A Rainha das Cinzas
Cap. 2 de 20 · 5%

Prisão de Ouro

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O fogo dela, um instante atrás uma torrente de desafio branco, foi extinto sob o couro negro da luva dele. A mão de Kael em seu pulso era fria, uma corrente de gelo contra a febre de sua pele. Ele não usou força — não precisou. A facilidade com que a dominou foi um insulto mais profundo que qualquer decreto divino, um lembrete silencioso do abismo de poder que os separava. Sem uma palavra, ele a arrastou. A realidade se desfez ao redor deles, dobrando-se como papel. O chão de mármore do salão dissolveu-se em um céu noturno salpicado de sóis agonizantes, depois em um deserto de areia prateada que sussurrava sob seus pés. Elara tropeçou, desorientada, mas o aperto dele era um ponto de referência implacável. Então, tão subitamente quanto começou, a vertigem cessou. A luz se solidificou. Estavam no centro de um espaço circular que roubou o fôlego de Elara. Era uma cela, mas forjada por um deus com alma de carrasco. O chão era de um quartzo leitoso que parecia absorver o som, e as paredes não existiam. Em seu lugar, cortinas de luz dourada ondulavam em câmera lenta, uma seda líquida suspensa no vácuo. Não havia grades, janelas ou porta. Apenas a beleza opressora e um zumbido baixo e constante que vibrava nos ossos, afinado com a nota exata do pânico. Kael finalmente a soltou. O vácuo súbito em seu pulso foi um choque quase tão grande quanto o toque. — Fique aqui — ordenou ele, a voz tão desprovida de emoção quanto a armadura que vestia. Elara virou-se, o queixo erguido, a fúria reacendendo as brasas em seu peito. — Ou o quê? Ele não respondeu. Seus olhos, a cor de uma tempestade prestes a desabar, fixaram-se nos dela por um instante que pareceu se esticar. Então, deu-lhe as costas e atravessou a muralha de luz como se fosse mera fumaça. Do outro lado, sua silhueta negra era um recorte nítido contra o brilho, a poucos metros da barreira. Um carcereiro em sua torre de vigia invisível. Prisioneira. Observada. As palavras ecoaram em sua mente, arrastando consigo a memória da traição, do rosto que ela amara enquanto a vida se esvaía. Não. Nunca mais seria uma peça no tabuleiro de outra pessoa. Ela marchou até a cortina dourada. O ar engrossou em volta dela, vibrando com energia contida. Estendeu a mão, os dedos tremendo de raiva, não de medo. A um centímetro da luz, uma força invisível e inflexível a repeliu. Era como empurrar uma montanha. Ela forçou, grunhindo, e a pressão esmagadora subiu por seu braço, ameaçando estalar seus ossos. Recuou, ofegante. Seu olhar encontrou o de Kael. Ele não se movera, seu rosto uma máscara impassível. Estava avaliando-a. Testando-a. — É inútil — a voz dele atravessou a barreira, calma e cortante. *Inútil.* A palavra a acertou como uma pedra. Lembrou-se do poder que cantava em seu sangue, o fogo renascido. Não era inútil. Era novo. Ela fechou os olhos, ignorando-o, e mergulhou para dentro. Procurou a chama de dor e fúria que a ressuscitara. Não a combateu; alimentou-a com a memória da lâmina fria, do abandono, da humilhação de sua própria morte. O poder respondeu. As chamas brancas brotaram de seus pulsos, desta vez não como fios, mas como labaredas densas e famintas que lambiam o ar, emitindo um frio que fazia o ambiente estalar. Através do véu de seu próprio poder, ela viu a postura de Kael mudar. Apenas um milímetro. Ele descruzou os braços. A cabeça inclinou-se, e a indiferença em seus olhos foi substituída por uma concentração perigosa. Atenta. Elara uniu as mãos, sentindo a energia crepitar. A luz branca condensou-se entre suas palmas, formando uma esfera instável que pulsava como um coração furioso. Com um grito que era parte dor e parte desafio, ela a arremessou contra a parede dourada. O impacto foi mudo, uma colisão de silêncios. Mas a cela inteira tremeu. A cortina dourada vacilou, explodindo em um branco ofuscante no ponto de impacto. Um instante de triunfo selvagem percorreu Elara. Foi seu último erro. A cela não apenas se defendeu. Ela retaliou. De onde o fogo branco se dissipara, tentáculos de luz dourada dispararam em sua direção, rápidos como relâmpagos e sibilando com uma fome própria. Elara tropeçou para trás, o terror gelando seu sangue quente, mas não havia para onde correr. No último instante, uma sombra materializou-se diante dela. Kael. Ele se moveu com uma velocidade que rasgava as leis do universo, um borrão negro que se interpôs entre ela e o ataque. Os chicotes de energia o atingiram com força total. O som metálico de sua armadura ressoou como o toque de um sino fúnebre, mas ele não cedeu um centímetro. Apenas ficou ali, um escudo impassível, absorvendo a fúria da prisão. Os tentáculos se retraíram, retornando à parede, que voltou a ondular em sua serenidade hipnótica. Elara estava no chão, apoiada nos cotovelos, o coração martelando contra as costelas. O cheiro de ozônio e poder queimado pairava no ar. Lentamente, Kael virou-se para ela. A luz da cela esculpia sombras em seu rosto, tornando seus olhos poços de escuridão. Não havia preocupação em seu olhar. Nem alívio. Apenas a mesma calma analítica de antes, agora tingida de algo mais. Ele deu um passo, sua sombra engolindo-a. Deitada e vulnerável, com as chamas moribundas em seus pulsos refletindo na couraça negra dele, Elara ergueu o queixo. Recusou-se a desviar o olhar, esperando a punição, o desprezo. Um canto de sua boca moveu-se — não um sorriso, mas algo mais afiado, quase cruel. Seus olhos percorreram o rastro de poder dela no ar, depois voltaram para os dela. — Impressionante — disse ele, a voz um trovão baixo. A palavra pairou no silêncio denso antes que ele acrescentasse, com uma calma devastadora: — E inútil. Ele se agachou, o metal de sua armadura rangendo suavemente. A proximidade era uma ameaça e uma promessa. Ele estava perto o suficiente para que ela pudesse ver a cor exata da tempestade em seus olhos. — Você não está tentando escapar, Fênix — sussurrou ele, e a revelação a atingiu com mais força do que qualquer chicote de luz. — Você está alimentando a sua própria cela.
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