A convocação chegou por e-mail, fria e sem cerimônia, com o peso de uma intimação disfarçada de tarefa corporativa. Organizar o antigo escritório de Valério. O remetente era Rafael Monteiro. Olívia sentiu o ar em seus pulmões se transformar em vidro. Era um teste. Uma armadilha polida, montada no epicentro de seu segredo, e recusar era o mesmo que confessar.
A porta do escritório estava entreaberta, e o ar lá dentro era um monumento ao tempo: o cheiro de papel velho, poeira e o fantasma teimoso da colônia amadeirada de Valério. Rafael estava de costas, as mãos nos bolsos da calça de alfaiataria, observando a parede de certificados como um general inspecionando um mausoléu. Ele não se virou quando ela entrou. Sabia que era ela.
— Obrigado por vir, Olívia.
A voz dele era baixa, preenchendo o silêncio sem esforço. Ele finalmente se virou, e o azul de seus olhos pareceu mais denso e perigoso fora de uma tela. Nas mãos, ele segurava o caderno de capa preta. O caderno dela. O coração de Olívia não falhou uma batida; ele parou por um segundo inteiro.
— Meus pêsames pela perda da empresa — disse ela, a voz mais firme do que se sentia. A resposta de manual de uma funcionária leal.
— A perda não foi da empresa — corrigiu ele, pousando o caderno sobre a mesa de mogno com uma delicadeza que beirava a reverência. — Foi de Valério. Uma mente brilhante, não concorda?
Olívia desviou o olhar para as caixas empilhadas, para as pastas que criavam uma desordem que não condizia em nada com o químico meticuloso que o mundo conhecia. O caos era dela. — Sim. Brilhante.
— Eu encontrei isto. — Ele indicou o caderno com um aceno de cabeça. — Um processo criativo fascinante. Impulsivo, caótico. Não bate com os relatórios impecáveis que ele assinava. Você que trabalhou com ele… era comum essa dualidade?
A compostura era uma máscara frágil. Olívia caminhou até uma caixa, fingindo analisar seu conteúdo para não ter que encará-lo. — O Dr. Valério tinha seu próprio sistema. Só parecia caótico para quem via de fora.
— Um sistema que talvez só ele entendesse. Ou alguém muito próximo a ele. — A frase pairou no ar, uma isca suspensa em uma linha invisível. — A tarefa é simples. Quero que catalogue tudo. Quero entender como essa mente funcionava.
Ele não estava organizando. Estava dissecando. E ela era o espécime na bandeja.
As horas seguintes foram um exercício de tortura silenciosa. Cada pasta que Olívia tocava era uma mina terrestre. Cada anotação, uma confissão em potencial. Rafael trabalhava ao seu lado, e o espaço entre eles vibrava com uma tensão que nada tinha a ver com arquivos. Ele não seguia os objetos que ela empilhava; seguia as mãos dela. A hesitação de um milissegundo. A forma como seus ombros se contraíam ao ver uma caligrafia familiar que não era a de Valério.
— Curioso — disse ele, quebrando um longo silêncio. Segurava uma pasta azul que ela conhecia bem. — A catalogação dos fornecedores de essências raras. Vetiver do Haiti, Orris de Florença... Estão todos aqui, mas separados dos contratos. Por quê?
A resposta escapou dela antes que o medo pudesse contê-la. Era a lógica que ela mesma criara anos atrás.
— Ele dizia que inspiração e burocracia não deveriam se misturar. Guardava o contato dos artesãos aqui. — Seus dedos, por puro instinto, tocaram a madeira de uma gaveta específica da escrivaninha. — As propostas de preço ficavam com o financeiro.
Ela congelou. O gesto, o conhecimento, a palavra. *Artesãos*. Um termo que Valério jamais usaria. Um termo dela.
O silêncio que se seguiu foi uma explosão sem som. Os dedos de Olívia recuaram da gaveta como se a madeira queimasse.
Rafael não se moveu um centímetro. Sua voz, quando veio, era perigosamente suave.
— E como você sabe disso, Olívia?
— Eu... eu devo tê-lo ouvido comentar alguma vez. — A mentira era um fiapo de voz, patética e transparente.
Ele deu um passo, e o mundo dela encolheu. O espaço entre eles desapareceu. O perfume dele — algo cítrico, limpo e terrivelmente vivo — substituiu o ar viciado do escritório e a envolveu. — Você está na Lumière há quatro anos. Começou no administrativo. Foi transferida para assistente de P&D exatamente no ano em que o Nº7 foi desenvolvido. — Não era uma pergunta. Era a constatação de fatos que ele tinha na ponta da língua. — Uma trajetória comum. Exceto que você não age como uma assistente.
— Estou apenas fazendo meu trabalho, Sr. Monteiro.
— Não. Você está se guardando. — Ele inclinou a cabeça, os olhos cravados nos dela. — Cada resposta sua é medida. Cada gesto é milimetricamente controlado. Por que, Olívia? O que uma assistente júnior teria tanto a esconder?
O ar ficou rarefeito. Aquele homem não olhava; ele escavava. Ele não queria respostas, queria fissuras. Olívia ergueu o queixo, sua única armadura restante. — Não tenho nada a esconder. Lamento se minha eficiência o intriga.
Um fantasma de sorriso tocou os lábios dele. Rápido, letal. Um sorriso de quem acaba de encontrar o que procurava.
— Não me intriga. Me fascina.
A porta se abriu de leve, e uma secretária espiou para dentro. — Sr. Monteiro, sua reunião de conselho das cinco.
Rafael não tirou os olhos dela. — Cancele. Diga que surgiu um imprevisto.
A porta se fechou. O duelo recomeçou. Trêmula, Olívia retomou seu trabalho inútil, empilhando papéis que não via. Precisava sair. Agora.
— Acho que por hoje é o suficiente — disse ela, a voz um eco distante. — Podemos continuar amanhã.
Ele apenas assentiu, recuando para a mesa e devolvendo-lhe o oxigênio que havia roubado. Olívia caminhou até a porta, cada passo uma luta para não correr. Com a mão na maçaneta, sentiu a necessidade tola de olhar para trás.
Ele estava parado, segurando a pasta azul que ela quase abrira. A pasta dos “artesãos”.
— Olívia.
Ela se virou lentamente. O coração martelando contra as costelas, um pássaro preso.
Ele ergueu a pasta, um gesto mínimo. Seu olhar era calmo, direto e devastador.
— Não se preocupe em voltar para organizar o resto amanhã. — Uma pausa. Ele passou o polegar pela borda do cartão, exatamente onde os dedos dela haviam estado. — Acho que já encontrei o que eu estava procurando.