O raspador deslizou sobre a madeira do violino numa carícia perigosa, removendo uma camada fina como um suspiro. Kim Ha-eun parou. Inclinou a peça sob a luz nua da luminária, o pó de verniz pairando como poeira de ouro no ar gelado da oficina. A ponta do seu dedo traçou o contorno do reparo, buscando a falha que o olho não via, mas que a música certamente trairia.
Um desnível. Mínimo, mas teimoso. Um grão de areia numa engrenagem perfeita. Ela prendeu o violino outra vez na bancada. Lá fora, o inverno de Seul embaçava a vidraça; aqui dentro, a oficina ‘Som Eterno’ cheirava a cola aquecida e à promessa silenciosa das cordas. Do outro lado do balcão, uma cliente esperava, o som de suas mãos se esfregando um eco discreto da impaciência do mundo moderno.
— Pronto — disse Ha-eun, minutos depois.
Ela encaixou a peça, afinou duas cordas e tocou a mesma sequência de antes. A melodia subiu, limpa e cheia, despida do chiado fantasma que a trouxera ali. A cliente se aproximou, o rosto se abrindo em alívio.
— Parece outro instrumento.
— Continua sendo o seu — Ha-eun respondeu, limpando as mãos no avental. — Só parou de reclamar.
A mulher riu. — Quanto eu devo?
Ha-eun consultou o caderno surrado sobre o balcão, onde o valor anotado na margem fora riscado duas vezes naquela manhã. Ela cobrou o menor deles. Com o dinheiro na gaveta, separou as notas para o envelope da conta de luz. Faltava quase metade.
Os degraus nos fundos rangeram, anunciando a chegada de sua irmã. Kim Ha-yoon desceu puxando o zíper de um casaco grosso demais para o salário dela, uma fatia de pão numa mão e uma bolsa na outra.
— O aquecedor está fazendo um barulho estranho de novo — Ha-yoon disse, parando para encarar o aparelho com desconfiança.
— Ele fez um barulho diferente, eu só ajustei.
— Isso não é uma resposta, é uma confissão. — Ha-yoon agachou, desligou o fio escurecido da tomada e o examinou. — Você está tentando salvar a oficina ou incendiá-la? Preciso saber para onde direcionar meu pânico.
— Se sair agora, ainda pega o ônibus das oito.
— Eu sei ver as horas, Ha-eun. E sei que você está fugindo do assunto.
Ha-eun abriu a gaveta, pegou uma nota do dinheiro que acabara de guardar e a estendeu. — Para o seu almoço.
Ha-yoon enfiou as mãos nos bolsos, o olhar fixo no da irmã. — Use para a conta de luz.
— Eu consigo outro serviço até sexta.
— E eu consigo um turno extra. Não começa.
O silêncio que se instalou foi mais pesado que o frio. Sobre a mesa de ferramentas, três envelopes do YS Group permaneciam empilhados, uma ofensa silenciosa. Ha-eun devolveu a nota ao envelope da luz.
— Pronto. Sua vitória do dia.
— Não é uma vitória, é a realidade. Aquelas cartas não vão desaparecer. — Ha-yoon apontou com o queixo. — A última oferta... Ha-eun, é a nossa chance de respirar. De sair daqui antes que isso tudo desabe em cima de você.
— Uma bancada em outro lugar não é esta oficina.
— E esta oficina não vai pagar o tratamento que eu preciso se você continuar trocando nosso futuro por orgulho.
A lâmina do raspador escorregou, mordendo a madeira além da marca e arrancando uma lasca visível. O estrago ficou exposto, feio e irrevogável. Ha-eun pousou a ferramenta, a mão subitamente pesada.
— Vai trabalhar, Ha-yoon.
A irmã suspirou, derrotada. Pegou um cachecol no cabide e o enrolou no pescoço. Abriu a porta, mas hesitou, o corpo metade dentro, metade fora.
— Eu não estou fazendo turnos extras pra financiar uma guerra que você decidiu lutar sozinha.
O sino da porta não soou. Um homem bloqueava a entrada, o ombro de seu casaco escuro e caro criando uma barreira. Ele deu um passo para o lado, o rosto impassível.
— Com licença.
Ha-yoon passou por ele, lançando um último olhar suplicante para a irmã. — Pelo menos leia, Ha-eun.
A porta se fechou, e o homem entrou. Ele retirou as luvas de couro com uma lentidão calculada, e a neve derretida de seus sapatos manchou o assoalho de madeira que Ha-eun varria três vezes ao dia. Tudo nele — o corte do terno, o relógio, a pasta fina — gritava que aquele não era seu lugar.
— A oficina está fechada para novos reparos — disse Ha-eun, a voz cortante como o vento lá fora.
— Não estou aqui por um reparo. — Seus olhos percorreram o lugar, não com curiosidade, mas com a avaliação fria de um inspetor. O olhar parou na peça danificada sobre a bancada. — Você retirou material demais.
O comentário a atingiu como uma bofetada. Não era uma crítica qualquer; era a observação de alguém que entendia. Ha-eun cobriu a peça com um pano.
— E você entrou demais. A porta estava aberta.
— Um erro que já estou corrigindo.
Ele tirou um envelope da pasta. O selo do YS Group pareceu queimar sobre o balcão. — Seo Jin-woo. Vim em nome do projeto.
Ha-eun sentiu o chão sumir. O herdeiro. Não um mensageiro, mas o arquiteto de sua ruína. — Mandaram o príncipe entregar a correspondência final? Que honra.
— Eu coordeno esta fase do desenvolvimento — ele corrigiu, impassível.
— Ah, claro. O ‘desenvolvimento’. É assim que chamam a demolição agora?
Ela contornou o balcão, forçando-o a encará-la sem a proteção da madeira. De perto, ele era mais alto, e o frio parecia emanar de seu casaco. Havia um pequeno corte quase cicatrizado perto de sua sobrancelha, a única imperfeição em seu rosto simétrico.
— É a notificação final. O prazo para a desocupação voluntária é de setenta e duas horas.
— ‘Voluntária’ — ela repetiu, a palavra azeda em sua boca.
— O termo é legal, não uma escolha minha.
— Mas a escavadeira é.
O olhar dele vacilou por uma fração de segundo. — Os relatórios indicam problemas estruturais, elétricos...
— Seus relatórios? — Ha-eun o cortou. — A fiação desta quadra foi comprometida pela sua primeira obra. A infiltração começou quando demoliram o prédio ao lado. Essas rachaduras são o eco das suas máquinas. Não me fale sobre problemas que vocês criaram.
— Se tiver provas, a equipe jurídica irá analisar.
— A equipe que trabalha para você? Que piada.
Ela arrancou os papéis do envelope, escreveu “Recebido sem concordância” na margem e assinou com força. Empurrou o envelope de volta contra o peito dele. Ele o segurou antes que caísse, seus dedos roçando os dela.
— Isso não muda nada, Kim Ha-eun.
— Nem a minha assinatura significa que eu me rendi.
— Ninguém pediu sua rendição. — Ele colocou o envelope de volta no balcão. — Apenas que seja razoável. O valor da indenização foi aumentado.
— Para compensar a perda? — Ha-eun riu, um som sem alegria. Ela puxou o pano da bancada, revelando a madeira ferida. — Esta peça secou por vinte anos. A bancada foi feita pelo meu avô. O som muda de acordo com a umidade que essa rachadura no chão anuncia. Seu dinheiro paga por tijolos e metros quadrados. O resto não tem preço. Vocês não podem compensar o que nem sabem medir.
Um caminhão passou, e a corda de um violoncelo pendurado na parede vibrou com um gemido baixo e longo. O som pairou entre eles.
— Não existe fórmula para o resto — disse Jin-woo, e por um instante, sua voz perdeu o gume corporativo.
— Então não finja que está oferecendo uma compensação justa.
Ele pegou as luvas, a máscara de indiferença de volta no lugar. — Você vai ter que refazer a peça inteira.
— Eu sei.
— Poderia só preencher o corte. Esconder o defeito.
— O cliente talvez não ouvisse a diferença — ela admitiu, o olhar fixo no dele. — Mas eu ouviria.
— Perfeccionismo custa caro — ele observou, vestindo a primeira luva.
— Só para quem acha que qualquer falha pode ser coberta com uma camada de tinta nova.
O golpe acertou em cheio. Ele terminou de vestir as luvas em silêncio antes de falar. — Há opções de transporte e armazenamento no anexo. Podemos ajudar.
Ha-eun abriu a porta da oficina, e o vento gelado invadiu o espaço, fazendo o aviso de despejo farfalhar sobre o balcão como uma bandeira branca que ela se recusava a hastear.
— Não preciso da sua ajuda para empacotar minha vida.
Jin-woo parou ao lado dela no batente, o espaço tão apertado que ela podia sentir o frio de seu casaco. Seus olhares se cruzaram, uma batalha silenciosa travada em poucos centímetros.
— Setenta e duas horas, Kim Ha-eun.
— Ouvi da primeira vez.
Ele desceu o degrau da entrada, mas virou-se uma última vez. A luz amarelada da oficina o recortava contra o cinza da rua. — Eu voltarei antes do prazo terminar.
— Só se trouxer um instrumento quebrado. Correspondência não é mais bem-vinda.
Um fantasma de sorriso tocou seus lábios, mas não alcançou seus olhos. — Eu vou voltar — disse ele, a voz baixa e final. — Mas a demolição também. E ela não vai parar na porta.