A lama gelada tinha o mesmo gosto da traição. Diana sentiu-a preencher sua boca quando seu rosto foi empurrado contra o chão encharcado, o ar escapando de seus pulmões num chiado patético. A chuva não caía, ela desabava — agulhas de gelo perfurando a ferida quente e aberta em seu flanco, roubando o calor que lhe restava. Cada respiração era um vidro quebrado se alojando em suas costelas.
— É o fim, Diana. — A voz de Dominic, seu noivo, era um eco plano na tempestade, tão fria quanto o aço que ele mesmo deslizara entre suas costelas momentos antes. Ele a segurava pelos cabelos, o aperto firme, forçando-a a encarar seu reflexo distorcido numa poça de água suja. — O Conselho não perdoa o que não pode controlar. E você… você é um erro de linhagem.
Ela tentou se virar. Um último espasmo de desafio fez a loba dentro dela, acuada e sangrando, mostrar os dentes. Um trovão distante engoliu seu rosnado fraco. A mão dele apertou, uma punição final.
— Não torne isso mais indigno do que já é. — Ele a soltou. Um empurrão. O som de seus passos recuando na lama foi devorado pelo uivo do vento, deixando-a com nada além do pulsar da dor e do silêncio de quem foi apagada do mundo.
Abandonada. Descartada. A chuva lavava seu sangue, mas não a vergonha que a queimava por dentro. Por um tempo que poderia ser uma eternidade, ela ficou ali, o corpo ansiando pela dormência do fim. Seria um alívio. Mas então, uma imagem ardeu por trás de suas pálpebras: o sorriso satisfeito de Dominic, os olhos duros dos anciãos. Eles a queriam assim. Esquecida.
Não.
A palavra foi menos que um sussurro, uma bolha de ar em seus pulmões congelados. Foi o suficiente. Uma faísca contra o gelo.
Com um gemido que rasgou sua garganta, Diana se arrastou. Apoiou-se nos cotovelos, puxando um corpo que não parecia mais seu. O corte em seu lado gritava, um protesto líquido e quente que escorria sem trégua. O mundo era um túnel de dor e sombras, o cheiro de terra molhada e folhas podres sufocando-a. Na beira de sua visão, a escuridão avançava, faminta.
Um som baixo, quase perdido no rugido da tempestade. Água correndo. Rio. O instinto, mais antigo que a dor, a empurrou naquela direção. Água era uma chance de limpar a ferida, de mascarar o cheiro de sangue que a transformava em isca.
Ela alcançou a margem, e a terra cedeu. Seu corpo rolou desajeitadamente, parando com a mão mergulhada na correnteza escura e furiosa. O choque da água gelada subiu por seu braço, um despertar brutal. Um fio escarlate se desprendeu de sua lateral, dançando na água antes de ser levado. Com a mão em concha, ela bebeu em goles desesperados, a água suja arranhando a garganta.
Foi quando o próprio ar mudou.
O cheiro de ozônio e chuva foi cortado por algo mais denso, mais antigo. Pinho, terra limpa e um poder tão absoluto que fez os pelos de sua nuca se arrepiarem. Não era um lobo perdido. Era um rei em seu domínio. Sua loba interior, moribunda, ficou subitamente silenciosa. Não por medo. Por respeito.
Na outra margem, uma silhueta se destacou da cortina de chuva e sombras. Ele atravessou o rio como se a correnteza violenta fosse um capricho da natureza, e não uma força. A água mal parecia resistir à sua passagem. O movimento era fluido, predatório e totalmente silencioso.
Diana tentou recuar, um reflexo inútil de presa. Tudo que conseguiu foi erguer o queixo, tremendo. Ele parou a poucos metros, um monólito contra a fúria dos elementos. A chuva parecia hesitar antes de tocá-lo. Na penumbra, seus olhos brilhavam. Um âmbar incandescente, líquido, que não a via, mas a consumia.
A voz dele, quando falou, era grave e calma, um contraste chocante com a tempestade.
— Encontrei você.
Não era uma saudação. Era a declaração do fim de uma busca. Um ponto final.
Ele se ajoelhou à sua frente. Havia um puxão em seu âmago, uma ressonância profunda, como se uma corda invisível que a ligava a ele fosse subitamente esticada. Marcus Blackwood. O Supremo Alfa. Uma lenda sussurrada em tons de aviso. Sua mão se estendeu, os dedos longos não indo para a ferida, mas para o seu rosto. O toque era quente, uma marca de fogo contra sua pele gelada, traçando a linha de sua mandíbula com uma posse inesperada.
Por um instante, o caos do mundo se calou. Restava apenas aquele olhar, uma conexão tão crua que roubou o pouco fôlego que ela tinha.
Sem esforço, ele a ergueu do chão, aninhando-a contra o peito como se ela não pesasse nada. O cheiro dele a envolveu, entorpecente e avassalador. O mundo começou a girar, a escuridão finalmente vencendo. Enquanto a consciência a abandonava, ela o ouviu falar de novo, a voz era um murmúrio rouco perto de seu ouvido, um som que prometia tudo, menos segurança.
— Um sangue como este… — Ele fez uma pausa, o tom se tornando perigosamente baixo, quase um rosnado. — Eles nunca deveriam tê-lo deixado correr livre.