A planta do projeto dominava a mesa de reuniões do YS Group, um mapa frio onde a Oficina ‘Som Eterno’ era apenas um retângulo vermelho, a única mancha de resistência num mar de blocos cinzentos. Seo Jin-woo permaneceu de pé, a cadeira vazia ao seu lado um protesto silencioso. O ar na sala era superaquecido e imóvel.
Seo Ji-yeon fechou uma pasta com um clique satisfeito, alinhando-a à borda da mesa. Seu casaco de lã, fechado até o pescoço, a transformava numa silhueta impenetrável. — Vinte e três minutos. Para entregar um papel.
Jin-woo ignorou o comentário, o celular vibrando em seu bolso com atualizações que ele sabia que ela não estava monitorando. — O relatório dos técnicos culpa o prédio por danos causados pela nossa própria obra ao lado.
— Cuidado com a palavra “culpa”, Jin-woo. Ela implica responsabilidade. — A unha polida dela tocou a pasta duas vezes, um som agudo como o de um inseto contra o vidro. — Sente-se.
Ele não se moveu. Ji-yeon suspirou e dobrou a planta, fazendo o retângulo vermelho desaparecer. — O cronograma foi aprovado com a sua assinatura. Os investidores receberam garantias com a sua assinatura. E agora, porque uma artesã fez um discurso, você volta questionando rachaduras?
— Ela não fez um discurso. Apontou fatos. — A imagem da peça coberta às pressas voltou à sua mente: o brilho da madeira, o cheiro de pó de serragem e cola que ainda impregnava o tecido de seu casaco. — A oferta precisa refletir o dano que causamos. É uma questão de atividade, não só de área.
— Madeira velha e ferramentas usadas não viram patrimônio só porque alguém é teimoso. — O desdém em sua voz era cortante. — Desde quando você defende o argumento da outra parte?
Jin-woo pegou a caneta sobre a mesa, o metal frio contra sua pele. — Desde que o argumento dela se tornou melhor que o nosso.
Ji-yeon abriu a pasta e deslizou uma única folha sobre o mapa. — A reunião do conselho foi antecipada. Quero a desocupação concluída antes disso.
— O prazo é de setenta e duas horas.
— Era. — Ela o encarou. — Convença Kim Ha-eun a sair.
O nome dela, dito com aquela precisão cirúrgica, fez Jin-woo largar a caneta. — Você a investigou.
— Eu investigo qualquer um que custe dinheiro ao YS Group. Você deveria fazer o mesmo. Encontrei dívidas, uma irmã em tratamento e uma oficina que mal paga as próprias contas. Ela vai ceder. Só precisa que alguém a trate como um negócio, não como uma causa.
Jin-woo puxou a folha. Uma autorização para inventariar os bens da oficina na manhã seguinte. — Isso viola o prazo.
— Só se ela resistir. E se resistir, teremos um registro de não cooperação. É uma armadilha ou uma saída, dependendo do lado em que você está.
O ar do aquecedor fez a borda do papel vibrar. — Não vou executar isso.
Ji-yeon se levantou. Mesmo mais baixa, parecia comandar todo o espaço. — Não estou pedindo. Estou informando que essa decisão não é mais sua. — Ela recolheu o documento. — Você quis este projeto para provar algo. Não o transforme num palco para uma crise de consciência. Quero a confirmação do inventário quando eu voltar.
Ela se virou, mas parou à porta. — E se escolher aquela oficina para disputar poder comigo, tenha certeza de que aguenta perder as duas coisas.
Os passos dela se extinguiram no corredor. Jin-woo contou três batidas do relógio antes de pegar o celular. Na tela do sistema, a ordem de inventário brilhava. Ele alterou o horário para o fim do prazo oficial e adicionou uma cláusula: “Acesso condicionado a nova vistoria estrutural prévia”. O sistema pediu confirmação. Ele pressionou o dedo na tela até uma mancha branca se formar. Então, discou o número da notificação.
Kim Ha-eun atendeu no quinto toque, a voz tensa sobre o som de algo metálico caindo ao fundo. — Se ligou para perguntar se já comecei a empacotar, pode poupar sua bateria.
— Não era sobre caixas.
— Ainda.
Jin-woo se afastou da mesa, olhando a cidade lá fora se dissolver na névoa de inverno. — Você tem documentos antigos da oficina? Escrituras, contratos, qualquer coisa anterior à compra dos outros imóveis da quadra.
Um silêncio. Uma gaveta bateu forte do outro lado. — Por quê? Você disse setenta e duas horas.
— E ainda são. Mas amanhã tentarão fazer um inventário dos bens.
— Que generoso. Sua empresa cumpre o prazo que ela mesma escreveu.
— Kim Ha-eun, escute. — A impaciência dele era quase um apelo. — Se houver uma irregularidade na aquisição original da área, pode suspender a ordem. Documentos podem. Promessas, não.
— Você está me ajudando?
— Estou evitando que o YS Group cometa um erro. — A mentira saiu rápida, uma casca protetora.
— Ah, claro. Por um segundo, quase achei que você fosse uma pessoa.
A ligação caiu.
Jin-woo baixou o celular. Sobre a mesa, o retângulo vermelho da oficina continuava ali, exposto. Ele não o dobrou de volta.
***
Ha-eun jogou o celular sobre a bancada e se agachou para pegar a chave de afinação que derrubara. Suas mãos tremiam tanto que ela errou o gancho na parede duas vezes.
O aviso de Jin-woo era uma sentença e um mapa. Os fundos da oficina guardavam o caos de quarenta anos: recibos, moldes, cadernos. Seu avô nunca descartava nada. O som de uma caixa de papelão sendo arrastada pelo chão de madeira ecoou no silêncio.
— Virou a placa de “Fechado” mais cedo? — A voz de Kim Ha-yoon cortou o ar poeirento. Ela estava parada na entrada, tirando os sapatos com um cuidado que indicava que não estava só de passagem.
— O último cliente apareceu às quatro. — Ha-eun respondeu, sem se virar.
Ha-yoon se aproximou, um envelope branco visível no bolso de seu casaco. — Remarcaram meu tratamento. Preciso confirmar até amanhã.
A tampa de uma caixa escorregou e bateu no joelho de Ha-eun. A dor foi um ponto de foco bem-vindo. — Quanto?
— Não faça essa cara.
— Que cara?
— Aquela que começa a calcular o preço das ferramentas sem me avisar.
Ha-yoon pousou o envelope na bancada. — A indenização cobre tudo. O tratamento, um aluguel. Sobra para você montar outra oficina.
— Uma oficina não nasce quando se pendura uma placa.
— E eu não ganho um corpo novo só porque você gosta deste assoalho. — A frase pousou entre elas, pesada e irrefutável. A tubulação do aquecedor estalou na parede, como se concordasse.
Ha-eun abriu um maço de recibos amarrado com um barbante. — Seo Jin-woo ligou. Avisou que virão amanhã.
— E você fala com essa calma? O homem que trouxe a ordem de despejo agora dá avisos? Que gentil da parte dele.
— Ele disse que uma falha nos registros antigos pode parar tudo. — Ha-eun empurrou uma pilha de cadernos para a irmã. — Me ajude a procurar.
Ha-yoon não tocou nos cadernos. — E se não houver falha? E se não houver nada? — Ela pegou o envelope. — Se não acharmos nada até amanhã à noite, você vai ler esta proposta comigo. Inteira. Sem piadas, sem drama.
— Ha-yoon…
— Eu parei de aceitar os turnos extras, Ha-eun. Preciso do tratamento. E quero que você pare de decidir por nós duas.
O peso daquelas palavras era maior que o da demolição. Ha-eun puxou o envelope, o papel liso sob seus dedos sujos de poeira. — Amanhã à noite.
— A proposta inteira.
— Inteira.
Com o acordo selado, Ha-yoon tirou o casaco e se sentou no chão frio. Por quase uma hora, o único som foi o de papéis sendo remexidos. No fundo da última caixa, sob moldes de violino, um caderno de capa dura, envolto em um pano desbotado.
Ha-eun reconheceu a caligrafia do avô de imediato. Pequena, econômica, como se cada letra custasse algo. As primeiras páginas eram puro trabalho: medidas, tipos de madeira, cálculos. Mas no meio, a natureza das anotações mudava. Frases curtas, escritas nas margens.
Ha-yoon se inclinou, lendo por cima do ombro da irmã. — “O tesouro perdido continua onde ninguém mais procura.”
Ha-eun virou a página, o papel quebradiço. Outra anotação, esta riscada com força: “Não foi vendido. Foi tomado.”
Entre as folhas, um recorte de jornal, dobrado e amarelado. Ao abri-lo, uma única palavra circulada a lápis se destacou no meio de uma coluna de texto.
*Leilão.*
Abaixo dela, uma data. Uma que coincidia perfeitamente com o início da primeira grande dívida registrada no velho livro-caixa da família.