A bomba d'água morreu às cinco e quarenta da manhã, como se escolhesse o pior momento por capricho.
Primeiro veio um ronco feio dentro dos canos. Depois três pancadas secas, um jato escuro pela emenda lateral e silêncio. Nos tanques menores, a água parou de circular. Se a temperatura subisse, parte da safra Ferraz começaria a se perder antes do café.
Isabela Ferraz ficou imóvel por um segundo, molhada da chuva da noite anterior, com barro seco na calça e graxa velha nas mãos. No bolso interno do casaco, a etiqueta do diário do pai roçava sua costela a cada respiração. O barbante arrebentado parecia rir dela.
— Não hoje — murmurou.
Desligou o disjuntor, puxou a caixa de ferramentas e enfiou a lanterna entre os dentes. O galpão de irrigação cheirava a ferrugem, óleo velho e terra encharcada. Lá fora, a garoa não caía de verdade; ficava suspensa no ar, grudando em tudo.
A tampa da bomba resistiu à primeira tentativa. E à segunda. Na terceira, a chave escapou e bateu no cimento com um estampido que ecoou pelo galpão vazio.
Isabela fechou os olhos. Respirou. Pegou a chave de novo.
Ela sabia ler rachaduras em parede, inclinação de telhado, madeira cansada. Máquina agrícola era outra língua. Mais suja. Mais teimosa. Menos disposta a perdoar orgulho.
Quando finalmente abriu o corpo da bomba, um filete de água escura espirrou em seu rosto. Ela limpou o queixo com o dorso da mão e viu a peça partida: o rotor, antigo demais, rachado em duas pás.
— Claro — disse, sem humor. — Porque fácil seria vulgar.
Foi ao depósito. Revirou gavetas inchadas pela umidade, caixas com etiquetas apagadas, latas cheias de parafusos sem par. Encontrou mangueiras ressecadas, arruelas tortas, uma correia inútil e um rotor menor, parecido o bastante para alimentar esperança e errado o bastante para destruí-la.
Mesmo assim, tentou.
Adaptou uma vedação. Cortou borracha. Ajustou com a chave. Ligou o disjuntor.
A bomba gemeu, cuspiu água pela lateral e parou de novo.
O relógio marcava seis e vinte.
Isabela apoiou as duas mãos na bancada. Sentiu o ardor de um corte pequeno no dedo, a roupa úmida colada à pele, a vergonha subindo antes da raiva. Havia uma solução. Ela só odiava o nome da solução.
Mateus Albuquerque.
Pegou o celular e caminhou até o ponto mais alto do pátio, perto da cerca quebrada. Uma barrinha de sinal apareceu, sumiu, voltou como provocação. Ela discou antes que mudasse de ideia.
Ele atendeu no quarto toque.
— Se for sobre o diário, ainda não achei nada.
— Não é.
Um ruído de porta. A voz dele mudou, menos dura, mais acordada.
— O que aconteceu?
— A bomba da linha dos tanques menores quebrou. Rotor antigo. Modelo fora de estoque.
— Ferraz não tem reserva?
— Se tivesse, eu não estaria ligando.
O silêncio que veio não foi de briga. Foi cálculo.
— A Albuquerque tem um rotor compatível — disse ele.
Isabela fechou os olhos por um instante.
— Eu compro.
— Não está à venda.
— Pago acima.
— Não está à venda, Isabela. Clara Albuquerque separou essa peça para a nossa linha norte. Se eu tiro de lá, fico sem reserva.
— Meu lote esquenta hoje.
— O meu pode parar amanhã.
Ela olhou para os tanques ao longe, meio encobertos pela garoa.
— Então é isso?
— Eu disse que não vendo. Não disse que não levo.
Isabela ficou parada.
— Qual é a condição?
— Acesso ao mapa hidráulico da Vinícola Ferraz. Completo. Hoje.
— Você está usando uma emergência para arrancar informação.
— E você está usando uma emergência para arrancar uma peça.
A frase acertou porque era justa demais.
— Traga o rotor — disse ela.
— Meia hora.
— Mateus.
— O quê?
— Se vier esfregar isso na minha cara, nem desce do carro.
A resposta veio baixa, sem calor:
— Eu vou por obrigação contratual. Não por você.
Ele desligou.
Isabela guardou o celular e voltou ao galpão. Recolheu as ferramentas, alinhou os parafusos por tamanho, limpou a bancada com um pano que já começara sujo. Era ridículo tentar pôr ordem no caos, mas suas mãos precisavam fazer alguma coisa que não fosse tremer.
Vinte e oito minutos depois, pneus esmagaram o cascalho.
Mateus entrou carregando uma caixa de metal. A mão cortada no dia anterior estava envolta por uma faixa mal presa, manchada perto do nó. Clara Albuquerque veio atrás, de botas de borracha e boné baixo, segurando uma pasta plástica contra o peito.
— Trouxe testemunha? — perguntou Isabela.
Clara ergueu a pasta.
— Trouxe controle de estoque. A peça é minha na planilha, e eu não deixo rotor raro desaparecer em guerra de família.
Mateus pôs a caixa na bancada.
— Bom dia para você também.
— Bom dia é quando bomba não morre antes do café — respondeu Clara. — Cadê a paciente?
Isabela apontou.
Clara se agachou diante do conjunto aberto e estalou a língua.
— Antiga. Teimosa. Combina com todo mundo aqui.
Mateus tirou o rotor novo de um pano oleado. Isabela estendeu a mão.
Ele não entregou.
— Eu instalo.
— A bomba é minha.
— A peça é nossa.
— A emergência é minha.
— A cláusula é dos dois.
Clara levantou um dedo entre eles.
— Se vocês forem discutir posse por parafuso, a uva vira vinagre antes do almoço.
Isabela respirou pelo nariz, pegou a chave inglesa e se ajoelhou.
— Eu abro. Você encaixa. Clara confere. Ninguém sangra mais do que o necessário.
Mateus se abaixou do outro lado. O espaço ficou pequeno. O cheiro de chuva na camisa dele se misturou ao óleo da peça, e Isabela odiou perceber isso.
— Porca de baixo está espanada — disse ele.
— Eu vi.
— Você tentou forçar.
— Eu tentei ganhar tempo.
— Ganhou?
Ela encaixou a chave com cuidado.
— Uns três insultos seus. Pouco, mas já é lucro.
Clara soltou uma risada curta.
— Continuem. Quase parece trabalho em equipe.
A porca cedeu. Isabela retirou o rotor quebrado, e Mateus encaixou o novo. Os dedos dele se moviam com firmeza, apesar da faixa atrapalhando. Quando o nó prendeu numa saliência, ele tentou puxar com os dentes.
Isabela largou a chave e pegou a ponta da bandagem.
— Fica quieto.
Ele ficou.
Ela desfez o nó, enrolou a faixa de novo e apertou melhor, sem olhar para o rosto dele. O gesto durou poucos segundos. Mesmo assim, quando soltou sua mão, o silêncio entre os dois já não era o mesmo.
— Obrigado — disse Mateus.
— Faixa mal feita atrapalha serviço.
— Claro.
Clara fingiu ler a ficha, mas o canto da boca dela denunciou tudo.
— Antes de ligar, assinatura de transferência temporária. Temporária, Isabela Ferraz. Se a nossa linha norte pedir socorro, eu venho buscar esse rotor nem que esteja no meio do seu almoço.
— Assino.
— E quero ver o mapa hidráulico com ele. Não por Mateus. Por mim. Cansei de descobrir problema quando a água já está entrando na bota.
Isabela assinou. Mateus assinou depois, invadindo metade da linha dela.
Clara olhou para a ficha.
— Sempre passando do limite.
— Linha pequena — disse ele.
— Ego grande.
Isabela virou o rosto antes que um sorriso escapasse.
Eles fecharam a tampa juntos. Clara conferiu a vedação e ficou ao lado do disjuntor.
— Preparados?
— Liga — disse Isabela.
A bomba tossiu uma vez. Tremeu. Por um segundo, pareceu que falharia de novo. Então o motor firmou, e a água correu pelos canos com um som cheio, quase bonito.
Isabela soltou o ar devagar.
Mateus limpou o rotor quebrado com o pano e o ergueu contra a luz fraca da porta.
— Isso aqui não quebrou hoje.
Ela se aproximou.
— Como assim?
— A rachadura é antiga. Alguém ouviu essa bomba reclamar antes e empurrou o problema para frente.
Clara fechou a pasta devagar.
— Ou empurrou para estourar no colo dela na primeira semana.
Ninguém disse Eduardo Ferraz. O nome, porém, ocupou o galpão inteiro.
Isabela levou a mão ao bolso e tocou a etiqueta do diário desaparecido. Mateus acompanhou o gesto, mas não perguntou. Pela primeira vez, ela agradeceu por isso.
— O mapa hidráulico — ele disse.
— Na sala técnica.
— Agora.
— A bomba acabou de voltar.
— E eu acabei de entregar a única peça que Clara não queria entregar.
— Ainda não queria — corrigiu Clara.
Isabela pegou o casaco, manchando a manga clara na bancada suja.
— Vem. Mas se copiar uma linha além do necessário, eu arranco a folha da sua mão.
— Melhor que arrancar rotor.
No caminho, Mateus escorregou no barro perto da porta. A caixa de ferramentas quase caiu do braço dele. Isabela segurou a alça no reflexo, e o peso puxou os dois para perto por um segundo curto demais.
Ele firmou a bota.
— Salvando minhas ferramentas?
— Salvando meu chão.
— Sempre prática.
— Sempre desconfiado.
Os dois se olharam. Não houve pedido de desculpa. Ainda não. Mas algo pequeno cedeu, como uma fissura deixando passar luz.
Mateus recebeu o mapa, dobrou apenas a parte da linha dos tanques e guardou o resto sem olhar.
Isabela percebeu.
Ele percebeu que ela percebeu.
— Obrigação contratual — disse, antes que ela perguntasse.
— Claro.
Mesmo assim, a palavra já não cortou tanto.
Pouco depois, uma ligação curta o chamou de volta. Mateus falou sobre a linha norte, anotou algo no próprio pulso e caminhou até a caminhonete.
— A peça fica até a nossa precisar — avisou.
— E se precisar?
Ele abriu a porta.
— Aí você vai descobrir se sabe devolver favor.
Partiu sem esperar resposta.
Clara ficou ao lado de Isabela, olhando a estrada molhada.
— Ele não devia ter trazido esse rotor.
Isabela enrolou o mapa com força.
— Veio cobrar.
— Mateus cobra até guarda-chuva emprestado. Não é novidade.
— Então pronto.
Clara inclinou a cabeça, escolhendo as palavras como quem escolhe onde podar.
— Só estou dizendo que o monstro que você guarda na cabeça teria deixado essa bomba morrer.
Isabela não respondeu. Porque, pela primeira vez em dez anos, não teve certeza de que Clara estava errada.