A Promessa da Última Chuva
Cap. 2 de 20 · 5%

Território Hostil

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A porta da Vinícola Ferraz só abriu na terceira tentativa. A chave raspou no miolo enferrujado, teimosa como se também guardasse rancor. Isabela Ferraz apoiou o ombro na madeira e empurrou com o corpo inteiro. A folha cedeu de uma vez. Um bafo de poeira, uva passada e madeira úmida subiu do escuro e bateu no rosto dela. Por um segundo, Isabela não entrou. Ficou parada no vão, olhando para o salão de prensagem como se alguém tivesse revirado uma lembrança bonita e deixado só os ossos. Helena Ferraz, atrás dela, segurava uma caixa de recibos contra o peito. — Ainda quer começar por aqui? Isabela passou para dentro sem responder. O lugar parecia menor. Ou talvez fossem as lonas rasgadas sobre as máquinas, os baldes vazios num canto, as marcas de infiltração descendo pela parede. Uma goteira pingava dentro de um tonel sem tampa. Plim. Plim. Plim. O som ocupava o espaço onde antes havia vozes, risadas, ordens atravessadas na época da colheita. Isabela passou os dedos pela borda de uma mesa. A pele voltou cinza. — Quem deixou chegar a esse ponto? Helena apoiou a caixa no chão devagar. — Não foi de uma vez. — Nada apodrece de uma vez, mãe. Helena desviou o olhar para uma prensa coberta. — Depois que você foi embora, as coisas foram ficando pesadas. Isabela engoliu a resposta. Havia muitas formas de dizer que também tinha sido pesada para ela. Nenhuma cabia ali. Foi até a janela e puxou a tranca. A madeira não se mexeu. Puxou de novo. Um pedaço da moldura ficou na mão dela, úmido por dentro. Helena apertou os braços ao redor da caixa. — Eu mandei arrumar o telhado duas vezes. Eduardo Ferraz disse que ia procurar um orçamento melhor. Isabela deixou a lasca cair no parapeito. — Eduardo Ferraz cuida dos orçamentos daqui? — Ele ajuda quando pode. — Ajuda é uma palavra generosa. — Isabela. Ela tirou um caderno da bolsa e começou a anotar em pé, usando a parede como apoio. Telhado. Esquadrias. Prensa. Estoque. A caneta falhou no meio da palavra energia. Isabela rabiscou a margem até a tinta voltar, com força demais. Do lado de fora, pneus amassaram o cascalho. Helena fechou a boca antes de terminar o que ia dizer. Mateus Albuquerque entrou sem pedir licença. Trazia uma pasta preta debaixo do braço, botas com barro seco e as mangas da camisa dobradas até os antebraços. Havia um corte pequeno no dorso da mão, recente, mal lavado. — Sete horas — disse ele. — Você começou às seis e vinte. Isabela virou uma página do caderno. — Você disse ontem que preferia ver tudo falir. Achei que pontualidade não fazia parte do plano. — Falir com horário dá menos trabalho. Helena pegou a caixa outra vez. — Vou buscar as notas antigas que ficaram em casa. — Mãe, deixa isso aí. — Se eu ficar, vocês dois vão medir cada palavra até perder a manhã. Tenho roupa no varal e uma panela no fogo. Não vou servir de cerca. Saiu antes que Isabela pudesse impedir. A porta rangeu atrás dela, e o salão pareceu esfriar. Mateus caminhou até a prensa coberta e ergueu a lona. O pó caiu sobre o sapato dele. — Isso ainda funciona? — Funcionava quando eu fui embora. — Metade da cidade também. Isabela fechou o caderno. — Você veio avaliar a vinícola ou fazer inventário de ofensa? Ele abriu a pasta e colocou três folhas sobre a mesa empoeirada. — Vim mostrar o buraco da Albuquerque antes que você ache que só a sua casa está afundando. Ela não tocou nos papéis. Leu inclinada sobre a mesa, mantendo distância. — Fornecedores atrasados — disse Mateus. — Manutenção adiada. Dois contratos perdidos no último inverno. Clara Albuquerque segurou a produção no braço. Sofia Albuquerque queria vender uma ala inteira para cobrir caixa. Eu segurei. Até agora. Isabela levantou os olhos. — Isso não é relatório completo. — Não. — Então é o quê? — O pedaço que você pode ver hoje. Ela soltou uma risada curta, sem humor, e abriu a própria pasta. — Que coincidência. Eu também trouxe pedaços. Espalhou sobre a mesa fotos do telhado, contas vencidas, uma lista de barris sem registro e o orçamento manuscrito de uma reforma nunca feita. Mateus olhou tudo em silêncio. Passou o polegar pelo corte na mão, deixando uma linha clara no pó grudado à pele. — Esse orçamento é de quando? — Dois anos atrás. — Quem assinou? — Ninguém. — Conveniente. — Quase uma tradição por aqui. Ele pegou a folha. O canto dobrou entre os dedos. — Se a estrutura ceder na próxima chuva forte, você perde estoque. Talvez gente. — Eu sei calcular risco. — Em prédio novo, talvez. Isabela abriu a boca. Fechou. Em vez de responder, tirou uma trena pequena da bolsa e foi até a parede lateral. Mediu a distância entre duas rachaduras, anotou o número e se obrigou a manter a mão firme. Mateus acompanhou sem comentar. No terceiro degrau da escada para o depósito alto, a madeira estalou. — Esse não — disse ele. Isabela parou com o pé suspenso. — Você conhece a escada Ferraz agora? — Conheço madeira podre. Ela desceu um degrau. Mateus subiu pelo lado oposto, apoiou a mão no corrimão e testou com o peso. A madeira gemeu. Ele arrancou uma ripinha solta e jogou no chão. — Interditada. — Eu preciso ver o depósito. — Usa a escada externa. — Está chovendo. — Então molha. Isabela pegou a capa pendurada no encosto de uma cadeira quebrada. Ao fechar o botão do pescoço, errou a casa. Desfez. Fez de novo. Sem pressa. Sem olhar para ele. — Você vem? Mateus recolheu a pasta preta. — Não piso sozinho nos Ferraz. Lembra? — Eu ia adorar esquecer. — Esquecer sempre foi mais fácil para você. A frase ficou entre os dois, velha demais para ser apenas frase. Isabela abriu a porta lateral com força. O vento trouxe cheiro de terra encharcada. Por alguns segundos, só a goteira lá dentro continuou respondendo. A escada externa levava ao depósito dos barris menores. A chuva fina deixava o metal liso. Isabela subiu primeiro, com a mão na parede, evitando o corrimão enferrujado. Mateus vinha dois degraus abaixo. Uma telha solta escorregou do beiral e bateu perto do pé dela. A caixa de ferramentas que Isabela carregava quase virou. Mateus a segurou antes que caísse. Não encostou nela. Só tomou o peso. — Isso fica comigo — disse ele. — Eu consigo carregar. — Eu sei. Estou salvando as ferramentas. Ela continuou subindo, mas deixou a caixa com ele. O depósito estava mais seco, embora o ar tivesse gosto de madeira fechada. Barris alinhados ocupavam a parede do fundo. Alguns tinham marcações antigas a giz; outros, nada. Isabela passou entre eles, lendo datas, números, lotes incompletos. Mateus colocou a caixa no chão e abriu uma planilha impressa. — Vocês têm estoque sem registro. — E vocês têm dívida sem garantia. — A diferença é que eu mostrei. — Mostrou o pedaço que quis. Ele apoiou a planilha num barril. — Se eu abrir tudo no primeiro dia, Eduardo Ferraz usa antes do almoço. Isabela parou de escrever. — Eduardo Ferraz não trabalha na Albuquerque. — Ele circula. — Aqui também. Mateus bateu com o dedo numa linha da planilha. — Então temos um problema em comum. Que tragédia. Ela quase sorriu. Quase. Cortou o gesto antes que ele nascesse. Passos subiram a escada externa. Leves. Medidos. De alguém que não tinha pressa porque já se considerava esperado. Eduardo Ferraz apareceu na porta do depósito com um casaco claro e seco demais para aquela manhã. — Que cena bonita. Dois herdeiros, umidade, fungo e planilhas. Isabela guardou a trena no bolso. — Você veio fiscalizar? — Vim oferecer paz. Palavra rara por aqui. Mateus fechou a pasta preta. — Guarda para quem compra. Eduardo entrou sem convite. Passou a mão por cima de um barril e examinou a poeira nos dedos como se avaliasse vinho caro. — A cláusula colocou vocês numa situação delicada. Famílias antigas, contas misturadas, acusações antigas. Um mediador neutro evitaria perda de tempo. Isabela prendeu o caderno contra o peito. — Neutro? — Conheço os Ferraz, conheço os Albuquerque e não assumi nenhuma das duas administrações. Posso sentar entre vocês, organizar documentos, filtrar ruído. — Filtrar — repetiu Mateus. — Bonita palavra para escolher o que passa. Eduardo sorriu para ele. — Você sempre preferiu força bruta. Funciona com cerca caída. Nem tanto com contrato. — E você sempre preferiu luva limpa perto de lama. Isabela passou entre os dois e abriu uma caixa antiga sobre a bancada. Dentro havia recibos, etiquetas e fotografias desbotadas. Começou a separar tudo em pilhas. — Se quer mediar, Eduardo Ferraz, começa simples. Hoje à tarde você me entrega a lista completa de orçamentos pedidos em nome da Vinícola Ferraz nos últimos cinco anos. O sorriso dele falhou por meio segundo. Mateus percebeu. Isabela também. — Não é assim que mediação funciona — disse Eduardo. — É assim que auditoria funciona. Mateus virou uma página da planilha. A boca dele não chegou a sorrir, mas perdeu um pouco da dureza. Eduardo ajeitou o punho da camisa. — Cuidado para não transformar ajuda em acusação. — Cuidado para não oferecer ajuda com bolso costurado. A chuva aumentou sobre o telhado, batendo rápido. Eduardo caminhou até a porta. — Vocês dois vão se destruir antes da primeira semana. Quando cansarem de brincar de guerra, minha proposta continua de pé. — Leva um recibo — disse Mateus. — Para registrar a saída. Eduardo desceu sem responder. Isabela esperou os passos sumirem. Só então abriu outra caixa. A tampa grudou, e ela precisou usar a ponta da trena para soltar o fecho. Lá dentro, no meio da poeira, havia uma marca limpa. Retangular. Recente. Como se alguém tivesse retirado um objeto dali há pouco. Isabela tocou o vazio com dois dedos. O rosto dela mudou antes que dissesse qualquer coisa. Mateus se aproximou apenas o bastante para ver. — De estoque? Ela tirou da caixa uma etiqueta antiga presa a um barbante rompido. A letra de Helena Ferraz ainda aparecia, tremida e clara: diário do pai de Isabela. A chuva bateu mais forte. Isabela fechou os dedos em volta do barbante arrebentado. — Alguém esteve aqui antes de nós. Mateus olhou para a porta por onde Eduardo Ferraz tinha saído. E, pela primeira vez naquela manhã, não discordou dela.
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