A Loba de Ouro e Sombra
Cap. 4 de 22 · 14%

Despertar da Loba Adormecida

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A porta do quarto se abriu sem a cortesia de uma batida. Diana já estava de pé, o corpo tenso dentro das roupas de treino anônimas que encontrara sobre a cadeira. Era uma armadura que não oferecia proteção alguma, apenas anonimato forçado. Marcus parou no umbral, e seu olhar fez um inventário rápido, frio, que a despiu mais do que qualquer nudez. Ele não disse uma palavra. Apenas inclinou a cabeça em direção ao corredor. A ordem era clara. A névoa lá fora era um agressor, um fantasma gelado que se agarrava à base das árvores e roubava o som do mundo. Ele a conduziu em silêncio até a beira da floresta, onde uma trilha escura e úmida desaparecia como uma promessa de perdição. — Corra — a voz dele cortou a bruma, baixa e sem ressonância. Diana virou-se para ele, o queixo erguido num desafio frágil. — Para onde? Seu rosto era uma máscara de indiferença, mais intimidante que qualquer fúria. — Até não aguentar mais. E então, continue correndo. E ela correu. Impulsionada por um orgulho pisoteado e um medo que lhe subia pela garganta, ela mergulhou na trilha. O ar que entrava em seus pulmões era gelo e agulhas. As pernas, moldadas por anos de saltos altos e escritórios com carpete, gritavam em protesto contra a lama e as raízes traiçoeiras. Não havia som dos passos dele atrás dela. Ele não precisava seguir. Ele a observaria. De todos os lugares. O tempo se desfez em dor. Uma pontada aguda cravou-se sob suas costelas. O suor que escorria por seu rosto era glacial. Uma raiz, invisível na penumbra, laçou seu tornozelo e a arrancou do ar. A queda foi suja, brutal. O chão da floresta a recebeu com o abraço frio da terra molhada. Ficou ali, a lama se infiltrando em sua roupa, o rosto pressionado contra o cheiro de folhas em decomposição. Fim da linha. Lágrimas de pura exaustão e raiva brotaram em seus olhos, quentes contra a pele gelada. E então, uma voz emergiu da névoa, perigosamente perto. — É aqui que a herdeira da Vance desiste? Na primeira sujeira? Marcus estava parado a poucos metros, perfeitamente imóvel, uma silhueta recortada contra o cinza. Ele não parecia ter andado; parecia ter se materializado do próprio ar. — Me deixe em paz — ela cuspiu, o gosto de terra e humilhação na boca. Ele deu um passo. — Eu farei melhor. Vou quebrar você em pedaços até encontrar algo que valha a pena salvar. Levante-se. Naquele instante, algo dentro dela se partiu. Não a força, mas a casca fina de civilidade que restava. Um rosnado baixo, gutural e feio, vibrou em sua garganta antes que pudesse contê-lo. Ela se ergueu sobre os cotovelos, o corpo tremendo, e o encarou com todo o ódio que sentia. Um brilho surgiu nos olhos dele. Não era um sorriso. Era algo mais selvagem, mais antigo. Reconhecimento. — Aí está — ele murmurou. — Continue. A raiva tornou-se seu combustível. Cada passo era um golpe contra a traição de Logan, contra o sorriso falso de Verônica, contra a vida que lhe foi roubada. A dor nas pernas virou um zumbido distante, o ar um fogo que a purificava. No exato momento em que o colapso era inevitável, algo mudou. Uma estranha onda de calor se espalhou de seu peito, silenciosa e profunda. Não era adrenalina. Era como uma corrente subterrânea despertando. A dor não sumiu, foi… afastada. Os sons da floresta invadiram sua mente com uma clareza assustadora: o gotejar de uma folha a dez metros de distância, o farfalhar de um inseto sob a terra. Seu corpo, agora um instrumento, obedeceu a uma vontade que não parecia inteiramente sua. Ela continuou, um passo de cada vez, até emergir da trilha e desabar de joelhos na grama em frente à casa. Marcus já estava lá, esperando. Ela tentava recuperar o fôlego, o coração um tambor desgovernado. A sombra dele a engoliu quando ele se agachou à sua frente. Havia um arranhão em sua bochecha, um filete de sangue de um galho que a açoitara. Sua mão se ergueu. Diana encolheu-se por instinto. Mas os dedos dele apenas pairaram sobre o corte, a milímetros de sua pele, o calor irradiando uma promessa de toque. O olhar de Marcus não era de preocupação. Era de uma intensidade focada, predatória, fixa na gota de sangue como se fosse um defeito em algo que lhe pertencia. — Você sangra com muita facilidade — sua voz era um murmúrio rouco. Seus dedos finalmente a tocaram, mas não no corte. O polegar e o indicador prenderam seu queixo, erguendo seu rosto. O toque era firme, uma reivindicação. — Vamos consertar isso. Ele a puxou para cima sem esforço. Sua proximidade era uma invasão de calor e do cheiro sutil de ozônio e poder. Virando-a de costas para ele, seus corpos quase colados, ele repreendeu: — Sua postura. É um convite ao ataque. As mãos dele pousaram em sua cintura, e um choque elétrico percorreu sua espinha. Ele a ajustou, girando seus quadris, alinhando seus ombros. Uma mão deslizou para a curva de suas costas, pressionando-a para a frente, forçando-a a encontrar um novo centro de gravidade. O peito dele estava colado às suas costas; ela sentiu a vibração grave atravessar seu corpo quando ele falou, a boca junto ao seu ouvido. — Pés afastados. Joelhos flexionados. O poder não vem da fúria. Vem do chão. Sinta. E ela sentiu. Sentiu a terra firme sob seus pés. Sentiu o peso dele atrás dela. Sentiu o calor se espalhando por onde suas mãos passavam, uma marca invisível queimando através do tecido. O medo e a atração se torceram em um nó impossível em seu estômago. Então, tão subitamente quanto se aproximou, ele se afastou, deixando-a no frio, com o eco fantasma de seu toque. Marcus a observou, um escultor avaliando o primeiro corte bruto no mármore. — Amanhã, você aprende a não sangrar. Ele se virou e entrou na casa, deixando-a sozinha. Diana permaneceu imóvel na posição que ele a forçara. O ar gelado da manhã mordia sua pele, mas tudo que ela sentia era o calor residual das mãos dele em sua cintura, em suas costas. Lentamente, uma nova e terrível consciência clareou em sua mente. Não era apenas o medo dele que a assustava. Era o fato de que, por um instante, sob seu controle, ela não se sentira quebrada. Pela primeira vez, ela se sentira poderosa.
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