A chuva recebeu Isabela Ferraz antes da placa de Vale das Videiras.
Não foi uma tempestade. Foi pior: aquela garoa fina, insistente, que entrava pelas frestas e parecia saber exatamente onde doía. O limpador do carro alugado arrastava água e poeira pelo para-brisa enquanto ela reduzia a velocidade na curva do barranco. Dez anos longe, e a estrada ainda tinha o mesmo jeito de obrigar qualquer pessoa a pisar no freio.
A cidade surgiu pequena, úmida, desconfiada. Na porta da padaria, duas mulheres pararam de conversar. Um homem de boné, perto do armazém fechado, olhou para o carro e virou o rosto. No cruzamento da igreja, um rapaz encostado numa caminhonete fez questão de dar as costas.
Isabela apertou o volante até os dedos clarearem.
Na bolsa, o envelope da convocação do testamento escorregou contra o câmbio. Ela o empurrou de volta sem olhar. Já sabia o que estava escrito. O papel só não avisava como seria entrar de novo onde ninguém queria vê-la.
A Adega do Testamento ficava no fim de uma rua de pedras, atrás de um portão enferrujado e muros tomados por hera. O prédio cheirava a madeira molhada antes mesmo de ela abrir a porta do carro.
Helena Ferraz a esperava sob a marquise, casaco escuro, lenço bem preso no pescoço. Arrumada demais para uma mãe. Fria demais para um reencontro.
— Você podia ter avisado quando chegou à entrada da cidade.
— O sinal caiu.
Helena ergueu uma sobrancelha.
— O sinal nunca cai ali.
Isabela puxou a mala do banco de trás. A rodinha bateu numa poça e sujou a barra da calça. Helena olhou para a mancha, depois para a filha.
— Pelo menos entrou pela estrada principal.
— Tinha outra?
— Sempre tem.
A frase ficou entre as duas, pingando com a calha.
Isabela fechou o carro. O alarme soou alto demais no pátio vazio.
— Eduardo Ferraz já chegou — disse Helena. — Rafael também. E os Albuquerque.
— Eu li a convocação, mãe.
— Ler é diferente de entrar naquela sala.
Isabela sustentou o olhar dela por um segundo. Depois passou pela mãe e empurrou a porta pesada.
O frio da adega mordeu seu rosto. Barris antigos alinhavam as paredes. No centro, uma mesa comprida segurava copos d’água, pastas de couro e um silêncio cheio de farpas.
Eduardo Ferraz estava perto da lareira apagada, ao lado de Rafael Ferraz. Os dois pararam de falar quando ela entrou.
Eduardo abriu os braços, sem sair do lugar.
— Isabela Ferraz. A cidade quase esqueceu seu rosto.
— Que sorte a minha você lembrar por todos.
Rafael soltou uma risada pelo nariz.
— Começou bem.
— Eu nem tirei o casaco.
— Talvez nem precise — disse Eduardo. — Dependendo do que for lido, sua visita pode ser curta.
Helena fechou a porta atrás de si.
— Eduardo.
— Só estou sendo prático.
— Você chama de prático quando quer parecer menos cruel.
Do outro lado da sala, Clara Albuquerque se levantou. Tinha barro nas botas e uma pasta presa contra o peito, como se tivesse vindo direto das parreiras.
— Isabela.
O abraço foi rápido. Antigo demais para ser simples. Clara se afastou primeiro.
— Pedi que esperassem você. Não fazia sentido começar sem uma das partes.
Sofia Albuquerque, sentada junto à janela, fechou a revista no colo.
— Não fazia sentido atrasar todo mundo por alguém que passou dez anos sem se importar.
— Sofia — Clara avisou.
— O quê? Vamos fingir agora?
Isabela tirou o casaco com calma. A manga caiu do encosto da cadeira duas vezes antes de ela conseguir dobrá-la direito.
— Não precisa fingir por mim.
— Ótimo. Eu estava guardando educação para domingo.
A porta se abriu de novo.
A chuva entrou primeiro. Depois Mateus Albuquerque.
Ele trazia água nos ombros, barro nas botas e aquela forma irritante de ocupar o espaço como se a sala tivesse sido construída em volta dele. Isabela reconheceu a cicatriz pequena no queixo antes de aceitar o resto: o homem alto, o maxilar duro, os olhos que passaram por todos e pararam nela.
Só um instante.
O bastante para doer.
— Então era verdade — disse ele.
Isabela apoiou a mão no encosto da cadeira.
— Esperava um fantasma?
— Fantasma assombra menos.
Clara fechou a pasta com força.
— Mateus.
— Eu dirigi vinte minutos na chuva para ouvir o testamento de um homem que adorava armadilhas. Estou economizando tempo.
— Nunca foi seu talento — disse Isabela.
A boca dele quase sorriu. Quase.
— O seu era ir embora antes do fim.
A mesa pareceu encolher.
Helena puxou uma cadeira.
— Vamos terminar isso.
O advogado, que até então fingia organizar papéis, pigarreou e esperou todos se sentarem. Eduardo escolheu um lugar de onde pudesse assistir a Isabela e Mateus como quem assiste a uma rachadura abrir. Rafael ficou ao lado dele, batendo a unha no copo. Sofia cruzou as pernas. Clara sentou perto da ponta, já pronta para anotar danos.
Isabela ficou em frente a Mateus.
Nenhum dos dois puxou a cadeira primeiro.
Uma gota caiu do cabelo dele na mesa. Isabela tirou um lenço da bolsa, secou a marca e só então se sentou. Mateus arrastou a cadeira em seguida, sem delicadeza.
O advogado começou a leitura.
Falou de terras, barris reservados, dívidas, contratos antigos. Palavras secas. A chuva respondia no telhado. Isabela ouvia tudo e, ao mesmo tempo, não ouvia nada. Seu corpo inteiro esperava o golpe.
Ele veio na terceira página.
— Pela cláusula principal, durante o período de seis meses, a administração conjunta da vinícola dos Ferraz e da vinícola dos Albuquerque ficará sob responsabilidade direta de Isabela Ferraz e Mateus Albuquerque.
Ninguém respirou direito.
Clara abriu a pasta, mas não escreveu. Sofia riu uma vez, curta.
— Isso é punição ou piada?
Mateus empurrou o copo d’água para longe com dois dedos. O vidro riscou a madeira.
— Continue — pediu Helena, a voz baixa.
O advogado ajustou os óculos.
— Caso uma das partes recuse, abandone ou inviabilize o trabalho antes do prazo, sua respectiva família perderá o direito de permanência sobre parte das terras vinculadas à produção. As áreas serão vendidas para cobrir obrigações antigas já registradas.
Rafael se levantou.
— Isso não pode valer.
— Vale — respondeu o advogado. — Foi assinado e testemunhado.
Eduardo apoiou as mãos no encosto da cadeira à frente.
— Conveniente.
Mateus virou o rosto para Isabela.
— Você voltou no minuto em que ouviu a palavra terra.
Ela fechou a pasta devagar.
— Eu voltei porque fui chamada.
— Dez anos depois. Muito pontual.
— Quer discutir calendário ou cláusula?
— Quero saber quanto tempo levou para decidir que este lugar valia uma passagem.
Isabela se levantou. A cadeira raspou na pedra.
— Não vim para divertir plateia.
Mateus também ficou de pé.
— Veio salvar o que ajudou a quebrar?
Clara deu um passo entre eles. Isabela ergueu a mão, sem tocá-la.
— Eu tinha vinte e dois anos quando saí daqui.
— Idade suficiente para mentir.
— E você tinha idade suficiente para acreditar no que queria.
O maxilar dele travou.
Perto da lareira, Rafael falou baixo com Eduardo, mas não baixo o suficiente:
— Se eles recusarem, a venda abre uma porta.
Eduardo não respondeu. Apenas ajeitou o punho da camisa.
Isabela ouviu. E aquilo decidiu por ela.
Pegou a folha da cláusula e puxou para perto.
— Onde assina?
Helena virou rápido.
— Isabela.
— Se eu não assinar, perdemos terra. Se eu assinar, ganho seis meses.
Mateus soltou uma risada sem alegria.
— Você fala como se alguém fosse entregar uma chave na sua mão.
— Eu sei abrir portas.
— Principalmente as de saída.
Ela pegou a caneta. A ponta falhou. Isabela riscou a margem até a tinta descer e assinou sem enfeite.
Clara olhou para o irmão.
— Mateus.
Sofia se levantou antes dele.
— Não assina. A gente encontra outro jeito.
— Existe outro? — Clara perguntou.
— Sempre existe quando ninguém entra em pânico.
— Não é pânico. É safra. É gente dependendo disso.
Mateus ficou parado. Depois pegou a caneta. Girou uma vez entre os dedos. Duas. Três.
Seus olhos encontraram os de Isabela.
— Se eu assinar, você não pisa sozinha em nenhum setor dos Albuquerque.
— E você não pisa sozinho nos Ferraz.
— Desconfiança mútua.
— Pelo menos nisso a gente combina.
Ele assinou com tanta força que quase rasgou o papel.
O advogado recolheu a folha depressa.
— A administração conjunta começa amanhã, às sete horas.
Clara já abria a pasta.
— Vou separar os relatórios.
— Você vai dormir primeiro — disse Mateus.
— Eu decido isso.
— Clara.
— Não começa.
A discussão dos irmãos baixou para um tom prático, cansado, de quem briga e trabalha ao mesmo tempo.
Isabela vestiu o casaco. Eduardo passou perto demais ao sair.
— Bem-vinda de volta. O barro daqui puxa.
— Eu aprendi a não afundar.
Ele sorriu e foi embora com Rafael.
Helena ficou olhando a assinatura da filha como se fosse uma ferida aberta.
— Você podia ter esperado.
— Para medir a armadilha?
— Para não entrar nela sozinha.
Isabela guardou a cópia na bolsa.
— Eu não vou entrar sozinha.
Mateus, já na porta, parou.
A chuva desenhava linhas atrás dele. Ele não se virou inteiro. Não precisava.
— Eu prefiro ver a vinícola falir a trabalhar com você.