A Fórmula que Ninguém Assinou
Cap. 4 de 20 · 15%

Resquícios de um Caderno

5 min de leitura
A frase dele pairou no ar estagnado do escritório, uma lâmina suspensa na quietude. — Acho que encontrei o que procurava. Não havia triunfo na voz de Rafael, apenas uma constatação calma que era, de alguma forma, mil vezes mais apavorante. O azul de seus olhos não a libertava. Ele a mantinha ali, prisioneira de uma conclusão que ela não podia nomear, mas que sentia em cada terminação nervosa do corpo. As mãos de Olívia, até então ocupadas em ordenar uma pilha de relatórios, congelaram sobre o papel. Ela forçou o ar para dentro dos pulmões, um movimento dolorosamente controlado. Negar era inútil. Perguntar seria uma confissão. O silêncio era a única trincheira que lhe restava. — Se o senhor não precisa mais de mim... — começou ela, a voz um fio de normalidade que lhe custou tudo. Rafael não respondeu de imediato. Apenas recuou um passo, um gesto que deveria ter sido um alívio, mas que apenas alargou o campo de batalha entre eles. Ele se moveu pela sala com a economia de um predador, contornando a imensa mesa de mogno. Seus dedos roçaram a capa do caderno de Valério, e o estômago de Olívia se contraiu com o toque casual. — Pelo contrário — disse ele, por fim. — O trabalho só começou. A desordem aqui... é uma fachada. Valério era meticuloso. Alguém limpou este escritório antes de nós. E deixou coisas para trás pela pressa. Ele sabia. A frase era uma acusação velada. Ela mesma havia feito a “limpeza” dias após a morte de Valério, num pânico frio, tentando apagar os vestígios mais óbvios de sua presença, de sua mente. E sua pressa, agora ela via, fora sua perdição. Retomaram o trabalho, mas a dinâmica mudara para sempre. Não era mais uma tarefa de organização. Era uma escavação arqueológica onde ela era o fóssil e ele, o arqueólogo paciente. Olívia movia-se com uma rigidez que traía seu esforço para parecer natural. Cada caixa que abria, cada documento que folheava, era sob o olhar atento dele. A tensão era uma terceira presença na sala, espessa, com cheiro de poeira e perigo iminente. Ela se concentrou em esvaziar metodicamente as gavetas da escrivaninha, descartando o que era obviamente lixo: canetas sem tinta, clipes enferrujados, blocos de rascunho com listas de compras. Criar ordem. Apagar o caos. Apagar a si mesma. Com as mãos trêmulas, enfiou o conteúdo de uma das gavetas em um saco preto. Um pequeno e desesperado alívio a cada papel amassado que desaparecia ali dentro. — Está ficando tarde — disse ela, a voz soando tensa aos seus próprios ouvidos. Deu um nó na boca do saco, uma desculpa frágil para a fuga. — O pessoal da limpeza pode levar isso. Rafael estava perto da janela, recortado contra o céu de fim de tarde que tingia de fogo os prédios vizinhos. Ele se virou lentamente. Seu olhar não foi para ela, mas para o gesto dela de colocar o saco ao lado da porta. — Deixe aí. Eu mesmo descarto. O nó na garganta de Olívia apertou. Claro que sim. Nada escapava dele. Ela voltou para a última estante, fingindo organizar livros técnicos que nunca mais seriam lidos, sentindo as costas queimarem sob a intensidade do silêncio dele. Ouviu o som suave do plástico sendo desamarrado. O farfalhar discreto de papéis. Ele estava revirando o lixo. O coração dela batia contra as costelas, um tambor surdo e descompassado. O que ela havia jogado fora? Sua mente correu, frenética, tentando refazer os próprios passos. Papéis de anotações, rabiscos aleatórios... Tinha verificado, não tinha? Era apenas lixo. O farfalhar parou. O silêncio que se instalou em seguida foi tão absoluto que pareceu sugar todo o ar da sala. Olívia não resistiu. Virou-se, resignada. Rafael estava de pé no centro do escritório. Na mão, segurava um pedaço de papel pequeno, rasgado de forma irregular, amarelado nas bordas. Parecia insignificante. Mas, mesmo daquela distância, ela reconheceu a textura. Era uma folha de seu antigo bloco de notas, um que guardava apenas para os primeiros estágios da criação, quando as ideias eram selvagens e sem filtro. Ele ergueu o papel, e a luz fraca da janela revelou o que havia nele: uma série de equações químicas e notas escritas com sua caligrafia apressada e inclinada. *“Ambroxan sintético vs. natural?”* *“Base de sândalo... mais cremosa? Menos seca. Testar com Javanol.”* Eram os primeiros dilemas do Nº7. Uma versão da fórmula mais crua que a final, com componentes que ela descartaria mais tarde. Uma impressão digital de seu processo criativo, jogada fora por descuido. — Ele era... desorganizado — a mentira saiu fraca, rouca. Olívia umedeceu os lábios, sentindo o gosto de derrota. — Jogava fora qualquer rabisco. O olhar dele encontrou o dela por sobre o pedaço de papel. E ali, no fundo daquele azul implacável, havia um brilho. Não de raiva. Pior: a satisfação silenciosa de um caçador que vê sua presa finalmente pisar na armadilha. — Um rabisco? — repetiu ele, a voz baixa, quase um sussurro. Ele deu dois passos lentos até a mesa onde o caderno de capa preta repousava. Com a mão livre, abriu-o em uma página qualquer, um mapa de sua mente. Então, com uma calma excruciante, posicionou o pequeno fragmento de papel ao lado da caligrafia do caderno. O encaixe era perfeito. A mesma mão. A mesma alma. Uma gota de suor escorreu pela têmpora de Olívia. O ar parecia pesado demais para respirar. Rafael Monteiro acabara de conectar o fantasma do caderno à sua presença física. Ele não tinha mais uma teoria. Agora, tinha uma prova. Mas ele não a acusou. Não fez mais perguntas. Apenas dobrou o pequeno papel com um cuidado que desmentia sua origem, tratando-o não como lixo, mas como uma relíquia. Abriu novamente o caderno de capa preta e, com uma delicadeza cirúrgica, colocou o fragmento dentro dele, como se guardasse uma flor prensada entre as páginas de um diário. Fechou o caderno. O som seco do couro batendo ecoou como o de uma sentença. Então, ele ergueu os olhos para ela, o semblante impassível, mas a certeza brilhando em seu olhar. Ele a havia capturado sem dizer uma única palavra acusatória. — Terminamos. Por hoje.
Comentar este capítulo
Comentários de "Resquícios de um Caderno" · 0
Seja a primeira a comentar este capítulo 💬