O diário do avô pesava dentro do casaco, um calor estranho contra o peito de Kim Ha-eun. Na bolsa, a proposta de indenização do YS Group era um bloco de gelo. Ela escolheu a mesa mais resguardada da casa de chá em Insadong, um canto onde o piso aquecido trazia um conforto que não alcançava a ponta de seus dedos.
Pediu chá para um. A decisão pareceu um pequeno ato de resistência, um limite traçado antes mesmo da batalha começar. Quando a chaleira de ferro fumegante chegou, a porta de madeira se abriu, trazendo o ar frio da rua e Seo Jin-woo.
Ele a localizou sem esforço. Parou ao lado da mesa, o nó da gravata torto como se tivesse brigado com ela pela manhã e perdido. Ha-eun serviu apenas a própria xícara, o vapor subindo e se desfazendo entre eles.
— Você me chamou.
— Não tire conclusões precipitadas.
— Tarde demais. Cancelei uma reunião importante por isso.
— Então sua agenda é mais frágil do que eu imaginava.
— Minhas prioridades estão sendo... reavaliadas esta semana.
Ele se sentou. A mesa baixa forçou uma proximidade indesejada. O joelho dele roçou o dela, e Jin-woo se ajeitou no mesmo instante, criando um espaço que parecia artificialmente grande. Ha-eun agarrou a alça da bolsa, mas não a abriu.
— Você disse para eu perguntar por quê.
— E você passou a noite se perguntando?
— Passei a noite trabalhando. Alguns de nós têm um ofício.
— E outros de nós impedem que prédios desabem sobre quem tem um ofício.
O som da xícara dela pousando no pires foi mais alto que o necessário.
— A demolição ainda está de pé.
— E a proposta ainda está sem sua assinatura.
— Você anda lendo meus documentos agora?
— A equipe jurídica informa quando um acordo é recusado. Silêncio não é recusa.
— Silêncio é o que acontece antes de uma decisão.
Jin-woo estendeu a mão, não para ela, mas para a chaleira. Serviu a segunda xícara sem pedir licença e tomou um gole. A expressão dele se contraiu levemente.
— Forte demais? — ela provocou.
— Amargo.
— É a especialidade da mesa.
Ele deixou a xícara de lado. — Por que me chamou até aqui? Longe da oficina?
— Porque a Som Eterno tem madeira de lei, instrumentos centenários e paredes que respiram. Não quero o eco da sua empresa manchando o som de lá.
O queixo dele endureceu. — *Minha* empresa?
— Não vamos fingir que você é um mensageiro inocente. Já passamos dessa fase.
Com um gesto lento, ela retirou o diário do casaco. A capa de couro puído tocou a madeira da mesa com um baque surdo. Jin-woo não se moveu, mas sua postura mudou. As costas se endireitaram, os ombros se alinharam. Todo o corpo dele parecia focado naquele objeto.
— Isso estava na sua bancada ontem.
— Você tem o péssimo hábito de notar o que não lhe diz respeito.
— É um requisito do meu trabalho. E a melodia?
Ele roçou o polegar na borda da xícara, um gesto contido. — Havia uma partitura antiga guardada com o gayageum. Sem título, sem autor. Eu a tocava quando conseguia ficar sozinho.
— Conseguia?
— Portas fechadas nunca foram um obstáculo real na casa onde cresci.
Ha-eun abriu o diário na página marcada, a caligrafia desbotada de seu avô exposta sob a luz suave. Girou o livro sobre a mesa, oferecendo a visão a ele. Entre anotações sobre verniz e encomendas, a palavra “leilão” fora circulada duas vezes. Abaixo, uma data, uma sequência de números e o símbolo familiar: o círculo cortado por três linhas.
Jin-woo se inclinou. O frio preso no tecido de seu casaco roçou o braço dela. Ha-eun não se afastou. Ele não tocou no diário; em vez disso, apoiou as mãos nos próprios joelhos.
— Posso?
— Pode ler. Não pode tocar.
Ele examinou a página, os olhos movendo-se com uma precisão analítica. — O número... não é um valor monetário. Não tem o separador que seu avô usava.
— Pode ser o número de um lote.
— Foi o que presumi. Onde está a ligação com as dívidas?
Ela virou duas páginas. Uma contabilidade organizada que se tornava caótica. Pagamentos cessavam na mesma semana da data do leilão. Em seguida, o registro de empréstimos, venda de ferramentas. Duas folhas haviam sido arrancadas.
— Antes disso, a oficina prosperava. Depois disso, foi uma luta para sobreviver.
Jin-woo voltou à página do leilão. Seu dedo pairou sobre o símbolo. — Esta marca foi adicionada depois. A pressão do lápis é diferente. Mais forte, mais irritada.
Ha-eun sentiu um arrepio. Ela não havia notado.
— A marca está no gayageum.
A xícara de Jin-woo tilintou contra o pires. Ele pegou um guardanapo para limpar o chá que derramou, a mão um pouco instável.
— Onde? — A voz dele era baixa, urgente.
— Escondida sob o acabamento de seda, na base. Invisível a menos que você saiba onde procurar.
Ele empurrou o celular dela de volta com uma rapidez que a surpreendeu. — Essa marca não consta no registro da coleção da minha família.
— Existe um registro?
— De tudo. Procedência, aquisição, avaliação. Especialmente para itens de leilão.
A atendente deixou um prato de doces na mesa, quebrando o feitiço. Ha-eun esperou que ela se afastasse.
— O gayageum foi adquirido na mesma época desta anotação?
— Eu não sei.
— Resposta conveniente.
— É a única que eu tenho. Quer que eu invente uma melhor?
— Quero que pare de me dar a verdade em pedaços, como se estivesse me alimentando com migalhas.
Ha-eun fechou o diário com um baque seco. — Sua família tem um instrumento com a marca que meu avô desenhou na semana em que a oficina dele começou a ruir. Você reconhece uma melodia que só ele tocava. O histórico da peça sumiu. Quantas coincidências você precisa para chamar isso pelo nome certo?
O silêncio dele foi uma resposta. Ele olhou para o diário, depois para ela.
— Nenhuma.
A palavra, dita sem rodeios, desarmou Ha-eun. Ela abriu o diário de novo, numa página diferente. “Não aceitar recompra sem o nome do comprador.”
— Recompra — disse Jin-woo, lendo por cima do ombro dela. — Seu avô tentou reaver algo.
— O instrumento. Ou o que quer que tenha sido vendido com ele.
Jin-woo pegou o próprio celular. Com poucos toques, cancelou dois compromissos. — Os arquivos financeiros mais antigos não estão no sistema principal. Alguns foram digitalizados. Outros continuam em caixas no Arquivo do YS Group.
— E você tem acesso.
— Tenho acesso ao que minha autorização permite. Uma busca formal por um lote antigo, sem justificativa, levanta alertas.
— Então faça sem ser formal.
— Isso não é um filme, Kim Ha-eun.
— Não, é pior. É a história da minha família. Procure.
Ele estendeu a mão, palma para cima. Não um pedido, mas uma condição. — Preciso da data exata, do número do lote e de uma cópia dessas páginas.
— Fotografe — ela cedeu, sentindo o gosto da derrota. — Mas as fotos ficam no seu celular. Você não as envia para ninguém.
— Pode ser necessário cruzar dados...
— Você cruza. Sozinho.
— Isso não é uma restauração onde você controla cada detalhe.
— É exatamente o que parece para mim. Eu controlo quem põe a mão.
O nome da tia dele pairava no ar, não dito. Jin-woo pareceu lê-lo no rosto dela. — Certo. Eu faço a busca. Sozinho. Se encontrar algo, falo com você primeiro. Antes de qualquer outra pessoa.
— Inclusive Seo Ji-yeon?
— *Principalmente* Seo Ji-yeon.
Era a promessa que ela precisava. Ha-eun posicionou o diário e esperou. Jin-woo tirou três fotos. Na última, a marca vermelha em seu polegar, um corte da corda de seda, apareceu na margem do papel. Ele baixou o celular.
— Sua mão está ferida.
— Faz parte do trabalho.
Seus olhos demoraram no ferimento por um instante a mais do que o necessário. — Não deveria.
Ha-eun sentiu o rosto esquentar. Puxou a mão para si e escreveu seu número de telefone na tira de papel que usava como marcador. Empurrou-a pela mesa.
— Apenas para esta investigação.
Um canto da boca dele se curvou. — Naturalmente.
— Não sorria.
— Não estou.
— Está quase.
Ele guardou o papel e o celular no bolso interno do casaco e se levantou, deixando dinheiro sobre a mesa. — Se o número não for um lote, voltamos ao início.
— Não. — Ha-eun guardou o diário. — Se não for um lote, nós descobrimos o que é.
Ele parou, a mão na porta. — “Nós”?
Ela empurrou a proposta de indenização para o lado, limpando o espaço entre eles. — Até os fatos escolherem um lado.
Horas mais tarde, na oficina, o cheiro de cola e madeira preenchia o silêncio. A proposta do YS Group continuava intocada. Eram quase meia-noite quando o celular de Ha-eun vibrou, o som agudo contra a bancada.
A tela se acendeu com uma única mensagem de um número desconhecido.
“Encontrei. O nome do comprador no leilão foi YS Group.”