As unhas de Diana se cravavam nas palmas das mãos, duas fileiras de crescentes dolorosos que a ancoravam no silêncio de couro do sedã. O perfume de Verônica, uma assombração floral e predatória, ainda flutuava no ar. A cada poste de luz que passava, um borrão de ouro fugaz, ela sentia o mundo que a esmagara se desfazer no retrovisor, uma memória cada vez mais distante e febril.
Ao seu lado, Marcus Blackwood pilotava a escuridão com uma quietude que era, por si só, uma forma de poder. Ele não se movia. Apenas existia, sólido como uma montanha envolta em um terno caro. A voz dele, quando veio, cortou o silêncio sem aviso, grave e precisa como um bisturi.
— Essa raiva — disse ele, o olhar fixo na estrada. — É a única coisa de valor que lhe restou. Não a desperdice.
Diana se sobressaltou, não pelo som, mas pela precisão. Ela nem havia notado os nós brancos dos seus dedos. Lentamente, abriu as mãos, uma a uma, sentindo o sangue voltar com uma ferroada quente, como se a vida retornasse a uma parte do corpo que já considerava morta.
A civilização se desfez para trás. As luzes da cidade foram engolidas por uma noite sem estrelas, e a estrada se afunilou, rendendo-se à floresta. Árvores ancestrais se erguiam como uma muralha de presas negras contra o céu, seus galhos entrelaçados em um dossel impenetrável. Meia hora de viagem pareceu uma eternidade de exílio, até ele desviar para uma trilha de cascalho que rasgava a mata como uma cicatriz.
O carro parou diante de uma estrutura de pedra e madeira escura que parecia ter crescido da terra, não construída sobre ela. Mais fortaleza que residência, suas amplas janelas eram retângulos de breu que observavam a noite. Um clique seco destravou as portas. Uma ordem silenciosa.
Diana saiu, e o ar foi um choque físico. Um gelo cortante que lhe roubou o fôlego para devolver algo mais antigo, mais limpo: o cheiro de pinho, terra úmida e decomposição. O vento sussurrava entre as árvores, uma linguagem que ela não entendia, mas reconhecia. Uma ressonância profunda vibrou em seus ossos, afrouxando o nó de pânico em seu peito. Aquele lugar selvagem e solitário não a assustava. Ele a chamava.
Marcus parou ao seu lado, o calor do seu corpo uma presença compacta no frio. Seu olhar não estava na casa, mas na vastidão escura da floresta.
— A natureza não se importa com seu nome — murmurou ele, a voz quase perdida no vento. — Ela apenas testa sua força. E devora a fraqueza.
A porta pesada se fechou atrás deles com o som surdo de um cofre, trancando o mundo lá fora. Uma lareira de pedra maciça dominava a sala, suas chamas lançando sombras dançantes em móveis de couro e madeira escura. Era um espaço de poder, não de conforto.
Diana ficou parada, o vestido de seda uma fantasia patética de outra vida. Ele não lhe ofereceu um assento, bebida ou consolo. Seus olhos a mediam sob a luz dourada do fogo, o mesmo olhar clínico da festa, agora de perto, dissecando-a até a alma.
— A Diana Vance que entrou naquela festa cometeu suicídio — disse ele, cada palavra um golpe calculado. — Ela era fraca, confiante demais e previsível. Um erro fatal.
— O que você quer de mim? — A voz dela saiu rouca, um fiapo de desafio na ruína.
Um traço de um sorriso, frio e imperceptível, tocou seus lábios. Ele se moveu, circulando-a como um predador avaliando a presa.
— Eu não quero o que você *tem*. Quero o que se esconde nos escombros. Quero o que sobrou quando tudo queimou.
Ele parou diante dela, a proximidade uma invasão, uma reivindicação.
— Você fica aqui. Você treina. Você obedece. A vingança não é um sentimento, é uma arma. E eu vou ensiná-la a forjar a sua. Quando voltar para eles, será a predadora que nunca souberam que existia. Esses são os termos.
Obediência. A palavra pairou no ar, feia e absoluta.
— E se eu recusar?
Marcus se virou para o fogo, dando-lhe as costas. O gesto era puro desdém, a certeza da resposta dela.
— Então a porta está aberta. Tente a sorte na floresta durante a noite. Ou volte para a cidade e aproveite a vida que Verônica preparou para você. A escolha é sua. Se é que isso pode ser chamado de escolha.
A imagem de Verônica, o sorriso triunfante, o desprezo. A raiva. A maldita raiva que ele dissera para ela guardar. Pulsou, quente e viva. Inferno ou um pacto. Uma morte lenta ou uma ressurreição em chamas.
Ela ergueu o queixo. Quando ele se virou, encontrou seus olhos. O medo havia sumido, substituído por uma frieza cortante que espelhava a dele.
— Tudo bem.
A satisfação no rosto dele não foi um sorriso. Foi algo mais sombrio. A confirmação de um instinto.
— Venha.
Ele a guiou por um corredor silencioso até uma porta de madeira pesada. O quarto era uma obra de arte em tons de cinza e preto: uma cama imensa, um banheiro de mármore elegante e, ocupando toda uma parede, uma janela do chão ao teto. Uma parede de noite. Linda. Impecável. E sem grades visíveis, a própria floresta era a jaula.
Marcus parou no limiar, sem cruzar a soleira. — Você não tem aliados aqui. Não tem privilégios. Você tem a mim. E eu não sou seu amigo.
Ele se virou para ir, mas sua mão parou no batente da porta, os nós dos dedos brancos por um instante. Sem olhá-la, ele disse:
— A primeira coisa que você vai aprender é o som do seu próprio espírito se quebrando. É a única coisa que fará barulho nesta casa.
Ele se foi. O clique da fechadura foi definitivo. O silêncio que desceu era absoluto, pesado. Diana caminhou, como em transe, até a parede de vidro. A escuridão do lado de fora era total, um oceano de negrume. Pressionou a palma da mão contra o vidro gelado, esperando sentir-se encurralada, uma peça de ouro em uma gaiola. Mas não sentiu. No reflexo distorcido de seu rosto contra a noite, ela não viu a herdeira humilhada. Viu o contorno faminto de algo que esperava do outro lado.