A Rainha das Cinzas
Cap. 5 de 20 · 20%

Testes da Deusa Soberana

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A parede de luz não piscou. Simplesmente se dissipou em uma névoa de partículas douradas, deixando no ar o cheiro ozonizado de uma tempestade de verão. Do outro lado, onde antes havia uma barreira, agora estava Kael, uma silhueta recortada contra o brilho infinito do reino celestial. Sua imobilidade era uma ordem, mais imperativa que qualquer palavra. Elara se forçou a ficar de pé, os músculos protestando, o eco da voz sombria uma mancha gélida em sua alma. A última frase dele — *Essa fome… não é mais sua* — era um veneno lento correndo em suas veias. A fúria cega de antes dera lugar a uma cautela de aço. Agora, ela entendia. A guerra não era só contra a jaula; a verdadeira frente de batalha estava dentro dela. Ele se virou e começou a andar, sem um olhar para trás, a presunção de sua obediência um insulto silencioso. O ritmo de suas botas no chão de quartzo polido era o único som, metódico e implacável. Elara o seguiu. O silêncio tenso de um carcereiro era infinitamente mais perturbador que suas ameaças, e a distância que ela manteve entre eles vibrava com perguntas que morriam antes de chegar aos lábios. Eles emergiram em um espaço que ignorava as leis da arquitetura: uma arena circular colossal, sem teto visível, apenas um céu de luz pulsante. Arquibancadas vazias, esculpidas em algo que parecia cristal e osso, subiam em espirais até se perderem no firmamento. No centro, sentada em um trono de obsidiana, estava uma figura que doía aos olhos. Não era uma mulher, mas uma constelação em forma humana, uma entidade de luz branca tão ofuscante que impedia o foco. A Deusa Soberana. Lyra. A voz dela não veio de um ponto, mas de todos, um som como o de um sino de cristal se estilhaçando e se recompondo em câmera lenta. — A contaminação. A mortal que veste o fogo sagrado. Elara parou de repente, o ar rarefeito lhe roubando o fôlego. Kael se posicionou a vários passos de distância, o rosto uma máscara impenetrável de dever. Ele não era seu guarda ali. Era a testemunha do seu inevitável fracasso. — Sua existência é um paradoxo — continuou a voz cristalina de Lyra. — E paradoxos devem ser purgados. Ou provados. O chão da arena se partiu diante dela, uma fenda de escuridão faminta que devorava a luz. Do outro lado, a cinquenta metros, o piso de obsidiana continuava. Uma ponte etérea, feita de luz trêmula, se estendeu sobre o abismo. — Primeiro teste: Vontade — declarou a deusa. — A ponte é tecida de suas memórias. Atravesse-a sem se deixar consumir. Elara lançou um olhar para Kael. Seus olhos estavam travados na ponte instável, o maxilar cerrado. Ele não parecia surpreso. Ele a trouxera para o cadafalso. Hesitante, ela colocou o primeiro pé na ponte. A luz sob sua bota se tornou translúcida, e imagens giraram no facho. O rosto do homem que ela amou, seu sorriso que prometia um porto seguro. A ponte se solidificou. Então, a cena mudou num piscar de olhos: o altar frio, a devoção fanática em seus olhos, o brilho da lâmina sacrificial. A ponte estalou e cedeu. Ela cambaleou, o grito preso na garganta. Ele a segurando firme, a dor excruciante, o choque da traição incendiando cada nervo. *Fraca*, a voz dentro dela sibilou. *Isso é apenas dor. Abandone-a. Deixe que eu a queime para você.* — Não — ela ofegou, o sussurro engolido pelo vazio. O olhar de Kael se moveu da ponte para o rosto dela. Foi um instante, uma fração de segundo, mas ele não olhava para a prova. Olhava para a veia pulsando em sua têmpora, para a forma como ela mordia o lábio inferior para conter um soluço. Ele estava medindo sua resiliência. Elara deu outro passo. A memória da lâmina perfurando seu peito explodiu em sua visão, a ponte se partiu sob seus pés. Ela caiu, agarrando-se à borda feita de luz com as pontas dos dedos, o corpo pendendo sobre o nada. A dor da lembrança era tão real que seu peito ardia de novo. Não a raiva. A dor. Ela a abraçou, a aceitou como parte de si. Sim, a traição aconteceu. Negá-la era dar poder a ela. Com um urro de esforço, ela se içou, os músculos dos braços gritando, e se arrastou centímetro por centímetro, o rosto arranhado pela luz áspera da ponte. Quando rolou para a segurança da plataforma de obsidiana, estava trêmula, exausta, mas inteira. — Sobreviver não é provar valor — a voz de Lyra cortou o ar, fria como o vácuo. — Era o esperado. Do chão escuro, uma esfera de pura escuridão emergiu, pulsando como um coração doente. O calor ao redor foi sugado por ela. — Segundo teste: Controle. Purifique a mancha. Ou mostre-nos que não merece o fogo que roubou. Elara se ergueu, as pernas bambas. A voz voltou, exultante. *Eles estão pedindo! Mostre a eles o poder! O nosso poder!* Ela estendeu as mãos. Uma pequena chama dourada, pura, dançou em suas palmas. Mas a fome estava lá, a presença sombria exigindo ser alimentada, querendo se misturar àquele poder. O corpo de Kael se tencionou. Seu peso se deslocou para a ponta dos pés, não como um guarda, mas como um caçador prestes a saltar. Seus olhos não estavam na chama. Estavam no leve tremor na mão de Elara, um espasmo quase imperceptível que traía a guerra interna. *LIBERTE-ME!*, a voz rugiu em sua mente. Fios de fumaça negra começaram a serpentear ao redor do fogo dourado, contaminando-o. A luz vacilou. Elara grunhiu, os dentes cerrados. A luta não era para destruir a esfera de escuridão à sua frente, mas para enjaular a escuridão dentro de si. Kael deu um passo à frente, um movimento involuntário que ele corrigiu imediatamente, fincando os pés no chão. Sua mão foi para o cabo da espada e o agarrou, os nós dos dedos ficando brancos. Ele não se preparava para atacá-la. Preparava-se para contê-la se ela falhasse. Elara gritou. Um som gutural, que não era de dor nem de raiva, mas de pura força de vontade. Ela empurrou a corrupção para o fundo de sua mente, um ato de violência psíquica, e despejou cada grama de seu ser no fogo. Uma coluna de luz dourada e imaculada explodiu de suas mãos, engolindo a esfera de trevas. A luz foi tão intensa que por um instante apagou até o brilho da própria deusa. Então, o silêncio. A esfera, a chama e a força de Elara se foram. Ela desabou de joelhos, o corpo esvaziado. Um momento de silêncio julgador pairou na arena. A tensão nos ombros de Kael se desfez por uma fração de segundo. Um alívio que ele imediatamente soterrou sob sua máscara de indiferença. Ele a viu vencer. Não apenas o teste, mas a si mesma. A voz de Lyra retornou, se não mais fria, mais afiada. — Ela resiste. Por ora, é o bastante. Elara ergueu o rosto, desafiadora mesmo na exaustão. Mas a deusa não olhava mais para ela. A constelação de luz se virara para Kael, e sua voz, embora ainda ecoasse por toda a arena, pareceu íntima e terrível. — Leve-a daqui. A próxima prova não é para os olhos de seu carcereiro.
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