A produtividade da Lumière era uma sinfonia indiferente, mas para Olívia, cada telefonema e cada e-mail disparado soavam como o tique-taque de uma bomba. Ela tentava se fundir à sua cadeira, tornar-se invisível, mas o novo CEO era um centro de gravidade que puxava toda a atenção do andar para si. Rafael Monteiro não a procurava. Pior, ele a ignorava com a precisão de um predador que sabe que sua presa não tem para onde ir.
Do outro lado do mezanino, Olívia o observava. Ele se movia com uma calma letal, abordando um a um os membros mais antigos da equipe de Valério. Não eram reuniões formais, mas emboscadas disfarçadas de conversas de café. Ela via o sorriso polido, a maneira como ele se inclinava, um predador oferecendo uma falsa segurança. E via, mesmo à distância, o resultado. Ombros que se encolhiam, olhares que desviavam para o chão, frases evasivas encobertas por sorrisos nervosos. “Valério? Um gênio.” “Reservado.” “Tinha seus métodos.” Ecos de uma lenda que, por três anos, fora o escudo perfeito para o segredo dela.
O trabalho na tela de Olívia estava esquecido. Suas mãos pairavam sobre o teclado, frias. Ela seguia os movimentos dele com a atenção desesperada de quem procura uma rota de fuga. Quando ele terminou de falar com um químico do controle de qualidade, virou-se e seu olhar varreu o mezanino, cravando-se diretamente no dela.
Durou um segundo. Um mísero segundo onde o ar foi expelido de seus pulmões e o prédio inteiro, com seus vinte andares de vidro e aço, pareceu conter apenas os dois. O rosto dele permaneceu impassível, mas ela não teve dúvidas: ele sabia que ela o vigiava. O caçador acabara de fazer contato visual com a presa.
Um calafrio elétrico percorreu sua espinha. Agir. Mover-se. Fugir. Ela se levantou de súbito, o movimento brusco e descoordenado, e agarrou a primeira pasta que viu sobre a mesa. Um álibi para ir a qualquer lugar — arquivo, almoxarifado, inferno. Qualquer lugar que não fosse ali.
Virou no corredor principal, os saltos batendo contra o piso polido em uma cadência de pânico. O coração martelava contra as costelas, um tambor de guerra anunciando sua retirada desastrosa.
— Olívia.
A voz dele, baixa e sem pressa, a parou como uma parede invisível. Ela congelou, de costas para ele, cada músculo tenso. Não conseguia se virar.
Os passos dele, abafados pelo carpete, seguiram lentos e deliberados. Ele parou tão perto que ela sentiu o calor irradiando de seu corpo, uma presença sólida que parecia absorver todo o oxigênio do corredor.
— Você parece ter um interesse particular na minha investigação.
A pergunta era uma lâmina. Não era “por que me observa?”, mas um questionamento direto sobre sua motivação, seu envolvimento. Olívia respirou fundo e forçou-se a virar. Encarou o azul intenso dos olhos dele, que a analisavam sem pressa, como se ele tivesse todo o tempo do mundo.
— Sr. Monteiro. — Sua voz saiu surpreendentemente firme. — O sucesso do Nº7 define o futuro da Lumière. Acho natural que qualquer funcionário dedicado esteja preocupado.
A desculpa era impecável. Corporativa. Distante. Mas a mentira pesava em sua língua.
Um traço de sorriso, tão sutil que poderia ser imaginação, curvou os lábios de Rafael. Ele deu um passo mínimo, quebrando a barreira frágil do espaço pessoal dela. O perfume dele, uma mistura limpa de vetiver e cítricos, a envolveu, afiado e masculino.
— Funcionários dedicados me procuram — disse ele, a voz ainda mais baixa, forçando-a a se concentrar nele. — Oferecem informações. Fazem perguntas. Você, Olívia, faz o exato oposto. Você se esconde nos cantos e me observa como se eu estivesse prestes a cortar o fio errado de uma bomba. Os outros estão curiosos. Você está com medo.
— Eu não estou com medo. Estava indo ao arquivo.
— Não — ele a cortou, a palavra final, inquestionável. — Não estava.
A certeza dele era um insulto. A calma dele, uma provocação. O medo que ele apontou se misturou a uma onda de fúria. A injustiça de ter seu sacrifício transformado em fraude, de ser caçada dentro de sua própria criação, borbulhou dentro dela. O sangue subiu ao seu rosto e a máscara da assistente dócil se estilhaçou.
Sua postura mudou. A coluna se endireitou, o queixo se ergueu. O olhar dela, antes assustado, tornou-se frio como aço.
— Com todo o respeito, Sr. Monteiro — a voz dela era gélida, cortante, desprovida de qualquer hesitação —, o senhor chegou há menos de um mês e declarou uma guerra pessoal que está desestabilizando a empresa. Meu interesse não é na sua investigação. É na estabilidade da Lumière, algo que sua caça às bruxas parece determinada a destruir. Se me dá licença.
Ela viu. Uma faísca nos olhos dele. Não era raiva pela insubordinação. Era surpresa, seguida por algo que se parecia terrivelmente com triunfo. Uma assistente acuada não falaria assim. Não o enfrentaria com aquela autoridade feroz. Ela não apenas se defendeu; ela o atacou com a mesma arma que ele usava: poder.
Olívia não esperou resposta. Passou por ele, o ombro roçando deliberadamente no tecido caro de seu paletó. O contato foi um choque elétrico, gelado e rápido. Ela caminhou pelo corredor sem olhar para trás, cada passo ressoando como uma afirmação. Sentia o olhar dele em suas costas, uma marca a ferro quente. Ele a deixou ir.
Sozinho no corredor, Rafael observou a silhueta dela se afastar, a postura de uma rainha em exílio fingindo ser um peão. Uma funcionária assustada teria gaguejado. Teria chorado. Teria pedido desculpas.
Mas o criador do Nº7… O gênio caótico do caderno… Confrontaria o homem que ameaçava tomar sua obra.
A suspeita não existia mais. Diante daquela demonstração de força, ela se tornara certeza. Ele não estava mais procurando um fantasma com a inicial ‘O’.
Ele acabara de conversar com ela.