A Loba no Império de Cristal
Cap. 2 de 21 · 5%

O Despertar da Conexão

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O primeiro sentido a retornar foi o olfato. Pinho, couro e ozônio, o cheiro de uma tempestade contida. Depois, o toque. Linho egípcio, quente e pesado, envolvendo um corpo que não doía. Diana abriu os olhos num rompante, o instinto gritando para lutar, mas o corpo se recusou a obedecer. Estava limpa, quente e… inteira. O quarto era uma obra de arte em sombras e vidro. Paredes de um cinza profundo, quase negro, e uma janela que tomava o lugar de uma parede inteira, emoldurando uma floresta de pinheiros envolta na névoa da manhã. Ela se sentou, o movimento rígido de um animal encurralado. O lençol escorregou, revelando uma camisa de algodão preta, grande demais, que cheirava a ele. Sua mão voou para o flanco onde a garra de Dominic a havia rasgado. Nada. A pele era lisa, ininterrupta. Apenas uma sensibilidade fantasma, a memória da agonia, permanecia. O pânico, frio e familiar, engatinhou por sua espinha. Tinha sido um pesadelo? A lama, a traição, o rosnado de desprezo de seu Alfa? Não. A humilhação ainda queimava como ácido em sua alma. Então, como? A porta se abriu sem um rangido. Marcus Blackwood entrou, não como um anfitrião, mas como a força gravitacional que mantinha o cômodo em órbita. Vestia calças escuras, uma camisa de malha cinza que desenhava um torso esculpido pela força. Seus olhos cor de âmbar pousaram na paisagem, ignorando-a deliberadamente enquanto ele parava junto à janela, uma silhueta de poder absoluto. — Meus limites costumavam ser bem definidos — ele disse, a voz um barítono calmo que contrastava com a tempestade em seu peito. — Até ontem à noite. Diana puxou o lençol até o queixo, uma barreira inútil. Sua loba interior, em vez de se encolher, eriçou-se, um rosnado baixo vibrando em sua garganta. — O que você fez comigo? O ferimento… — Eu o fechei. — Só então ele se virou. Seu olhar a varreu, lento, clínico, uma avaliação que a deixou mais nua do que se não vestisse nada. — Você estava se esvaindo no meu rio. Teria mais uma hora, talvez menos. — E por que você se importaria? — ela cuspiu, a voz rouca. Um canto de sua boca se curvou, um sorriso que não alcançou os olhos. — Porque quando você sangrou na minha terra, eu senti. Cada gota. Meu lobo reconheceu o seu. Aquelas palavras. Elas pairaram no ar, carregadas de um peso antigo e irrevogável. *Companheiros.* O elo que era lenda, a outra metade da alma que toda loba sonhava em encontrar. Para Diana, soou como o estalar de uma tranca. — Não. — A palavra foi um reflexo, um espasmo de negação. Ela balançou a cabeça, o cabelo escuro caindo sobre o rosto. — Impossível. — É a única verdade que resta no seu mundo — Marcus rebateu, a calma dele um insulto ao caos que a consumia. Ele se moveu até uma poltrona de couro e se sentou, cada gesto deliberado e econômico. — Eu senti você antes mesmo de vê-la. Foi… um chamado. As palavras dele na floresta. *Eles nunca deveriam tê-lo deixado correr livre.* O sangue dela. Ela soltou uma risada, um som seco e quebrado. — Então você me rebocou da beira da morte por um instinto primitivo? Uma conveniência biológica? Me jogue de volta. Prefiro tentar a sorte sozinha. Ser descartada por uma alcateia era uma ferida mortal. Ser reivindicada por direito logo depois era uma humilhação insuportável. — Não foi conveniência. Foi destino. — A intensidade em seu olhar parecia perfurar suas defesas, mirando diretamente a ferida que Dominic deixara. — E você não tem mais sorte lá fora. Sua alcateia baniu você. Seu Alfa tentou te matar. Você não tem mais nada. A pausa dele foi mais devastadora do que qualquer ameaça. Ele não precisava dizer. O silêncio gritava: *lá fora, você morre. Aqui, você é minha.* A implicação a atingiu como um raio. A fúria, pura e selvagem, explodiu dentro dela, afogando o medo. — Eu não sou de ninguém. — Diana ficou de pé em um movimento fluido, o lençol caindo no chão. A camisa dele mal cobria o essencial, mas a vulnerabilidade se transformara em desafio. Ela apontou um dedo trêmulo para ele. — Eu acabei de escapar da jaula de um dono. Não estou procurando outra. Ele não se moveu, apenas seus olhos seguiram o gesto dela. Havia uma paciência aterrorizante em sua imobilidade. — Eu não sou como ele — disse Marcus, o tom perigosamente baixo. — Eu não descarto o que é meu. — Eu não preciso da sua proteção! — A voz dela subiu, um fio de histeria a rasgando. O quarto opulento de repente pareceu um caixão de vidro. A calma dele, a certeza inabalável, a presunção do destino… era sufocante. Ela recuou, os olhos procurando uma saída. — Fique longe de mim. O pânico e a raiva se chocaram, criando uma tempestade interna que rivalizava com a da noite anterior. Suas mãos se fecharam em punhos ao lado do corpo. Ser traída, quebrada, e então imediatamente presenteada a outro macho como um prêmio de consolação do destino? A injustiça era um nó em sua garganta. — Não! — ela gritou, a palavra um ato de rebelião contra o universo. No ápice do seu grito, o ar estalou. A taça de cristal na mesinha de cabeceira vibrou, depois explodiu em uma chuva de cacos finos e silenciosos. A lâmpada ao lado piscou uma, duas vezes, e o filamento de tungstênio brilhou com uma luz azulada antes de se extinguir com um *pop* seco. O ar ficou pesado, carregado de eletricidade estática. Diana congelou, o grito morrendo em sua garganta. Ela olhou para as próprias mãos, abertas e trêmulas, como se pertencessem a outra pessoa. O que… o que foi aquilo? O silêncio que se instalou era diferente. Pesado. Carregado de algo novo. Quando ela ergueu os olhos, Marcus não estava mais sentado. Estava de pé, o corpo inclinado para a frente, a calma substituída por uma quietude de predador. Um lampejo de surpresa cruzou seu rosto, mas foi instantaneamente engolido por algo mais profundo, mais afiado. Fascínio. E reconhecimento. Seu olhar não estava mais no rosto dela. Estava fixo em suas mãos, nos cacos de cristal no chão, no rastro do poder que ela havia liberado. Ele pareceu ver não apenas o que aconteceu, mas o que aquilo significava. A longa pausa esticou seus nervos ao limite. Por fim, ele deu um único passo em sua direção, lento, deliberado. Sua voz, quando falou, era um rosnado baixo e transformado, cheio de uma revelação sombria. — O sangue me chamou. — Ele ergueu os olhos, e pela primeira vez, Diana viu a verdadeira fome neles. — Mas foi *isto* que eu vim buscar.
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