A porta da frente se abriu não com um estrondo, mas com a indiferença de um gesto rotineiro. Para Marcos, era exatamente isso. Para Letícia, parada no topo dos três degraus da varanda, era o som do fim do mundo. Ele colocou a mala barata dela no chão, ao seu lado, sem sequer fazer o esforço de olhá-la nos olhos.
— Acabou. — A palavra, curta e fria, pairou no ar úmido da tarde. Ele ajeitou o relógio caro que Letícia lhe dera no último aniversário, um presente comprado com meses de economias do dinheiro do supermercado. Um monumento silencioso à sua própria anulação.
Atrás da cortina da casa vizinha, uma sombra se moveu. O rubor da humilhação subiu pelo pescoço de Letícia, queimando suas orelhas. Onde ela iria? A pergunta morreu em sua garganta, inútil. A dignidade era um luxo que ela não possuía mais. Ele se virou para entrar.
— Marcos, por favor... — A voz dela saiu como um fiapo, o último resquício da mulher que um dia acreditou em promessas.
Ele parou, o corpo já dentro de casa, e a encarou por sobre o ombro. Não havia raiva em seu rosto, nem pena. Apenas o tédio polido de quem descarta um objeto que perdeu a serventia.
— Por favor, o quê, Letícia? Eu preciso de alguém que me impulsione, não de um peso morto. Seja razoável. — E então, a crueldade final, disfarçada de praticidade. — Eu chamaria um carro para você, mas, francamente, seu problema deixou de ser meu.
Com um movimento displicente do pé, ele empurrou a mala. Ela tombou pelos degraus, o fecho barato não resistiu ao impacto e se abriu com um estalo patético. Seu pequeno e miserável mundo se espalhou pelo gramado impecável: um suéter puído, um par de sapatos gastos, o romance de bolso que ela nunca terminara. O retrato de uma vida interrompida. Sem uma segunda olhada, Marcos fechou a porta.
O clique da fechadura foi definitivo. Letícia ficou congelada, o olhar perdido entre os degraus e os destroços de sua vida na grama. Foi quando o som chegou, baixo e vibrante, rasgando o silêncio suburbano. Não era o choro que ela engolia, mas o ronco de motores potentes. Três sedãs pretos, tão brilhantes que pareciam absorver a luz cinzenta do dia, deslizaram pela rua e pararam em formação silenciosa em frente à casa.
As portas se abriram com uma sincronia militar. Seis homens de terno escuro emergiram, posicionando-se discretamente. Um sétimo, mais velho, de cabelos grisalhos e postura de estadista, desceu do carro do meio. Seus sapatos de couro fizeram um som caro e decidido na calçada ao passar pelo portão de ferro, ignorando completamente os pertences espalhados.
Os olhos dele, de uma lucidez penetrante, fixaram-se nela, a mulher paralisada na soleira da porta que já não era sua. Ele parou a poucos metros, o respeito em sua postura era algo que Letícia não sentia há anos.
— Senhora Letícia Vance? — A voz era grave, formal, uma peça de orquestra em meio ao ruído de sua ruína.
O nome a atingiu como um fantasma. Vance. O sobrenome de solteira de sua mãe, morta há tanto tempo, de uma família da qual ela fora afastada na infância.
— Eu... meu nome é Letícia Almeida. — Gaguejou, a voz trêmula de confusão e vergonha.
Um sorriso mínimo, quase imperceptível, tocou os lábios do homem. — Entendo. Meu nome é Arthur. Represento a Dinastia Vance. Lamento informar que sua avó, Verônica Vance, faleceu há dois dias.
A notícia a deixou sem ar. A avó. Uma figura austera e distante de suas memórias mais antigas.
Nesse exato momento, a porta da casa se abriu novamente. Marcos apareceu, a testa franzida de irritação com os carros bloqueando sua saída. — O que diabos está acontecendo aqui? Quem são vocês?
Arthur o ignorou com a eficiência de quem espanta uma mosca. Seus olhos não deixaram Letícia.
— O testamento foi lido esta manhã. Sua avó estabeleceu uma condição... um teste, por assim dizer. Uma condição que a senhora, sem saber, acaba de cumprir. — Arthur fez um gesto, e um de seus homens lhe entregou uma pasta de couro. Ele a abriu. — Ela deixou tudo para a senhora. O controle acionário, a presidência e a totalidade do império Vance.
O ar ficou denso. O mundo inclinou-se. Ao lado dela, Marcos soltou um som gutural, um engasgo de choque, ganância e pânico. Seus olhos, antes vazios, agora a devoravam com uma intensidade febril. Ele deu um passo em sua direção, a mão estendida, o predador subitamente percebendo que sua presa era feita de ouro.
— Letícia... meu amor, o que ele está dizendo? Nós podemos...
Arthur fechou a pasta com um clique suave e autoritário que cortou a frase de Marcos. Ele estendeu a mão, não para um aperto, mas como um convite, um portal.
— Os carros estão à sua espera, senhora Vance. Temos uma reunião do conselho que não pode ser adiada. Sua cadeira está vazia.
O silêncio que se seguiu foi profundo. Letícia olhou para a mão estendida de Arthur, um caminho para um futuro inimaginável. Depois, seu olhar se moveu para o gramado, para seus sapatos velhos e seu livro amassado. Por fim, ela ergueu a cabeça e seus olhos encontraram os de Marcos, o homem que a jogara fora como lixo minutos antes. Pela primeira vez no dia, não havia neles o reflexo de uma mulher quebrada. Havia apenas um vazio frio, espelhando o dele.