O eco daquele grito não deixou cicatriz na pele de Marcus Volkov, mas fraturou a fundação sobre a qual ele construíra seu mundo: a certeza. O Alfa Supremo da Pedra Negra agora presidia seu salão de guerra sentindo o chão arenoso sob o trono, a memória daquela agonia — um luto puro, vindo de uma fonte que ele se recusava a nomear — assombrando cada silêncio.
Nas semanas que se seguiram, a dor se retraiu, voltando ao zumbido baixo e persistente do vínculo rompido. Um ruído de fundo que ele aprendera a sufocar. O mundo exterior, no entanto, não lhe concedia a mesma paz.
— Minhas caravanas estão enferrujando na fronteira! — rosnou Borin, Alfa do Pico Gelado, batendo na maciça mesa de carvalho com um punho do tamanho de um rochedo. — A terceira este mês que se recusa a pagar as taxas. “Exploratórias”, eles dizem. Meu avô traçou aquelas rotas!
Ao seu lado, o jovem Caelus, dos Campos Verdes, parecia mais aflito que furioso. — Não são as taxas, Borin. É a Lua Pálida. Meus ômegas… eles andam inquietos. Sussurram sobre “direitos de passagem” e “acolhimento”. Onde raios eles ouviram essas ideias?
A fumaça dos charutos e a testosterona frustrada adensavam o ar. Marcus permanecia em silêncio, a mão apoiada no queixo, os olhos fixos no mapa. Cada queixa, cada crise, desaguava no mesmo ponto: uma mancha verde espremida entre as montanhas e o rio. A Matilha da Lua Pálida. Antes uma comunidade reclusa e pacata, agora um osso entalado na garganta de todos os Alfas.
— Não é a Lyra — continuou Caelus, passando a mão pelo cabelo loiro. — A Alfa deles sempre foi previsível. É a Conselheira. A nova. Ninguém sabe de onde veio, mas ela é um veneno sussurrado no ouvido certo.
Borin bufou, um som gutural de desprezo e… medo? — Veneno é pouco. É uma praga. Ela não grita. Ela não ameaça. Ela só te encara com aqueles olhos e espera que você termine seu discurso. Então, ela desmonta você. Usou nossos próprios códigos ancestrais contra mim para anular o pacto de caça. Disse que era “legalmente ambíguo”.
*Legalmente ambíguo*. A frieza da expressão fez um calafrio percorrer a espinha de Marcus. Aquela não era a linguagem de um lobo. Era a de uma lâmina.
— Eles a chamam de A Sombra — disse Kael, seu beta, a voz um relatório neutro vindo da penumbra perto da porta. — Surgiu há pouco mais de um ano. Foi ela quem redigiu os novos termos de refúgio para ômegas. Proteção e treinamento garantidos. Nenhuma matilha pode reivindicar um desgarrado após um ciclo lunar.
Um silêncio glacial tomou a sala. Era um desafio direto à ordem de séculos. Um ômega pertencia à sua matilha. Fugir era traição. Oferecer abrigo, um ato de guerra.
Marcus finalmente se ergueu, caminhando até a janela que exibia a ordem pulsante de sua alcateia. Uma ordem que ele pagara com um sacrifício. *Aquele* sacrifício.
— Ela não nos ataca com garras — disse ele, a voz baixa cortando a tensão. — Ela nos mina com esperança. É uma arma muito mais perigosa.
Ele se virou, a autoridade envolvendo-o como um manto pesado. — E essa Conselheira... essa Sombra. O que mais sabemos?
Caelus encolheu os ombros. — Dizem que é uma ômega que eles acolheram. Impossível. Nenhuma ômega pensa assim, com essa frieza.
— Ela pensa — contrapôs Borin, com um rancor que beirava a admiração. — E nos faz parecer tolos por nunca termos pensado antes.
No mesmo instante, uma sensação estranha e familiar percorreu a nuca de Marcus. Não era dor. Era um pulso de concentração pura, gelada e absoluta. Um foco tão intenso que ele prendeu a respiração, como se a mente dela, por um segundo, tivesse tocado a sua através daquele fio fantasma. Era a mesma assinatura emocional da garota que o desafiara com o olhar antes de sumir na noite. A que ele rejeitara.
Uma ômega renegada. Acolhida pela Lua Pálida. Brilhante. Desafiadora. Anos sem uma palavra, e agora uma força anônima, com as mesmas qualidades, virava seu mundo de cabeça para baixo. A conexão o atingiu não como um soco, mas como o clique final de uma fechadura.
*Não. Impossível.* A culpa cria fantasmas.
Ele empurrou a ideia para longe, para a mesma caixa onde guardava o arrependimento. — Se ela é a mente de Lyra, é com ela que falaremos. Intimidar vocês dois é uma coisa. Desafiar a Pedra Negra é outra.
— Uma reunião? — zombou Borin. — Ela nos enrola em palavras e nos cospe antes mesmo do almoço.
— Então será um Conselho de Alfas em território neutro — declarou Marcus, a decisão forjada em aço. — A paz está em risco. Lyra não poderá recusar. E terá de trazer sua arma secreta. Eu quero olhar nos olhos dessa Conselheira. Quero ver de perto quem é a ômega que ousa ensinar leões a ler.
Kael se aproximou, o rosto uma máscara impenetrável. — A convocação foi enviada. A resposta chegou há uma hora.
Marcus ergueu uma sobrancelha. — E?
— Aceitam. Com uma condição.
— Qual?
O beta hesitou, e pela primeira vez, Marcus viu um brilho de algo parecido com pena em seus olhos. — As negociações preliminares não serão com a Alfa Lyra. Serão conduzidas exclusivamente pela Conselheira dela.
A armadilha se fechou. Elegante, precisa, letal. Ela não estava apenas indo para a reunião; ela *era* a reunião. Uma demonstração de poder antes que a primeira palavra fosse dita.
Um brilho de admiração relutante guerreou contra a fúria em seu peito.
— Que seja — disse Marcus, a voz soando como pedra lascada. — Prepare a comitiva.
Kael assentiu e se virou para sair, mas parou na soleira da porta. — Alfa… há mais uma coisa. A resposta veio com o selo pessoal da Conselheira. Ela assinou com o nome que adotou.
Marcus esperou, o coração batendo um compasso lento e pesado contra suas costelas.
Seu beta estendeu um pergaminho. Sobre a cera verde da Lua Pálida, uma única assinatura, feita numa caligrafia firme, desconhecida. Um nome que ele nunca vira antes.
— Ela não se chama mais Kiara.
Marcus baixou o olhar para a assinatura. Para aquelas letras que formavam um nome que não era o dela, que não pertencia a ele, que não guardava memória alguma da garota frágil que ele mandara embora. Aquilo não era uma ausência. Era uma declaração de guerra. E o nome era a primeira bala disparada.