A primeira sensação foi o fogo. Mas um fogo errado, um paradoxo gelado que corria em suas veias no lugar do sangue. Ele despertou com uma lucidez brutal, brotando em chamas brancas e silenciosas em seus pulsos e tornozelos. Elara abriu os olhos para um salão de mármore polido, tão vasto que suas paredes se dissolviam em névoa. Acima, não havia teto, apenas uma luz infinita e sem fonte, fria como o olhar de um deus indiferente.
Sua memória era uma vidraça estilhaçada. Fragmentos cortantes apareciam e sumiam: a dor de uma lâmina, um grito que nunca deixou sua garganta, e o frio — um frio que nada tinha a ver com o mármore sob seu corpo. Havia também um rosto, amado até o último suspiro, observando-a morrer. O nome dele arranhou sua consciência, mas se desfez em pó. Só restou uma única palavra, pesada e sólida como uma lápide: traição.
Ela se sentou, o tecido branco e simples que a vestia movendo-se como luz líquida. As chamas em seus pulsos não queimavam, apenas dançavam, obedientes a um ritmo que só elas conheciam. Morta. Ela devia estar morta. Mas que tipo de além era esse?
Um coro de vozes trovejou, vindo de todos os lugares e de lugar nenhum. Eram sons antigos, pesados com o pó de milênios, que se sobrepunham em um julgamento cacofônico.
**— Um erro… mancha o solo sagrado…**
**— O sacrifício a ungiu… Abominação!**
**— …o trono não pode ser profanado… criatura de coração fraco…**
As palavras a atingiram como pedras. Sacrifício. Trono. Ela se ergueu, as pernas trêmulas, mas a coluna encontrou uma retidão que não possuía em vida. O fogo dentro dela respondeu, subindo por seu peito com uma fúria que era nova, mas bem-vinda. As chamas brancas cresceram, lambendo seus antebraços.
— Quem são vocês? — sua voz saiu rouca, um som humano e frágil naquele espaço divino.
**— NÓS DECRETAMOS QUE VOCÊ NÃO PERTENCE A ESTE LUGAR.** A voz unificada fez o ar vibrar. **— O poder não será dela. Invoquem o guardião.**
A pressão esmagadora se dissipou, substituída por uma presença singular. Fria, afiada e terrivelmente calma. Ele não chegou. Ele simplesmente *estava* ali, a dez passos de distância, onde antes havia apenas vazio. Alto, envolto em uma armadura negra que parecia devorar a luz. O elmo, forjado na forma de um crânio de corvo, escondia seu rosto, mas Elara sentiu o peso do seu olhar, uma avaliação física e precisa.
**— Kael. Contenha a anomalia.** A ordem divina ecoou, já distante.
Silêncio. Kael deu um passo. O som de sua bota no mármore foi o único ruído no universo. Ele parou a poucos metros dela e, com um movimento lento e deliberado, retirou o elmo. Elara prendeu a respiração, esperando um monstro, mas encontrou algo pior: um homem.
Seu cabelo era escuro como a noite sem estrelas, o rosto talhado em ângulos duros e impiedosos. Mas foi o olhar que a paralisou. Seus olhos eram de um cinza tempestuoso, vazios de qualquer calor. Olhos que já haviam visto o fim de mundos e não se importariam em ver o fim de mais um. Havia neles um desprezo gélido, profissional. E, por trás de tudo, uma faísca quase imperceptível de algo que ela não conseguiu nomear. Curiosidade, talvez. Ou apenas o interesse de um caçador por uma presa incomum.
— Você virá comigo — a voz dele era grave e ressoou como o fechar de uma porta de cela. Um comando, não um pedido.
Elara olhou para as próprias mãos, para as chamas brancas que cintilavam com sua angústia e fúria. Anomalia. Ela se lembrava da impotência, da vida se esvaindo enquanto era observada. Nunca mais. Ela ergueu o queixo, o fogo respondendo à sua nova resolução.
— E se eu preferir não ir a lugar nenhum com o cão de caça dos deuses?
Um músculo mínimo se contraiu na mandíbula dele. Ele não estava acostumado ao desafio. Esperava medo, e encontrou fogo.
— Sua preferência é irrelevante.
— Para mim, não é. — ela deu um passo na direção dele, encurtando a distância. A proximidade a fez sentir a aura de controle absoluto que emanava dele, uma disciplina de ferro que era o oposto exato do caos que agora queimava dentro dela. — Eu fui a que sofreu o dano. Eu não vou a lugar nenhum.
— Sua existência aqui *é* o dano. — ele disse, a voz cortante. Seus olhos cinzentos não se desviaram dos dela, e naquele confronto silencioso, algo estalou no ar. Era o encontro de duas forças opostas: sua impassividade contra a chama recém-descoberta dela. Ele viu uma alma quebrada tentando se passar por forte. Ela viu uma gaiola com o formato de um homem.
Kael estendeu a mão enluvada de couro negro, mirando seu braço. A intenção era clara: ele a levaria à força.
— Não — ela sibilou, a voz baixa e perigosa. No mesmo instante, as chamas em seu pulso saltaram, uma labareda branca e agressiva que se esticou para lamber a ponta dos dedos dele.
Ele recuou a mão. Mas não por medo do fogo. O movimento foi lento, calculado. Seu olhar desceu para a chama dançante, depois voltou para o rosto dela, e a máscara de indiferença dele finalmente se alterou. Não era interesse. Era reconhecimento. Como um armeiro que encontra um tipo de metal que nunca viu antes.
— Você não tem escolha — ele repetiu, mas o tom era diferente. Mais baixo. Quase uma advertência pessoal. — Você é minha responsabilidade agora.
Um sorriso mínimo, afiado, nasceu nos lábios de Elara. Era um gesto de puro desafio.
— Então tenha cuidado. Não vá se queimar.
Ele a encarou por um longo segundo, seu rosto uma máscara de pedra novamente. Então, com uma velocidade que desmentia sua calma, sua mão disparou. Mas não para o braço dela. Ele pegou o fogo. Seus dedos enluvados simplesmente fecharam-se ao redor da chama branca que dançava em seu pulso, abafando-a. Não havia som, nem cheiro de queimado. Apenas o contato súbito, a pressão de sua mão e o choque de ter seu poder contido com uma facilidade tão brutal. O calor gelado que corria nela pareceu recuar diante do toque dele.
Kael não a soltou. Ele a segurou ali, sua mão envolvendo o pulso dela e o fogo contido, seus olhos cinzentos fixos nos dela enquanto ele falava, a voz um sussurro de aço frio que cortou todo o seu desafio.
— O fogo não me queima. Ele me obedece.