A Melodia Silenciosa de Seongsu
Cap. 4 de 6 · 50%

Cordas que Conectam

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O sino da porta soou uma única vez, pontual e frio. Oito e dez. Kim Ha-eun nem precisou olhar o relógio; o som parecia nascer do mecanismo do tempo, não do vento lá fora. Ela sentiu a musculatura das costas enrijecer sobre a bancada de trabalho. Seo Jin-woo entrou, deslizando a porta com uma quietude que não combinava com sua presença. Sem assistente, sem câmeras. O nó da gravata, afrouxado, denunciava um cansaço que o rosto impassível tentava esconder. Ele depositou um estojo estreito de couro sobre a bancada, ao lado do gayageum ferido. — Você esperou do lado de fora? — A voz dela saiu cortante. — Dois minutos. — É ridículo. — Você marcou oito e dez. — Para irritar você. — Funcionou às oito e oito — ele admitiu, tirando o casaco. A poeira clara do dia anterior ainda manchava a manga de lã escura. Ha-eun desviou o olhar antes que o gesto se tornasse um flagrante. Sobre a mesa, o instrumento parecia um paciente em uma sala de cirurgia. Pequenos retângulos de papel marcados a lápis mapeavam a fissura. A velha marca de luthier, o círculo incompleto perto da base, estava coberta por um retalho de tecido, como um segredo guardado. — A madeira terminou de se ajustar à umidade e à temperatura — disse ela, a profissional assumindo o controle. — Agora vou descobrir quanto estrago esconderam por baixo do verniz. Jin-woo abriu seu estojo. Dentro, sob o veludo negro, descansavam medidores de precisão, uma lupa de joalheiro e duas espátulas de aço flexível. — Eu tenho ferramentas. — Imaginei. Estas não são para você. São para mim. Ela pegou uma das espátulas. Era fina, perfeitamente balanceada. Tinha a flexibilidade exata para sondar a madeira sem causar mais danos. Um instrumento feito por quem entendia a fragilidade do que tocava. — Onde conseguiu isso? — Mandei fazer. Há alguns anos. — Para um homem que não toca em instrumentos, você se prepara bastante. — Para uma mulher que aceitou meu dinheiro, você faz perguntas demais. A farpa a atingiu. Ela devolveu a espátula ao estojo com um clique seco. — Use as suas, então — ele cedeu, a voz um tom mais baixa. Ha-eun acendeu a luminária articulada, projetando a luz rente ao tampo de paulownia. A sombra denunciava cada imperfeição. Com uma tira de papel de arroz, ela testou a junção. O papel entrou pouco no lado direito. No esquerdo, sumiu até a metade. Jin-woo puxou um banco, mas permaneceu de pé, curvado sobre a mesa. — A fenda atravessa a lateral inteira. — Ainda não. — O papel desviou. Está vendo? Ele não segue reto. Ha-eun parou, a tira de papel imóvel entre seus dedos. Ele tinha razão. — É uma bolsa de cola antiga — ela rebateu, mais por instinto do que por certeza. — Ou a pressão do quarto cavalete torceu o tampo. Olhe a sombra. Ela moveu a luz, seguindo a fibra da madeira. A sombra quebrava exatamente ali. Ao remover a peça móvel, encontrou uma marca mais clara, um fantasma da posição correta do cavalete. — Alguém afinou com ele fora do eixo — a voz de Jin-woo era analítica, desprovida da arrogância corporativa. — A corda puxou na diagonal. A fissura foi consequência. Ha-eun mediu, calculou, mediu de novo. O número teimava em ser o mesmo. O erro não era dela, mas a correção seria. — Isso não se aprende em catálogos de leilão. — Então é bom que eu tenha aprendido fora deles. Ele finalmente se sentou. Ha-eun empurrou o banco dele com a ponta do pé, criando um espaço de segurança. — Fora da área de trabalho. — Há uma linha invisível no chão? — Acabei de desenhar uma. O trabalho começou em um silêncio tenso. Ha-eun afrouxava as cordas de seda em etapas, liberando a pressão gradualmente. Jin-woo numerava os cavaletes removidos com uma caligrafia precisa, quase mecânica, em pequenas etiquetas adesivas. Na sexta etiqueta, ele hesitou. — O seis vem depois do cinco — ela provocou, batendo a ponta do lápis na madeira. — Você mudou a ordem. — Eu sempre tiro da esquerda para a direita. — Ontem você começou pela outra ponta. Ela o encarou. Ele se lembrava. O detalhe era tão pequeno, tão inútil, e ainda assim ele o registrara. Ele arrancou as etiquetas erradas, o som do papel se rasgando preenchendo o silêncio. — Eu guardo os erros. Principalmente os dos outros. Acertos raramente voltam para nos assombrar. Quando a última corda perdeu a tensão, a madeira do gayageum soltou um suspiro longo e baixo. Ha-eun pousou a palma sobre o tampo, sentindo a vibração morrer sob sua pele. Com um pincel, varreu a poeira e os resíduos de cola antiga. Jin-woo, sem que ela pedisse, separou o pó escuro com a ponta de uma espátula. — Essa cola não é original. Tem brilho sintético. — Para parecer consertado, não para consertar. — Há uma diferença — ele concordou. Ela aqueceu a cola de peixe em banho-maria. O cheiro forte e animal se espalhou, sobrepondo-se ao aroma de madeira e pó. Jin-woo abriu uma fresta da janela. — Feche. — É impossível respirar aqui. — A cola precisa de temperatura estável. — A janela se fechou com um clique suave. — E nós? — ele perguntou. — Somos mais fáceis de remendar. Por longos minutos, o único som foi o raspar delicado da espátula removendo a cola velha. Ele segurava a luminária, antecipando os movimentos dela, ajustando o ângulo antes que ela precisasse pedir. — Sua linha imaginária no chão ainda está valendo? — ele perguntou, a voz baixa. — Se continuar falando, ela vai virar uma parede. Perto do meio-dia, a cola antiga cedeu. Ha-eun inseriu a lâmina de reforço, preparada com a fibra na mesma direção da original. A peça deslizou para dentro, um encaixe perfeito. Ela distribuiu os grampos de pressão, revestidos em couro, ao longo da borda. Um aperto a mais e a madeira marcaria. Um a menos e o conserto seria inútil. — O terceiro — disse Jin-woo, apontando. — Está desalinhado. Ela verificou. Uma linha fina de cola estava sendo expulsa de forma irregular. Ele estava certo. De novo. Ela soltou, reposicionou e apertou. — Melhor — ele constatou. — Não se acostume a estar certo nesta oficina. Ele pegou o copo de café que ela abandonara horas antes, provou e fez uma careta. — Isso é algum tipo de punição? — Era café às seis da manhã. Agora é só um líquido marrom e frio. Num impulso, ela tomou o copo da mão dele e bebeu o resto em um só gole, apenas para contrariá-lo. O amargor invadiu sua boca, e ela largou o copo na bancada com mais força do que o necessário. A vitória não tinha sabor algum. A luz da tarde se foi. As horas passaram em um fluxo de trabalho silencioso e compartilhado. Quando chegou a hora de trançar uma nova corda de seda, ele assumiu a outra ponta sem precisar de instrução, mantendo a tensão constante enquanto ela torcia os fios. — Você já fez isso antes — não foi uma pergunta. — Já. — Onde? — O bastante para saber como fazer. Uma vibração curta veio do bolso dele. Jin-woo leu a mensagem, digitou uma resposta e guardou o celular. A redoma de silêncio que haviam construído se estilhaçou. — Pode ir — disse Ha-eun. — A cola precisa secar. Não há mais nada para fiscalizar. — Quero ouvir o teste. — Vai ser tarde. — Ainda não pedi para dormir aqui. — Nem peça. Ao anoitecer, ela retirou os grampos. A junção estava limpa, quase invisível. Instalou duas cordas provisórias, recolocou os cavaletes e aplicou uma leve tensão. Jin-woo observava do outro lado, as mangas da camisa dobradas nos antebraços, a gravata desaparecida. — Não vai soar como antes. O reforço precisa assentar. — Afine meio tom abaixo — ele sugeriu. — Eu sei. — Agora você entende por que respondo assim — um fantasma de sorriso tocou seus lábios. Ha-eun puxou a primeira corda. O som saiu opaco, morto. Ela ajustou o cavalete. Tentou de novo. A nota subiu, mas morreu no ar. — O cavalete está muito alto — disse Jin-woo. — A tensão da seda artesanal é diferente da industrial. Ela o encarou, mas trocou a peça por uma dois milímetros mais baixa. Puxou a corda mais uma vez. A nota atravessou a oficina. Pura, firme, quente. A vibração viajou pelo ar, sustentada pela madeira agora curada, até se dissolver perto das prateleiras. E então, algo quebrou a lógica do mundo dela. Em voz baixa, Jin-woo cantou a nota seguinte. Não foi um palpite. Foi a altura exata, o complemento perfeito. Ha-eun tocou a segunda corda, e ele completou o intervalo, depois outro, traçando a frase de uma melodia antiga e melancólica. O rosto que a notificou do despejo não pertencia àquela voz. Ele parou de repente, como se percebesse o que fizera. — Continue — ela ordenou, a voz um fio. — O instrumento precisa descansar. — Eu não falei com o instrumento. Ele pegou o casaco, o movimento rígido. — Na minha família, isso... isso sempre foi visto como algo ultrapassado. Um hobby inútil para quem deve lidar com números e aquisições. — Então você escondeu. — Aprendi a fechar a porta. Ha-eun passou o polegar pela corda nova. A seda deixou uma marca vermelha e funda na sua pele. — Ninguém aprende sozinho a corrigir a tensão pelo peso da seda. Ou a identificar uma melodia antiga pela primeira nota. — Você identificou. — Eu cresci aqui dentro. — E eu não. Ele enfiou a gravata amassada no bolso, um gesto perdido. Com a outra mão, Ha-eun puxou o tecido que cobria a marca do luthier. O círculo e as três linhas ficaram expostos sob a luz da luminária, uma pergunta silenciosa entre eles. — Onde você aprendeu, Seo Jin-woo? Ele vestiu o casaco e foi até a porta. O ar frio da noite invadiu a oficina, mas não conseguiu apagar o calor que a nota deixara no ar. — A pergunta não é ‘onde’ — ele disse, a mão na maçaneta, sem se virar. — A pergunta é ‘por quê’. Pergunte por que eu reconheci essa melodia.
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