A Companheira Rejeitada pelo Alfa
Cap. 5 de 22 · 18%

A Conselheira Sombria

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O eco daquele grito não deixou cicatriz na pele de Marcus Volkov, mas fraturou a fundação sobre a qual ele construíra seu mundo: a certeza. O Alfa Supremo da Pedra Negra agora presidia seu salão de guerra sentindo o chão arenoso sob o trono, a memória daquela agonia — um luto puro, vindo de uma fonte que ele se recusava a nomear — assombrando cada silêncio. Nas semanas que se seguiram, a dor se retraiu, voltando ao zumbido baixo e persistente do vínculo rompido. Um ruído de fundo que ele aprendera a sufocar. O mundo exterior, no entanto, não lhe concedia a mesma paz. — Minhas caravanas estão enferrujando na fronteira! — rosnou Borin, Alfa do Pico Gelado, batendo na maciça mesa de carvalho com um punho do tamanho de um rochedo. — A terceira este mês que se recusa a pagar as taxas. “Exploratórias”, eles dizem. Meu avô traçou aquelas rotas! Ao seu lado, o jovem Caelus, dos Campos Verdes, parecia mais aflito que furioso. — Não são as taxas, Borin. É a Lua Pálida. Meus ômegas… eles andam inquietos. Sussurram sobre “direitos de passagem” e “acolhimento”. Onde raios eles ouviram essas ideias? A fumaça dos charutos e a testosterona frustrada adensavam o ar. Marcus permanecia em silêncio, a mão apoiada no queixo, os olhos fixos no mapa. Cada queixa, cada crise, desaguava no mesmo ponto: uma mancha verde espremida entre as montanhas e o rio. A Matilha da Lua Pálida. Antes uma comunidade reclusa e pacata, agora um osso entalado na garganta de todos os Alfas. — Não é a Lyra — continuou Caelus, passando a mão pelo cabelo loiro. — A Alfa deles sempre foi previsível. É a Conselheira. A nova. Ninguém sabe de onde veio, mas ela é um veneno sussurrado no ouvido certo. Borin bufou, um som gutural de desprezo e… medo? — Veneno é pouco. É uma praga. Ela não grita. Ela não ameaça. Ela só te encara com aqueles olhos e espera que você termine seu discurso. Então, ela desmonta você. Usou nossos próprios códigos ancestrais contra mim para anular o pacto de caça. Disse que era “legalmente ambíguo”. *Legalmente ambíguo*. A frieza da expressão fez um calafrio percorrer a espinha de Marcus. Aquela não era a linguagem de um lobo. Era a de uma lâmina. — Eles a chamam de A Sombra — disse Kael, seu beta, a voz um relatório neutro vindo da penumbra perto da porta. — Surgiu há pouco mais de um ano. Foi ela quem redigiu os novos termos de refúgio para ômegas. Proteção e treinamento garantidos. Nenhuma matilha pode reivindicar um desgarrado após um ciclo lunar. Um silêncio glacial tomou a sala. Era um desafio direto à ordem de séculos. Um ômega pertencia à sua matilha. Fugir era traição. Oferecer abrigo, um ato de guerra. Marcus finalmente se ergueu, caminhando até a janela que exibia a ordem pulsante de sua alcateia. Uma ordem que ele pagara com um sacrifício. *Aquele* sacrifício. — Ela não nos ataca com garras — disse ele, a voz baixa cortando a tensão. — Ela nos mina com esperança. É uma arma muito mais perigosa. Ele se virou, a autoridade envolvendo-o como um manto pesado. — E essa Conselheira... essa Sombra. O que mais sabemos? Caelus encolheu os ombros. — Dizem que é uma ômega que eles acolheram. Impossível. Nenhuma ômega pensa assim, com essa frieza. — Ela pensa — contrapôs Borin, com um rancor que beirava a admiração. — E nos faz parecer tolos por nunca termos pensado antes. No mesmo instante, uma sensação estranha e familiar percorreu a nuca de Marcus. Não era dor. Era um pulso de concentração pura, gelada e absoluta. Um foco tão intenso que ele prendeu a respiração, como se a mente dela, por um segundo, tivesse tocado a sua através daquele fio fantasma. Era a mesma assinatura emocional da garota que o desafiara com o olhar antes de sumir na noite. A que ele rejeitara. Uma ômega renegada. Acolhida pela Lua Pálida. Brilhante. Desafiadora. Anos sem uma palavra, e agora uma força anônima, com as mesmas qualidades, virava seu mundo de cabeça para baixo. A conexão o atingiu não como um soco, mas como o clique final de uma fechadura. *Não. Impossível.* A culpa cria fantasmas. Ele empurrou a ideia para longe, para a mesma caixa onde guardava o arrependimento. — Se ela é a mente de Lyra, é com ela que falaremos. Intimidar vocês dois é uma coisa. Desafiar a Pedra Negra é outra. — Uma reunião? — zombou Borin. — Ela nos enrola em palavras e nos cospe antes mesmo do almoço. — Então será um Conselho de Alfas em território neutro — declarou Marcus, a decisão forjada em aço. — A paz está em risco. Lyra não poderá recusar. E terá de trazer sua arma secreta. Eu quero olhar nos olhos dessa Conselheira. Quero ver de perto quem é a ômega que ousa ensinar leões a ler. Kael se aproximou, o rosto uma máscara impenetrável. — A convocação foi enviada. A resposta chegou há uma hora. Marcus ergueu uma sobrancelha. — E? — Aceitam. Com uma condição. — Qual? O beta hesitou, e pela primeira vez, Marcus viu um brilho de algo parecido com pena em seus olhos. — As negociações preliminares não serão com a Alfa Lyra. Serão conduzidas exclusivamente pela Conselheira dela. A armadilha se fechou. Elegante, precisa, letal. Ela não estava apenas indo para a reunião; ela *era* a reunião. Uma demonstração de poder antes que a primeira palavra fosse dita. Um brilho de admiração relutante guerreou contra a fúria em seu peito. — Que seja — disse Marcus, a voz soando como pedra lascada. — Prepare a comitiva. Kael assentiu e se virou para sair, mas parou na soleira da porta. — Alfa… há mais uma coisa. A resposta veio com o selo pessoal da Conselheira. Ela assinou com o nome que adotou. Marcus esperou, o coração batendo um compasso lento e pesado contra suas costelas. Seu beta estendeu um pergaminho. Sobre a cera verde da Lua Pálida, uma única assinatura, feita numa caligrafia firme, desconhecida. Um nome que ele nunca vira antes. — Ela não se chama mais Kiara. Marcus baixou o olhar para a assinatura. Para aquelas letras que formavam um nome que não era o dela, que não pertencia a ele, que não guardava memória alguma da garota frágil que ele mandara embora. Aquilo não era uma ausência. Era uma declaração de guerra. E o nome era a primeira bala disparada.
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