A Promessa da Última Chuva
Cap. 4 de 20 · 15%

Sombras do Passado

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O primeiro antigo funcionário fechou a porta antes que Isabela terminasse de dizer a palavra inverno. Ela ficou com a mão no ar, a pasta apertada contra o peito e a barra da calça ainda marcada pelo barro da véspera. Vale das Videiras acordava atrás dela como se nada tivesse mudado em dez anos: cheiro de lenha, cascalho molhado, cães latindo para motores invisíveis. Só as janelas pareciam mais rápidas em se fechar. Isabela desceu os dois degraus devagar. A porta recém-pintada tinha cheiro de verniz barato. Do outro lado, uma cadeira arrastou no chão. Depois, silêncio. Riscou o primeiro nome da lista. A caneta falhou no papel úmido. No segundo endereço, uma mulher varria a frente de um galpão estreito. Assim que viu Isabela, empurrou um balde para a entrada com o pé, como se aquilo fosse acaso. — Bom dia. — Pra quem tem tempo — respondeu a mulher, sem parar a vassoura. Isabela respirou pelo nariz. — Só preciso de cinco minutos. Sobre a safra de dez anos atrás. A vassoura parou no meio do caminho. — Cinco minutos aqui viram assunto pra vida inteira. — A senhora trabalhou na prensa naquele inverno. — Trabalhei em muita coisa. — Talvez lembre quem entrou no depósito antes do escândalo. Uma lona solta bateu no galpão. Flap. Flap. Flap. A mulher olhou para a rua, depois para as mãos de Isabela. — Menina, tem porta que a gente não abre nem pra tirar poeira. — Não sou mais menina. — Então devia saber melhor. O balde raspou mais dois dedos, fechando a passagem. Isabela entendeu. A cidade não estava sem memória. Estava com medo. Ela continuou pela ladeira até o antigo escritório dos safristas, uma construção baixa, com a placa descascada presa por um parafuso. Empurrou a porta lateral. O cheiro veio antes da luz: mosto azedo, papel velho, chão lavado às pressas. A pasta escorregou debaixo do braço. Naquele dia, o cheiro era o mesmo. O depósito aberto. Caixas reviradas. Gente no pátio falando baixo demais para ser segredo e alto demais para não ferir. Isabela tinha uma mala pequena na mão, a alça mordendo a pele. Rafael Ferraz falava perto do portão, exigindo que aquilo acabasse logo. Eduardo Ferraz segurava um envelope pardo, intacto, como se não quisesse deixar digitais nem no papel. E Mateus Albuquerque estava entre as pipas vazias, barro até a canela. Ela procurou os olhos dele. Ele desviou. — Anda — alguém disse atrás dela. — Antes que piore. A mala bateu em seu joelho no primeiro passo. O portão pareceu longe demais para uma pessoa só atravessar. Ploc. Uma gota caiu do teto sobre a mesa e trouxe Isabela de volta. Ela abriu uma gaveta enferrujada. Tossiu com a poeira. Havia fichas de colheita, etiquetas antigas, um abridor quebrado e fotografias grudadas pela umidade. Separou uma por uma, com cuidado para não rasgar as bordas. Na terceira, seus dedos pararam. Duas crianças estavam sentadas dentro de uma tina vazia, descalças, pernas manchadas de uva. Isabela, pequena demais para a coragem que fingia ter, erguia um cacho esmagado como troféu. Ao lado, Mateus usava um chapéu enorme e fazia careta para a câmera. O sol entrava pela porta atrás deles. Tudo na foto parecia quente. Ela passou o polegar no rosto do menino. A poeira manchou o chapéu. — Você ria alto — murmurou. A frase saiu antes que ela pudesse se defender dela. Dobrou um papel limpo ao redor da fotografia e a guardou na pasta, entre mapas antigos da Vinícola Ferraz. Quando fechou a gaveta com o quadril, ouviu um motor reduzir perto da esquina. Mateus desceu da caminhonete com um rolo de mangueira no ombro e uma caixa pequena na mão. A faixa no punho dele estava trocada, mas mal presa. Ele parou do outro lado da cerca. — Vedação para a bomba — disse. — A peça fica com você até sexta. Se o flange vazar, perde pressão de novo. Isabela pegou a caixa. — Clara mandou ou você trouxe? — Ela mandou. Eu dirigi. Não transforma logística em poesia. — Obrigada pela logística. O canto da boca dele quase se mexeu. Quase. Mateus olhou para a rua, para as janelas quietas, para a vassoura abandonada mais abaixo. — Você veio atrás deles. — Vim. — E eles abriram champanhe? — Alguns nem abriram a porta. — Não vão falar com você assim. — Assim como? Ele apontou com o queixo para a pasta. — Com lista, pergunta pronta e cara de quem precisa provar que não fez algo. Isabela apertou a caixa contra o corpo. — Eu preciso provar. — Pra quem? A pergunta a pegou no lugar errado. Ela olhou para a mão enfaixada dele, depois para a própria pasta. A fotografia parecia pesar lá dentro. — Sofia falou com você — disse ela. Mateus não negou. — Cedo. — Que sorte. — Disse que você está cavando o passado para jogar a culpa na Albuquerque. Que quer quebrar a cláusula e sair daqui por cima. — E você veio conferir se eu trouxe uma pá? — Vim ver se era verdade. Isabela abriu a pasta, tirou a folha de anotações e entregou a ele. A fotografia ficou escondida. — O diário do meu pai sumiu. A bomba tinha rachadura antiga. Ninguém que trabalhou naquele inverno consegue dizer uma frase inteira sem olhar para os lados. Se isso é sair por cima, estou fazendo errado. Mateus leu em silêncio. Um trator passou na rua de baixo, fazendo a porta do escritório tremer. — Sofia não gosta de buraco sem tampa — ele disse por fim. — Sua família é prática. — A sua também sabe enterrar coisa. Isabela tomou a folha de volta. — Não vou parar. — Eu não pedi isso. — Então pediu o quê? Mateus baixou a caixa de ferramentas no chão, como se precisasse soltar algum peso antes de responder. — Quando alguém aceitar falar, não vai ser perto da praça. Nem com meu carro na porta. E se mencionarem Eduardo Ferraz, não escreve antes de ter cópia. O nome de Eduardo caiu entre eles como moeda falsa. — Isso é conselho ou ameaça? — É economia de desastre. Ela quase perguntou por que ele ajudava. Quase. A pergunta ficou presa junto da fotografia. Mateus apontou para a caixa. — Aperta o flange antes do meio-dia. Vai chover. — O céu contou? — Meu joelho. Quebrei caindo de uma parreira aos doze. — Você disse que tinha lutado com um javali. — Funcionava melhor com as crianças. — Não comigo. — Com você nunca funcionava. A frase veio sem veneno. Só cansada. Ele caminhou até a caminhonete, abriu o porta-luvas e deixou uma tira de curativo sobre a mureta. — Seu dedo abriu de novo. Isabela olhou para a mão. O corte pequeno tinha manchado a lateral da pasta. — Eu tenho curativo. — Então joga esse fora. Sou generoso uma vez por semana. Ele foi embora sem esperar resposta. Só quando o motor sumiu na subida, Isabela pegou a tira. O papel cheirava a álcool e borracha nova. Na Albuquerque, Sofia fechou a porta do escritório com cuidado demais. Mateus estava diante da mesa, desenrolando um mapa de irrigação. Não levantou a cabeça. — Se veio cobrar a mangueira, está no pátio. — Vim cobrar juízo. A mangueira eu cobro depois. Ela colocou uma pasta fina sobre o mapa, cobrindo metade das linhas. — Você foi visto com Isabela Ferraz. — A cidade precisa de passatempo. — A cidade precisa de estabilidade. Dois compradores perguntaram hoje se essa administração conjunta é só briga pública com assinatura. Eu sorri, servi vinho e menti por nós. Mateus tirou a pasta dela de cima do mapa. — Parabéns. — Não seja infantil. Isabela voltou porque foi obrigada. Gente que passa dez anos longe aprende a arrancar o que quer sem sujar a bota. — Você tem dito isso com muita prática. O olhar de Sofia endureceu. — Mantenha distância. Não entregue mapa, peça, conselho, nada. Ela quer um culpado. — Talvez exista um. Sofia ajustou a pulseira no pulso. — Culpado sempre existe. A questão é quem paga a conta. — E você já escolheu. — Eu escolhi Albuquerque. Ela abriu a porta, mas ainda olhou para trás. — Pensa antes de bancar o homem justo para quem já te deixou sozinho na praça uma vez. A porta fechou. Mateus ficou parado, o mapa entre as mãos. Depois abriu a gaveta, puxou uma lista de manutenção e escreveu no rodapé: verificar depósito antigo. No fim da tarde, Isabela voltou ao pátio da Vinícola Ferraz. A bomba trabalhava em ritmo baixo, firme, como uma garganta limpando ferrugem. As nuvens tinham descido sobre os morros. Ela parou junto à mesa de prensagem para trocar o curativo. O dela ficou de um lado. O de Mateus, do outro. Depois de um minuto, escolheu o dele. A cola grudou mal por causa da umidade. Ela apertou as bordas uma, duas, três vezes. Quando fechou a pasta, alguma coisa caiu. Não era a fotografia. Um papel dobrado em quatro deslizou pelo cimento e parou perto da bota. Cheirava a tabaco frio e chuva. Não tinha assinatura, só três palavras tortas, escritas por alguém que ainda tinha medo: não foi você.
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