O sino da porta soou uma única vez, pontual e frio. Oito e dez. Kim Ha-eun nem precisou olhar o relógio; o som parecia nascer do mecanismo do tempo, não do vento lá fora. Ela sentiu a musculatura das costas enrijecer sobre a bancada de trabalho.
Seo Jin-woo entrou, deslizando a porta com uma quietude que não combinava com sua presença. Sem assistente, sem câmeras. O nó da gravata, afrouxado, denunciava um cansaço que o rosto impassível tentava esconder. Ele depositou um estojo estreito de couro sobre a bancada, ao lado do gayageum ferido.
— Você esperou do lado de fora? — A voz dela saiu cortante.
— Dois minutos.
— É ridículo.
— Você marcou oito e dez.
— Para irritar você.
— Funcionou às oito e oito — ele admitiu, tirando o casaco. A poeira clara do dia anterior ainda manchava a manga de lã escura.
Ha-eun desviou o olhar antes que o gesto se tornasse um flagrante. Sobre a mesa, o instrumento parecia um paciente em uma sala de cirurgia. Pequenos retângulos de papel marcados a lápis mapeavam a fissura. A velha marca de luthier, o círculo incompleto perto da base, estava coberta por um retalho de tecido, como um segredo guardado.
— A madeira terminou de se ajustar à umidade e à temperatura — disse ela, a profissional assumindo o controle. — Agora vou descobrir quanto estrago esconderam por baixo do verniz.
Jin-woo abriu seu estojo. Dentro, sob o veludo negro, descansavam medidores de precisão, uma lupa de joalheiro e duas espátulas de aço flexível.
— Eu tenho ferramentas.
— Imaginei. Estas não são para você. São para mim.
Ela pegou uma das espátulas. Era fina, perfeitamente balanceada. Tinha a flexibilidade exata para sondar a madeira sem causar mais danos. Um instrumento feito por quem entendia a fragilidade do que tocava.
— Onde conseguiu isso?
— Mandei fazer. Há alguns anos.
— Para um homem que não toca em instrumentos, você se prepara bastante.
— Para uma mulher que aceitou meu dinheiro, você faz perguntas demais.
A farpa a atingiu. Ela devolveu a espátula ao estojo com um clique seco.
— Use as suas, então — ele cedeu, a voz um tom mais baixa.
Ha-eun acendeu a luminária articulada, projetando a luz rente ao tampo de paulownia. A sombra denunciava cada imperfeição. Com uma tira de papel de arroz, ela testou a junção. O papel entrou pouco no lado direito. No esquerdo, sumiu até a metade.
Jin-woo puxou um banco, mas permaneceu de pé, curvado sobre a mesa.
— A fenda atravessa a lateral inteira.
— Ainda não.
— O papel desviou. Está vendo? Ele não segue reto.
Ha-eun parou, a tira de papel imóvel entre seus dedos. Ele tinha razão.
— É uma bolsa de cola antiga — ela rebateu, mais por instinto do que por certeza.
— Ou a pressão do quarto cavalete torceu o tampo. Olhe a sombra.
Ela moveu a luz, seguindo a fibra da madeira. A sombra quebrava exatamente ali. Ao remover a peça móvel, encontrou uma marca mais clara, um fantasma da posição correta do cavalete.
— Alguém afinou com ele fora do eixo — a voz de Jin-woo era analítica, desprovida da arrogância corporativa. — A corda puxou na diagonal. A fissura foi consequência.
Ha-eun mediu, calculou, mediu de novo. O número teimava em ser o mesmo. O erro não era dela, mas a correção seria.
— Isso não se aprende em catálogos de leilão.
— Então é bom que eu tenha aprendido fora deles.
Ele finalmente se sentou. Ha-eun empurrou o banco dele com a ponta do pé, criando um espaço de segurança.
— Fora da área de trabalho.
— Há uma linha invisível no chão?
— Acabei de desenhar uma.
O trabalho começou em um silêncio tenso. Ha-eun afrouxava as cordas de seda em etapas, liberando a pressão gradualmente. Jin-woo numerava os cavaletes removidos com uma caligrafia precisa, quase mecânica, em pequenas etiquetas adesivas. Na sexta etiqueta, ele hesitou.
— O seis vem depois do cinco — ela provocou, batendo a ponta do lápis na madeira.
— Você mudou a ordem.
— Eu sempre tiro da esquerda para a direita.
— Ontem você começou pela outra ponta.
Ela o encarou. Ele se lembrava. O detalhe era tão pequeno, tão inútil, e ainda assim ele o registrara.
Ele arrancou as etiquetas erradas, o som do papel se rasgando preenchendo o silêncio. — Eu guardo os erros. Principalmente os dos outros. Acertos raramente voltam para nos assombrar.
Quando a última corda perdeu a tensão, a madeira do gayageum soltou um suspiro longo e baixo. Ha-eun pousou a palma sobre o tampo, sentindo a vibração morrer sob sua pele. Com um pincel, varreu a poeira e os resíduos de cola antiga. Jin-woo, sem que ela pedisse, separou o pó escuro com a ponta de uma espátula.
— Essa cola não é original. Tem brilho sintético.
— Para parecer consertado, não para consertar.
— Há uma diferença — ele concordou.
Ela aqueceu a cola de peixe em banho-maria. O cheiro forte e animal se espalhou, sobrepondo-se ao aroma de madeira e pó. Jin-woo abriu uma fresta da janela.
— Feche.
— É impossível respirar aqui.
— A cola precisa de temperatura estável. — A janela se fechou com um clique suave. — E nós? — ele perguntou.
— Somos mais fáceis de remendar.
Por longos minutos, o único som foi o raspar delicado da espátula removendo a cola velha. Ele segurava a luminária, antecipando os movimentos dela, ajustando o ângulo antes que ela precisasse pedir.
— Sua linha imaginária no chão ainda está valendo? — ele perguntou, a voz baixa.
— Se continuar falando, ela vai virar uma parede.
Perto do meio-dia, a cola antiga cedeu. Ha-eun inseriu a lâmina de reforço, preparada com a fibra na mesma direção da original. A peça deslizou para dentro, um encaixe perfeito. Ela distribuiu os grampos de pressão, revestidos em couro, ao longo da borda. Um aperto a mais e a madeira marcaria. Um a menos e o conserto seria inútil.
— O terceiro — disse Jin-woo, apontando. — Está desalinhado.
Ela verificou. Uma linha fina de cola estava sendo expulsa de forma irregular. Ele estava certo. De novo. Ela soltou, reposicionou e apertou.
— Melhor — ele constatou.
— Não se acostume a estar certo nesta oficina.
Ele pegou o copo de café que ela abandonara horas antes, provou e fez uma careta. — Isso é algum tipo de punição?
— Era café às seis da manhã. Agora é só um líquido marrom e frio.
Num impulso, ela tomou o copo da mão dele e bebeu o resto em um só gole, apenas para contrariá-lo. O amargor invadiu sua boca, e ela largou o copo na bancada com mais força do que o necessário. A vitória não tinha sabor algum.
A luz da tarde se foi. As horas passaram em um fluxo de trabalho silencioso e compartilhado. Quando chegou a hora de trançar uma nova corda de seda, ele assumiu a outra ponta sem precisar de instrução, mantendo a tensão constante enquanto ela torcia os fios.
— Você já fez isso antes — não foi uma pergunta.
— Já.
— Onde?
— O bastante para saber como fazer.
Uma vibração curta veio do bolso dele. Jin-woo leu a mensagem, digitou uma resposta e guardou o celular. A redoma de silêncio que haviam construído se estilhaçou.
— Pode ir — disse Ha-eun. — A cola precisa secar. Não há mais nada para fiscalizar.
— Quero ouvir o teste.
— Vai ser tarde.
— Ainda não pedi para dormir aqui.
— Nem peça.
Ao anoitecer, ela retirou os grampos. A junção estava limpa, quase invisível. Instalou duas cordas provisórias, recolocou os cavaletes e aplicou uma leve tensão. Jin-woo observava do outro lado, as mangas da camisa dobradas nos antebraços, a gravata desaparecida.
— Não vai soar como antes. O reforço precisa assentar.
— Afine meio tom abaixo — ele sugeriu.
— Eu sei.
— Agora você entende por que respondo assim — um fantasma de sorriso tocou seus lábios.
Ha-eun puxou a primeira corda. O som saiu opaco, morto. Ela ajustou o cavalete. Tentou de novo. A nota subiu, mas morreu no ar.
— O cavalete está muito alto — disse Jin-woo. — A tensão da seda artesanal é diferente da industrial.
Ela o encarou, mas trocou a peça por uma dois milímetros mais baixa. Puxou a corda mais uma vez.
A nota atravessou a oficina. Pura, firme, quente. A vibração viajou pelo ar, sustentada pela madeira agora curada, até se dissolver perto das prateleiras.
E então, algo quebrou a lógica do mundo dela. Em voz baixa, Jin-woo cantou a nota seguinte. Não foi um palpite. Foi a altura exata, o complemento perfeito. Ha-eun tocou a segunda corda, e ele completou o intervalo, depois outro, traçando a frase de uma melodia antiga e melancólica.
O rosto que a notificou do despejo não pertencia àquela voz. Ele parou de repente, como se percebesse o que fizera.
— Continue — ela ordenou, a voz um fio.
— O instrumento precisa descansar.
— Eu não falei com o instrumento.
Ele pegou o casaco, o movimento rígido. — Na minha família, isso... isso sempre foi visto como algo ultrapassado. Um hobby inútil para quem deve lidar com números e aquisições.
— Então você escondeu.
— Aprendi a fechar a porta.
Ha-eun passou o polegar pela corda nova. A seda deixou uma marca vermelha e funda na sua pele.
— Ninguém aprende sozinho a corrigir a tensão pelo peso da seda. Ou a identificar uma melodia antiga pela primeira nota.
— Você identificou.
— Eu cresci aqui dentro.
— E eu não.
Ele enfiou a gravata amassada no bolso, um gesto perdido. Com a outra mão, Ha-eun puxou o tecido que cobria a marca do luthier. O círculo e as três linhas ficaram expostos sob a luz da luminária, uma pergunta silenciosa entre eles.
— Onde você aprendeu, Seo Jin-woo?
Ele vestiu o casaco e foi até a porta. O ar frio da noite invadiu a oficina, mas não conseguiu apagar o calor que a nota deixara no ar.
— A pergunta não é ‘onde’ — ele disse, a mão na maçaneta, sem se virar. — A pergunta é ‘por quê’. Pergunte por que eu reconheci essa melodia.