A festa era um som distante, um eco de um mundo que já não lhe pertencia. Na escadaria da mansão, o silêncio pressionava os ouvidos de Diana Vance. O ar gelado da noite era um alívio inútil contra a pele anestesiada pelo choque. Ela se sentia oca, um invólucro caro e vazio, o vestido de alta-costura uma piada cruel. As unhas curtas cravavam nas palmas das mãos, a única âncora de dor num mar de humilhação.
Um sedã preto, longo e silencioso como um predador noturno, deslizou pela rua e parou na base da escadaria. Não era um táxi. A porta do passageiro se abriu com um clique suave, e dele desceu Verônica, o sorriso triunfante brilhando sob a luz fraca da entrada. Ela se movia com uma graça contida, cada gesto preciso, como se qualquer movimento fosse calculado para aumentar a agonia de Diana. O vestido vermelho que usava era uma afronta, um contraste sangrento com a palidez de Diana.
Verônica parou alguns degraus abaixo, forçando Diana a inclinar a cabeça para encará-la.
— Logan nunca entendeu o conceito de valor a longo prazo — a voz de Verônica era mel, misturado com veneno, não precisando de volume para impor domínio. — Ele sempre preferiu o brilho imediato.
Um resquício de orgulho fez Diana recuar um passo. — E o que você entende de valor, Verônica? Além do que pode roubar?
— Eu entendo que o poder não é dado, é tomado. — Um canto de sua boca se ergueu, um movimento vitorioso. — Meu nome agora está ligado ao dele. E o seu?
O nome ecoou em sua mente. O nome dela, agora manchado. Uma lenda sussurrada nos bastidores do poder, o arquiteto de aquisições hostis que nunca aparecia nas fotos. O Supremo Alfa, como o chamavam em tons de medo e reverência, agora estava ao lado de outra.
— Não estou interessada na sua pena, Verônica.
— Eu não ofereço pena. Eu celebro a vitória. — Ela subiu um degrau, o espaço entre elas diminuindo. A proximidade trouxe um perfume floral, doce e nauseante. — Logan não tirou apenas seu noivado, Diana. Ele está apagando seu nome. Em seis meses, você não será a herdeira da Vance. Será a noiva abandonada. Uma nota de rodapé. Nós não a derrotamos. Estamos a reduzindo a nada.
A verdade daquelas palavras era mais brutal que a traição pública. A letargia que a envolvia se partiu, dando lugar a uma brasa de fúria. Aquilo não era perda; era aniquilação.
— O que você quer? — A voz dela saiu áspera, a fachada de controle rachando.
— Nada. Já tenho tudo. — Ela subiu outro degrau. Agora estavam quase no mesmo nível, o olhar dela a perfurando. — Eu só queria ver de perto. Ver a queda. Ofereço a você um conselho, no entanto. Desapareça. É a única maneira de manter um pingo de dignidade. Meu preço por este conselho é apenas a sua humilhação completa.
Os olhos de Diana se estreitaram. — Você e ele não terão paz.
— Sua aliança com ele era condicional. A minha é incondicional. Sua dedicação era dividida. A minha é exclusiva. Ele precisava de uma predadora, não de uma princesa esperando em sua torre. Você era um passivo. Ele precisava de alguém que nascesse para a caça.
A proposta de Logan, a traição, era uma vertigem. Um pacto com o diabo, e ela nem sabia que ele estava no mercado. A alternativa era a obscuridade, a humilhação final de ser esquecida. O rosnado que sentira na festa voltou, uma vibração profunda em seu peito, um instinto faminto que exigia sobrevivência. Ela olhou para a rua escura, para a solidão absoluta em que tinha sido jogada.
Verônica não era uma rival. Era a arma que Logan usara para destruí-la.
Diana encontrou o olhar dela, uma decisão se solidificando em seu âmago. Durou o tempo de uma respiração contida.
— Quando vocês planejaram isso?
Um aceno de cabeça quase imperceptível. Nenhuma surpresa. Apenas a conclusão de uma equação. Verônica se virou e desceu os degraus restantes, parando ao lado do carro. Não como uma vencedora magnânima. Como um abutre satisfeito.
Movendo-se como se estivesse em um sonho, Diana observou o carro se afastar, levando a mulher que roubara seu futuro. Cada segundo que passava era uma despedida de sua vida antiga. Ela estava sozinha, o couro frio do banco invisível contra sua pele, o perfume de Verônica pairando no ar como uma promessa de dor e vingança.
O som do motor desaparecendo no silêncio foi definitivo como a queda de uma guilhotina.
Sozinha na escadaria, Diana se inclinou, sentindo o peso do mundo em seus ombros. Mas então, uma voz grave e desconhecida soou atrás dela, vinda do topo da escada, de dentro da mansão que ela pensava estar vazia.
— Eles pensam que o poder da sua família está no status. Tão ingênuos. — Seus olhos encontraram os de um homem alto, de terno escuro, que ela não vira na festa. Logan. Ele estava parado na soleira da porta, observando-a. — A sua verdadeira herança, Diana, não se mede em alianças. O sangue que corre em suas veias... é um legado que você nem começou a compreender.
Ele se endireitou e caminhou em sua direção. Diana ficou paralisada, as mãos inertes ao lado do corpo. Herança? Sangue? O que ele queria dizer? O clique da porta se fechando atrás dele soou como o ferrolho de uma cela, e seus passos na escadaria a levaram para um confronto inevitável, um acerto de contas com o homem que acabara de destruir seu mundo, mas que agora parecia querer lhe revelar os segredos mais sombrios de sua própria alma.