A Rainha das Cinzas
Cap. 4 de 20 · 15%

A Voz nas Sombras

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A pergunta dele pairou no ar estagnado, uma lâmina de gelo contra a ferida aberta em sua memória. *Ele te amava?* Ouvir a palavra “amor” de Kael era como ver um lobo falar de pasto: errado, antinatural, uma zombaria. Antes que o desprezo pudesse se solidificar em uma resposta, o tremor começou em suas mãos, uma memória muscular da adaga fria e da traição que se aninhara na mais absoluta devoção. Elara não respondeu. A imagem do homem que a matara — seu sorriso, a luz em seus olhos um segundo antes da escuridão — sobrepôs-se ao rosto impassível de Kael. Um, a personificação do fervor e das promessas quebradas. O outro, um guardião de dever inabalável, feito de aço e sombra. No fim, ambos a viam da mesma forma: um instrumento. Um problema a ser resolvido. Um sacrifício a ser feito. Ela desviou o rosto, expondo a nuca em um gesto de submissão que a fez se odiar. E foi nesse poço de humilhação que a voz falou pela primeira vez. Não era um som. Era um pensamento que não era seu, um sussurro que se ergueu das cinzas de sua própria fúria, antigo e paciente. *Eles te usaram. Descartaram. Veem o monstro, não a mulher.* Elara enrijeceu. A voz ecoava sua raiva, mas possuía uma ressonância Fria, uma profundidade que seus próprios pensamentos não tinham. *Mas eles temem o poder. O fogo que te refez. Tu não és a cinza deles, menina. És a chama que os consumirá.* Um calafrio percorreu sua espinha, um gelo que nem mesmo o núcleo de Fênix em seu peito conseguia aquecer. Seu olhar disparou para a parede de luz dourada. A pulsação rítmica da cela pareceu hesitar. Em um canto, a luz tremeluziu e recuou, como se tivesse medo de tocar uma mancha de escuridão que só ela via. Kael sentiu a mudança. Não com os olhos, mas com algo mais primitivo. A atmosfera da cela, antes apenas carregada, agora estava… contaminada. Ele seguiu o olhar dela para o canto vazio e franziu o cenho. Não havia nada, mas a própria energia do lugar se curvara. — O que é? — a voz dele foi um comando, cortante. Ele não se aproximou. Em vez disso, começou a circular o centro da cela, o movimento lento e deliberado de um predador avaliando uma presa que de repente aprendera a morder. — Nada — a voz dela saiu arranhada, frágil. A mentira foi tão transparente que soou como um insulto. O ar ao redor dela ficou denso, pesado, e um frio palpável se formou. Elara se encolheu, abraçando os próprios braços. *Vingança*, a voz ronronou, mais nítida agora, prometendo o acerto de contas. *O homem que amavas te entregou à morte em nome dos deuses dele. Mostra a ele, e a eles, o que a morte te entregou de volta.* — Não… — o protesto de Elara foi um murmúrio para si mesma, um apelo. — Não o quê? — Kael parou bruscamente. Sua sombra caiu sobre ela, uma mancha de escuridão no mundo dourado. — O fogo queima diferente. Está… sujo. Ele se agachou em um movimento fluido, e a proximidade súbita foi um choque. Ele estava perto o suficiente para que ela sentisse o cheiro de ozônio e metal frio que emanava dele. Seu olhar não estava focado nela, mas *através* dela, um cirurgião procurando a origem de uma infecção. Ele ignorou a trilha seca das lágrimas em seu rosto; aquilo era sintoma. Ele caçava a doença. — O que vocês querem? Me atormentar é parte da punição? — ela cuspiu, tentando transformar medo em raiva. — Minha função é conter a anomalia que você representa — a voz dele era baixa, precisa, cada palavra uma peça sendo posta no lugar. — E garantir que as leis sejam cumpridas. Leis que sua… aflição… está desrespeitando a cada segundo. Ele estendeu a mão, os dedos enluvados de couro parando a um centímetro da pele dela. Não a tocou, mas a intenção era clara. Um aviso. Um bisturi pronto para cortar. — O que quer que tenha respondido à sua dor, não pertence a este reino. E não pertence a você. A voz em sua mente riu, um som sem alegria, frio como pedra de túmulo. *Ele teme. Bom. Os deuses temem o que não controlam.* A tentação era uma correnteza, a promessa de poder para nunca mais ser a vítima. Mas havia uma fome naquela voz, um vazio que a assustava mais que Kael, mais que a própria morte. — Eu não chamei nada — ela retrucou, o queixo tremendo. O olhar de Kael a mediu, indiferente à sua negação. Ele se inclinou mais, e o mundo pareceu encolher, reduzido à intensidade de seu foco. Ao poder contido em sua imobilidade. — Talvez não — ele concedeu, com o tom de quem fecha um caso. — Mas algo veio. Ele se ergueu, a análise terminada. A fase de contenção estava prestes a mudar. Seus olhos não viam mais uma prisioneira; viam uma porta entreaberta para um abismo. Uma porta que ele talvez precisasse selar permanentemente. Kael se virou para sair, seu silêncio carregado de uma ameaça mais pesada que qualquer grito. Elara o observou ir, o coração martelando contra as costelas, uma mistura nauseante de alívio e terror. A voz se calou, deixando apenas o eco de suas promessas venenosas. Estava sozinha de novo, mas o silêncio agora tinha peso. Havia algo mais ali. Ocupando seu espaço. Respirando com seus pulmões. Quando a silhueta de Kael estava prestes a se dissolver na barreira, ele parou. Sem se virar, falou por sobre o ombro, a voz ressoando com a certeza fria de uma sentença. — Essa fome que você sente, Elara Valen… não é mais sua. As palavras a atingiram como um golpe físico. E no vazio que se seguiu, algo dentro dela se moveu. Uma presença fria e antiga que se aconchegou em seu âmago, não como um invasor, mas como um morador retornando ao lar. A fome não era mais uma sensação. Era uma entidade. E pela primeira vez, ela a sentiu responder.
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