A Herdeira que Você Enterrou
Cap. 2 de 24 · 4%

A Coroa Queimada

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O mundo lá fora era um borrão de concreto e luzes desfocadas, uma paisagem que a mente de Letícia se recusava a processar. Dentro do sedã, o silêncio era uma entidade própria, pesada com o cheiro de couro novo — um luxo tão alienígena que parecia pertencer a outro planeta. Seus olhos estavam fixos nas próprias mãos, pousadas sobre o tecido liso de um vestido cinza, emprestado às pressas. Uma casca anônima para a mulher que, há poucas horas, deixara de existir. Nenhuma lágrima caía. A humilhação a esgotara, secando a fonte de qualquer emoção que não fosse um zumbido baixo de incredulidade. A imagem do rosto de Marcos, do desprezo em seus olhos ao jogá-la para fora, era uma ferida física. E agora, este carro, esta história de um império… Era um delírio nascido do desespero. — Estamos chegando, senhora Vance. — A voz calma de Arthur cortou o silêncio. A palavra “Vance” soou como um sino distante. Desta vez, ela reagiu. Não com palavras, mas um tremor quase invisível nas mãos. Ela não era mais a esposa de Marcos. Era outra coisa. Algo que ainda não entendia. O carro deslizou para um estacionamento subterrâneo, parando diante de um elevador privativo. A torre da Vance Joias era menos um prédio e mais uma declaração de poder; um monólito de vidro fumê e aço que perfurava o céu. As portas do elevador se abriram diretamente no trigésimo andar, em um saguão minimalista onde o mármore branco refletia a luz fria das paredes de vidro. Pela primeira vez, Letícia sentiu o aperto dos sapatos emprestados. Cada passo ecoava no silêncio espectral. Do outro lado do salão, uma porta dupla de madeira escura se abriu, e Arthur a guiou para dentro, a mão pairando a centímetros de suas costas num gesto de respeito que parecia uma piada cruel. A sala de reuniões era um aquário de predadores. Uma dúzia de executivos em trajes impecáveis, sentados ao redor de uma mesa de mogno polido, cravaram os olhos nela no instante em que cruzou a soleira. O ar era denso, uma mistura de poder, ressentimento e curiosidade hostil. Ela sentiu seu vestido simples, seus sapatos inadequados, sua própria existência como uma afronta. Encostado na parede perto da porta, fora do círculo, um homem destoava. Não usava um terno caro, mas um costume escuro, funcional, que não escondia a solidez de seus ombros. Ele a observava desde que entrara, mas seu olhar era diferente. Não havia a avidez dos outros. Era algo mais quieto, mais pesado. Penetrante. — Senhoras e senhores, apresento Letícia Vance. Um homem na cabeceira da mesa, de terno claro e um sorriso que não alcançava os olhos azuis e gélidos, levantou-se. Bateu palmas, um som seco e solitário. — Bem-vinda, prima. Finalmente. — A palavra “prima” foi dita com uma pausa que a transformou em insulto. — Sou Victor Vance. É uma… surpresa tê-la aqui. Letícia sentiu o veneno sob o verniz polido. A cadeira vazia na outra extremidade da mesa, o assento do poder, era o trono que ele cobiçava. — A surpresa é toda minha — ela respondeu, a voz um fio, mas audível. O sorriso de Victor vacilou por uma fração de segundo. Ele contornou a mesa, parando à sua frente, o olhar percorrendo seu vestido barato. O predador avaliando a presa. — Imagino que seja um choque. Uma vida inteira de… — ele gesticulou vagamente, o desdém evidente — …simplicidade, e de repente… isto. A Vance Joias. Uma coroa um tanto pesada, não acha? As palavras de Marcos ecoaram em sua mente: *“Eu preciso de alguém que me impulsione, não um peso morto.”* A mesma humilhação, só que com um verniz de milhões de dólares. Algo dentro dela, algo que ela pensava ter sido enterrado sob anos de submissão, se moveu. Não era força. Era a clareza cortante de quem não tem absolutamente nada a perder. Ela ergueu o queixo, e seus olhos, antes perdidos, focaram nos de Victor com uma intensidade que o fez recuar um passo imperceptível. — Não — disse ela, a palavra firme, surpreendentemente clara. O murmúrio na sala cessou. — Não entendo de balanços, nem de Cingapura. — Então… — Victor começou, a condescendência se transformando em confusão. — E é por isso que não vou aceitar. — O silêncio na sala tornou-se absoluto. O rosto de Victor se transfigurou. Até Arthur a olhou, a compostura abalada pela primeira vez. — Você… está recusando a presidência? — gaguejou Victor. — Estou recusando ser um fantoche. — Letícia deu um passo à frente, diminuindo a distância entre eles. O medo ainda estava lá, um nó no estômago, mas agora estava envolto em gelo. O seu olhar varreu a sala, detendo-se em cada rosto hostil. — Arthur me falou sobre uma condição no testamento da minha avó. Um “teste” que eu, sem saber, cumpri. Ninguém se senta naquela cadeira — ela apontou para a cabeceira vazia — antes de eu entender que teste foi esse. Quero saber por que uma avó abandona a neta à própria sorte para depois lhe atirar um império no colo como um prêmio de consolação. O olhar dela, por fim, voltou-se para o homem encostado na parede. Ele não se movera um centímetro, mas a quietude em seu rosto parecia ter se aprofundado. Seu olhar não continha pena, nem surpresa. Continha algo que se assemelhava a… reconhecimento. — Quem é ele? — ela sussurrou para Arthur, sem desviar os olhos do homem. — Miguel. Chefe da sua segurança pessoal. — A resposta de Arthur foi tensa. Letícia ignorou a cadeira que lhe ofereceram ao lado de Victor. Ignorou Arthur, que tentava lhe dizer algo. Com o olhar de toda a sala sobre ela, caminhou até a única cadeira que lhe interessava: a da cabeceira. A cadeira da presidente. Ela não se sentou. Apenas pousou as mãos no encosto de couro, sentindo o poder frio que emanava dele. — As respostas que eu quero não estão nesta sala — disse ela, a voz ressoando com uma autoridade recém-descoberta. Seu olhar encontrou o de Miguel do outro lado da mesa. — Estão com quem quer que tenha supervisionado esse “teste”. E eu aposto que não foi nenhum de vocês. O homem chamado Miguel não sorriu. Mas, pela primeira vez, houve uma ínfima mudança em sua expressão. Um minúsculo aceno de cabeça, quase imperceptível para qualquer um que não estivesse procurando. Não era um gesto de submissão. Era um gesto de confirmação. E no fundo daqueles olhos frios como aço, Letícia não viu um guarda. Viu um guardião de segredos.
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