Um puxão violento na base do seu crânio. Marcus Volkov cerrou a mandíbula, os nós dos dedos brancos onde agarravam a borda de uma mesa de carvalho maciço. No mapa de couro à sua frente, as fronteiras da Matilha da Pedra Negra tremiam, turvas. Por um instante, ele não estava no salão de guerra, mas perdido em uma emoção que não era sua: um eco fantasma de satisfação fria, como a primeira lufada de ar em um dia de inverno. A sensação durou um segundo e se foi, deixando para trás apenas a vibração familiar, a corda invisível que o ligava a ela.
Três anos. Mil e noventa e cinco dias em que ele fingia que aquela corda não existia. Ninguém em sua próspera e temida matilha ousava olhar para o Alfa Supremo e ver outra coisa senão força inabalável. Uma mentira que ele aperfeiçoara.
— Alfa? — A voz de Kael, seu beta, cortou o silêncio. — A patrulha do leste reportou movimento na Trilha do Cervo. Renegados.
Marcus endireitou as costas, o controle voltando a revestir sua postura como uma armadura. Ele levou tempo demais para responder. Kael não se moveu, seu rosto uma máscara de neutralidade, mas seus olhos captaram a hesitação. Marcus odiou aquilo.
— Dobre a guarda — sua voz saiu mais cortante do que pretendia. — Quero relatórios a cada hora. Queimem um trecho da trilha se for preciso. Ninguém entra.
Kael assentiu, o cenho franzido por uma fração de segundo com a ordem desproporcional. “Queimar um trecho?” era a pergunta que ele não faria. Ele apenas se retirou, deixando Marcus com os ecos de sua própria paranoia. O salão, com suas peles de urso e troféus de caça, pareceu subitamente uma jaula. Símbolos de um poder que não alcançava o caos dentro de sua própria mente.
Ele se afastou da mesa e foi até a grande janela que dava para o pátio de treinamento. Lá embaixo, jovens lobos se chocavam em combates ruidosos, o som de seus rosnados e corpos se encontrando era a pulsação da matilha. Orgulho deveria ser o que ele sentia. Em vez disso, a corrente esticou de novo, um lembrete irritante e constante. Zumbindo.
No início, depois que ela cruzou o rio, fora um choque. A dor dela, misturada a um desafio que o atingiu como um soco. Ele esperou que o vínculo se rompesse, que se tornasse uma cicatriz silenciosa. Mas não. Ele apodreceu. Transformou-se nessa conexão doentia, uma via de mão única que transmitia apenas fragmentos da vida dela. Pedaços de emoções que o assaltavam nos piores momentos. Uma onda de fúria inexplicável em meio a uma negociação de paz. Um espasmo de solidão tão profunda que o acordava no meio da noite, o coração martelando contra as costelas.
Ele não sentia falta *dela*. Ele sentia falta de silêncio.
Rejeitá-la fora um ato de autopreservação. Uma decisão lógica, cirúrgica. Sua linhagem exigia uma Luna de sangue poderoso, uma aliança política, não uma ômega de espírito selvagem cuja presença seria uma vulnerabilidade. A matilha vinha em primeiro lugar. Sempre. Era o que repetia a si mesmo nas noites vazias.
Mas a sua lógica não explicava por que a amputação doía mais a cada ano que passava. Não explicava a memória de seus olhos naquela cerimônia. Não havia súplica neles, apenas choque. E então, algo muito pior: uma fagulha de fúria que o avaliou e o descartou. Ela não se quebrou. Não chorou. Apenas o olhou como se ele fosse um erro de cálculo, um obstáculo menor em seu caminho. E foi embora.
Aquele orgulho. Era a última coisa que sentira dela com clareza. Depois, só restou essa estática, esse zumbido de uma existência que ele tentava esquecer.
*Kiara.*
Pensar no nome era um ato de automutilação. Ele se afastou da janela, o som de suas botas no chão de pedra ecoando no vazio. O tormento não estava em sua ausência, mas na sua presença intermitente. Estava no modo como o cheiro de chuva na floresta às vezes trazia uma nota fantasma de terra molhada e flores silvestres, uma memória que se recusava a morrer. No modo como ele se pegava olhando para as ômegas que serviam o jantar, o estômago revirando com uma pontada de culpa que não era sua.
Seus pés o levaram para fora, através dos corredores silenciosos onde os guardas se enrijeciam à sua passagem. Ele cruzou as muralhas da aldeia, seguindo a trilha gasta em direção ao rio. O mesmo rio.
Parou na margem, a água escura correndo sob um céu sem estrelas. O ar era mais denso aqui. Do outro lado, a floresta se erguia como uma parede de sombras, um território que não lhe pertencia. Foi ali que ele a sentiu pela última vez, a explosão de desafio quando ela tocou a outra margem. O ato que deveria libertá-lo, mas que o acorrentou.
Ele duvidava que ela sentisse qualquer coisa. A rejeição de um Alfa Supremo era absoluta. Para o rejeitado, o vínculo se parte. Para o Alfa... Para ele, a corrente havia se enrolado em seu próprio pescoço, e a cada ano que passava, ela apertava mais. Sua escolha não a destruiu. Pelo contrário. Deu a ela uma arma que ela nem sabia possuir.
Sua mão foi ao peito, sobre o coração, como se pudesse conter a dor. Por quê? Por que, depois de tanto tempo, o vínculo não definhava? Por que o puxão para o horizonte parecia mais insistente, mais desesperado?
De repente, veio.
Não era o zumbido usual. Não era um eco. Foi uma onda, uma explosão de sentimento tão puro e violento que o fez cambalear. Uma agonia cortante, afiada como vidro. Dor. Perda. Luto. Era tão avassalador, tão próximo, que ele se virou, o coração disparado, perscrutando a escuridão do outro lado do rio como se pudesse vê-la ali, ferida.
A corrente não estava mais apenas o puxando. Pela primeira vez em três anos, ela estava gritando.