O estalo da porta se abrindo foi um som seco e invasivo. Diana não se virou. Permaneceu sentada na beirada da cama, o corpo um mapa de dores que latejavam em um ritmo próprio. Não era apenas dor física; era o registro de uma transformação. O treinamento de Marcus a estava quebrando, mas nos estilhaços, algo novo, afiado e perigoso começava a tomar forma.
Ele entrou sem uma palavra, o silêncio mais pesado que qualquer saudação. A bandeja que carregava foi pousada na mesinha de cabeceira com um baque surdo: água, frutas, um pedaço de queijo e um pequeno pote de cerâmica escura. A visão da comida era um insulto. Uma recompensa.
— Coma — a voz de Marcus cortou o ar, uma ordem disfarçada de cuidado. — Depois, use isto. É um unguento para as contusões.
Diana ergueu os olhos do pote para o rosto dele. A fúria exausta do dia anterior havia se solidificado em um gelo cortante. Ela se forçou a ficar de pé, cada músculo um protesto agudo, mas se recusou a parecer curvada diante dele.
— O que sobrou para você tomar, Marcus? — A pergunta saiu ríspida, sem o tremor que esperava. — Minha herança se foi. Meu nome é uma piada. Não sou mais uma peça de valor em nenhum tabuleiro.
Um silêncio vibrou entre eles. Ele não se irritou, nem se justificou. Apenas a observou com aquela calma predatória, analisando a nova rigidez em sua postura.
— Você nunca foi uma peça de valor. Foi um adorno — ele rebateu, cada palavra um golpe preciso. — Uma garantia de paz para o império de Logan, aprovada por um conselho que a julgava dócil. O seu valor não estava no que você era. Estava no que eles acreditavam que podiam controlar.
Adorno. Dócil. As palavras cravaram-se nela, verdades feias que ela sempre soubera e nunca ousara admitir. Ela odiava a clareza brutal com que ele a via.
— E você? Acha que pode me controlar?
Um fantasma de sorriso tocou seus lábios, tão rápido que poderia ser uma ilusão de ótica. — Controle é para homens fracos. Eu estou interessado em potencial bruto. Eles não a descartaram por fraqueza, Diana. Eles a descartaram por medo. Um medo que nem eles mesmos compreendem.
O coração dela tropeçou. Ele se moveu, aproximando-se o suficiente para que o calor de seu corpo a alcançasse. Por instinto, ela quis recuar, mas uma raiva teimosa a manteve no lugar, um pilar de desafio em meio à dor.
— Há coisas que você precisa ver. Siga-me.
Ela o seguiu não por obediência, mas por uma necessidade desesperada de respostas que era mais forte que seu orgulho. Na sala principal, as brasas na lareira pulsavam como um coração moribundo. Sobre a mesa de centro, um tablet emitia um brilho frio.
Marcus tocou na tela, e um organograma se expandiu, uma teia de aranha digital de nomes e conexões. No centro, um círculo de rostos familiares — os pilares da sociedade, os homens e mulheres que sorriam em galas de caridade enquanto estrangulavam impérios nos bastidores.
— O mundo que você conhecia é uma fachada — disse ele, a voz baixa e ressonante. — Sua família, a de Logan, todas as outras... são apenas feudos. E o conselho é o imperador.
— Eles regulam o poder — murmurou Diana, repetindo as lições que aprendera desde criança.
— Eles devoram — corrigiu Marcus, sem desviar os olhos da tela. — Quando uma família se torna forte demais, ou independente demais, eles a neutralizam. Um escândalo financeiro, uma aquisição hostil… ou uma humilhação pública perfeitamente orquestrada no noivado do ano.
A respiração ficou presa em sua garganta. Não fora um drama pessoal. Fora uma execução. O frio que a percorreu não tinha nada a ver com a manhã. Era a vulnerabilidade de saber que sua destruição fora planejada em uma sala de reuniões por homens que apertavam sua mão em eventos sociais.
— Eles fizeram isso... porque sentiram algo. Uma anomalia em sua linhagem que estava adormecida, mas prestes a despertar. Eles não podiam arriscar que esse poder florescesse ao lado de um homem fraco como Logan, que eles já controlavam. Você, indomada, era uma ameaça existencial.
— E qual o seu papel nisso tudo? — ela conseguiu perguntar, a voz um fio. — Você também faz parte disto?
Ele riu, um som áspero e sem humor, puro desprezo. — Eu sou a heresia. A anomalia que eles nunca conseguiram extirpar. Minha linhagem sempre existiu nas sombras, fora do sistema deles. E agora, o sistema está podre. Eu não vou consertá-lo. Vou queimá-lo até as fundações.
Seu olhar encontrou o dela, intenso, faminto. A distância entre eles pareceu desintegrar-se. Ele não falava de negócios ou de vingança. Falava de destino, um tecido do qual os dois pareciam ser os fios principais.
— Mas não posso fazer isso sozinho. Para derrubar um império, não se precisa de um exército. Precisa-se do catalisador certo. Uma arma que eles mesmos forjaram e jogaram fora. Alguém que conheça o sistema por dentro, mas que carregue um poder que vem de fora.
O ar ficou elétrico, carregado com o peso do que ele oferecia. O homem à sua frente não era seu carcereiro. Era o único que via a arma nela, e não a vítima. O medo que sentia dele começou a se transmutar em algo infinitamente mais perigoso: um senso de propósito compartilhado.
— Você não é uma peça no meu jogo, Diana — disse ele, a voz baixando para um sussurro que era pura combustão. — Eles temem o que corre no seu sangue. Eu estou apostando tudo nisso.
Ele a deixou ali, parada entre o brilho frio da tela e o calor pulsante da lareira. Sua sombra dançava na parede, longa e trêmula. A mulher humilhada no salão de festas era uma memória de outra vida. Marcus lhe dera mais que um refúgio. Ele lhe dera um inimigo.
Seus olhos fixaram-se nos rostos do conselho. Seus inimigos. Uma força nova, fria e paciente, assentou-se em seus ossos. Não havia mais lágrimas, nem desespero. Apenas um alvo.
Seu olhar desviou-se da tela para a mesinha de cabeceira ao lado, onde o pote de cerâmica escura a aguardava. Uma oferta. Uma condição. A primeira etapa do treinamento era sobreviver. A segunda, era se curar para lutar. Com a mão firme, decidida, Diana pegou o unguento.