A Promessa da Última Chuva
Cap. 3 de 20 · 10%

Pequenas Fissuras

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A bomba d'água morreu às cinco e quarenta da manhã, como se escolhesse o pior momento por capricho. Primeiro veio um ronco feio dentro dos canos. Depois três pancadas secas, um jato escuro pela emenda lateral e silêncio. Nos tanques menores, a água parou de circular. Se a temperatura subisse, parte da safra Ferraz começaria a se perder antes do café. Isabela Ferraz ficou imóvel por um segundo, molhada da chuva da noite anterior, com barro seco na calça e graxa velha nas mãos. No bolso interno do casaco, a etiqueta do diário do pai roçava sua costela a cada respiração. O barbante arrebentado parecia rir dela. — Não hoje — murmurou. Desligou o disjuntor, puxou a caixa de ferramentas e enfiou a lanterna entre os dentes. O galpão de irrigação cheirava a ferrugem, óleo velho e terra encharcada. Lá fora, a garoa não caía de verdade; ficava suspensa no ar, grudando em tudo. A tampa da bomba resistiu à primeira tentativa. E à segunda. Na terceira, a chave escapou e bateu no cimento com um estampido que ecoou pelo galpão vazio. Isabela fechou os olhos. Respirou. Pegou a chave de novo. Ela sabia ler rachaduras em parede, inclinação de telhado, madeira cansada. Máquina agrícola era outra língua. Mais suja. Mais teimosa. Menos disposta a perdoar orgulho. Quando finalmente abriu o corpo da bomba, um filete de água escura espirrou em seu rosto. Ela limpou o queixo com o dorso da mão e viu a peça partida: o rotor, antigo demais, rachado em duas pás. — Claro — disse, sem humor. — Porque fácil seria vulgar. Foi ao depósito. Revirou gavetas inchadas pela umidade, caixas com etiquetas apagadas, latas cheias de parafusos sem par. Encontrou mangueiras ressecadas, arruelas tortas, uma correia inútil e um rotor menor, parecido o bastante para alimentar esperança e errado o bastante para destruí-la. Mesmo assim, tentou. Adaptou uma vedação. Cortou borracha. Ajustou com a chave. Ligou o disjuntor. A bomba gemeu, cuspiu água pela lateral e parou de novo. O relógio marcava seis e vinte. Isabela apoiou as duas mãos na bancada. Sentiu o ardor de um corte pequeno no dedo, a roupa úmida colada à pele, a vergonha subindo antes da raiva. Havia uma solução. Ela só odiava o nome da solução. Mateus Albuquerque. Pegou o celular e caminhou até o ponto mais alto do pátio, perto da cerca quebrada. Uma barrinha de sinal apareceu, sumiu, voltou como provocação. Ela discou antes que mudasse de ideia. Ele atendeu no quarto toque. — Se for sobre o diário, ainda não achei nada. — Não é. Um ruído de porta. A voz dele mudou, menos dura, mais acordada. — O que aconteceu? — A bomba da linha dos tanques menores quebrou. Rotor antigo. Modelo fora de estoque. — Ferraz não tem reserva? — Se tivesse, eu não estaria ligando. O silêncio que veio não foi de briga. Foi cálculo. — A Albuquerque tem um rotor compatível — disse ele. Isabela fechou os olhos por um instante. — Eu compro. — Não está à venda. — Pago acima. — Não está à venda, Isabela. Clara Albuquerque separou essa peça para a nossa linha norte. Se eu tiro de lá, fico sem reserva. — Meu lote esquenta hoje. — O meu pode parar amanhã. Ela olhou para os tanques ao longe, meio encobertos pela garoa. — Então é isso? — Eu disse que não vendo. Não disse que não levo. Isabela ficou parada. — Qual é a condição? — Acesso ao mapa hidráulico da Vinícola Ferraz. Completo. Hoje. — Você está usando uma emergência para arrancar informação. — E você está usando uma emergência para arrancar uma peça. A frase acertou porque era justa demais. — Traga o rotor — disse ela. — Meia hora. — Mateus. — O quê? — Se vier esfregar isso na minha cara, nem desce do carro. A resposta veio baixa, sem calor: — Eu vou por obrigação contratual. Não por você. Ele desligou. Isabela guardou o celular e voltou ao galpão. Recolheu as ferramentas, alinhou os parafusos por tamanho, limpou a bancada com um pano que já começara sujo. Era ridículo tentar pôr ordem no caos, mas suas mãos precisavam fazer alguma coisa que não fosse tremer. Vinte e oito minutos depois, pneus esmagaram o cascalho. Mateus entrou carregando uma caixa de metal. A mão cortada no dia anterior estava envolta por uma faixa mal presa, manchada perto do nó. Clara Albuquerque veio atrás, de botas de borracha e boné baixo, segurando uma pasta plástica contra o peito. — Trouxe testemunha? — perguntou Isabela. Clara ergueu a pasta. — Trouxe controle de estoque. A peça é minha na planilha, e eu não deixo rotor raro desaparecer em guerra de família. Mateus pôs a caixa na bancada. — Bom dia para você também. — Bom dia é quando bomba não morre antes do café — respondeu Clara. — Cadê a paciente? Isabela apontou. Clara se agachou diante do conjunto aberto e estalou a língua. — Antiga. Teimosa. Combina com todo mundo aqui. Mateus tirou o rotor novo de um pano oleado. Isabela estendeu a mão. Ele não entregou. — Eu instalo. — A bomba é minha. — A peça é nossa. — A emergência é minha. — A cláusula é dos dois. Clara levantou um dedo entre eles. — Se vocês forem discutir posse por parafuso, a uva vira vinagre antes do almoço. Isabela respirou pelo nariz, pegou a chave inglesa e se ajoelhou. — Eu abro. Você encaixa. Clara confere. Ninguém sangra mais do que o necessário. Mateus se abaixou do outro lado. O espaço ficou pequeno. O cheiro de chuva na camisa dele se misturou ao óleo da peça, e Isabela odiou perceber isso. — Porca de baixo está espanada — disse ele. — Eu vi. — Você tentou forçar. — Eu tentei ganhar tempo. — Ganhou? Ela encaixou a chave com cuidado. — Uns três insultos seus. Pouco, mas já é lucro. Clara soltou uma risada curta. — Continuem. Quase parece trabalho em equipe. A porca cedeu. Isabela retirou o rotor quebrado, e Mateus encaixou o novo. Os dedos dele se moviam com firmeza, apesar da faixa atrapalhando. Quando o nó prendeu numa saliência, ele tentou puxar com os dentes. Isabela largou a chave e pegou a ponta da bandagem. — Fica quieto. Ele ficou. Ela desfez o nó, enrolou a faixa de novo e apertou melhor, sem olhar para o rosto dele. O gesto durou poucos segundos. Mesmo assim, quando soltou sua mão, o silêncio entre os dois já não era o mesmo. — Obrigado — disse Mateus. — Faixa mal feita atrapalha serviço. — Claro. Clara fingiu ler a ficha, mas o canto da boca dela denunciou tudo. — Antes de ligar, assinatura de transferência temporária. Temporária, Isabela Ferraz. Se a nossa linha norte pedir socorro, eu venho buscar esse rotor nem que esteja no meio do seu almoço. — Assino. — E quero ver o mapa hidráulico com ele. Não por Mateus. Por mim. Cansei de descobrir problema quando a água já está entrando na bota. Isabela assinou. Mateus assinou depois, invadindo metade da linha dela. Clara olhou para a ficha. — Sempre passando do limite. — Linha pequena — disse ele. — Ego grande. Isabela virou o rosto antes que um sorriso escapasse. Eles fecharam a tampa juntos. Clara conferiu a vedação e ficou ao lado do disjuntor. — Preparados? — Liga — disse Isabela. A bomba tossiu uma vez. Tremeu. Por um segundo, pareceu que falharia de novo. Então o motor firmou, e a água correu pelos canos com um som cheio, quase bonito. Isabela soltou o ar devagar. Mateus limpou o rotor quebrado com o pano e o ergueu contra a luz fraca da porta. — Isso aqui não quebrou hoje. Ela se aproximou. — Como assim? — A rachadura é antiga. Alguém ouviu essa bomba reclamar antes e empurrou o problema para frente. Clara fechou a pasta devagar. — Ou empurrou para estourar no colo dela na primeira semana. Ninguém disse Eduardo Ferraz. O nome, porém, ocupou o galpão inteiro. Isabela levou a mão ao bolso e tocou a etiqueta do diário desaparecido. Mateus acompanhou o gesto, mas não perguntou. Pela primeira vez, ela agradeceu por isso. — O mapa hidráulico — ele disse. — Na sala técnica. — Agora. — A bomba acabou de voltar. — E eu acabei de entregar a única peça que Clara não queria entregar. — Ainda não queria — corrigiu Clara. Isabela pegou o casaco, manchando a manga clara na bancada suja. — Vem. Mas se copiar uma linha além do necessário, eu arranco a folha da sua mão. — Melhor que arrancar rotor. No caminho, Mateus escorregou no barro perto da porta. A caixa de ferramentas quase caiu do braço dele. Isabela segurou a alça no reflexo, e o peso puxou os dois para perto por um segundo curto demais. Ele firmou a bota. — Salvando minhas ferramentas? — Salvando meu chão. — Sempre prática. — Sempre desconfiado. Os dois se olharam. Não houve pedido de desculpa. Ainda não. Mas algo pequeno cedeu, como uma fissura deixando passar luz. Mateus recebeu o mapa, dobrou apenas a parte da linha dos tanques e guardou o resto sem olhar. Isabela percebeu. Ele percebeu que ela percebeu. — Obrigação contratual — disse, antes que ela perguntasse. — Claro. Mesmo assim, a palavra já não cortou tanto. Pouco depois, uma ligação curta o chamou de volta. Mateus falou sobre a linha norte, anotou algo no próprio pulso e caminhou até a caminhonete. — A peça fica até a nossa precisar — avisou. — E se precisar? Ele abriu a porta. — Aí você vai descobrir se sabe devolver favor. Partiu sem esperar resposta. Clara ficou ao lado de Isabela, olhando a estrada molhada. — Ele não devia ter trazido esse rotor. Isabela enrolou o mapa com força. — Veio cobrar. — Mateus cobra até guarda-chuva emprestado. Não é novidade. — Então pronto. Clara inclinou a cabeça, escolhendo as palavras como quem escolhe onde podar. — Só estou dizendo que o monstro que você guarda na cabeça teria deixado essa bomba morrer. Isabela não respondeu. Porque, pela primeira vez em dez anos, não teve certeza de que Clara estava errada.
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