas inegavelmente vivo. Uma mulher de cabelos grisalhos e ombros fortes afiava uma faca de caça num canto, o som rítmico da pedra contra o aço enchendo o silêncio. Ela não tinha o cheiro de medo dos ômegas da Pedra Negra. Era algo mais terreno, mais sólido. — A Alfa quer vê-la — disse, sem levantar os olhos da lâmina. O medo, um velho hábito, revirou o estômago de Kiara. *Alfa*. A palavra era sinônimo de humilhação. Mas ela assentiu. Não havia escolha. Lá fora, o ar da manhã era frio e limpo. Não era uma aldeia, mas um acampamento funcional, construído em harmonia com a floresta. Kiara viu homens e mulheres treinando com bastões, seus movimentos fluidos e focados. Mais adiante, sentada sob um carvalho antigo, uma loba lia um livro. Um livro. A cena era tão surreal que Kiara se perguntou se ainda delirava. A curiosidade nos olhares que recebeu era desprovida da hostilidade predatória a que estava acostumada. Uma mulher se levantou de perto da fogueira central e veio em sua direção. Não era imponente como Marcus. Era esguia, os cabelos prateados caindo soltos como uma cascata. Seu poder não estava em massa ou altura, mas na quietude absoluta com que se movia, na intensidade com que seus olhos cinzentos a mediam. — Eu sou Lyra. Alfa da Lua Pálida — Sua voz era baixa, mas ressoava com uma força inegável. — Meus batedores a encontraram em nosso território. Você vem da Pedra Negra. Não foi uma pergunta. Kiara engoliu em seco, a memória da rejeição pública forjando uma coragem frágil dentro dela. — Eu saí. — Renegados não sobrevivem à travessia no inverno — Lyra parou a poucos passos dela, o cheiro de pinho e terra úmida acalmando em vez de intimidar. — O que a fez tentar o impossível? Kiara ergueu o queixo. Deixou a vergonha queimar e se transformar em outra coisa. — Fui rejeitada. Um brilho de algo indecifrável — talvez respeito — passou pelos olhos de Lyra. — A marca de um Alfa é uma âncora. Ou uma gaiola. A sua parece ter sido a segunda. E agora? O que busca aqui? — Um lugar — a resposta escapou antes que Kiara pudesse censurá-la. — Apenas... um lugar. Lyra sorriu, um gesto mínimo, quase imperceptível. — Temos lugar. Mas nosso refúgio tem um preço. Exige mais do que obediência. Exige que a dor que a trouxe até aqui se torne útil. Seu olhar desceu para as mãos de Kiara, que estavam fechadas em punhos ao lado do corpo. — Há lobos que são quebrados pelo sofrimento. E há aqueles que são afiados por ele. Qual deles você pretende ser? A pergunta pairou no ar, um desafio direto. Lyra se virou, pegou uma tigela de madeira de uma mesa próxima e a estendeu. Estava cheia de um ensopado quente que cheirava a raízes e carne. Um som gutural, uma traição embaraçosa, escapou do estômago de Kiara. — Coma. Recupere suas forças. Depois, você começará a nos mostrar sua resposta. As mãos de Kiara tremiam quando ela pegou a tigela. O calor da madeira se espalhou por seus dedos, uma âncora em um mundo que havia virado de cabeça para baixo. Ela olhou de Lyra para a loba que lia sob a árvore, para os outros que treinavam com propósito. Um caminho se abria, um que não levava de volta. Um caminho para longe. Ela levou a colher à boca, o gosto da comida quente explodindo em seus sentidos, o primeiro sabor real de sobrevivência. Naquele instante, no auge do alívio, uma agulha de gelo perfurou sua mente. O vínculo. Não era a fúria de Marcus. Era algo muito pior. Uma onda de desolação pura, tão vasta e oca que roubou o ar de seus pulmões. Era a solidão dele. Um eco mudo de arrependimento que gritava através da distância, uma mão fantasma se fechando ao redor de seu coração, exatamente quando ela ousava acreditar que estava livre.
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