A Rainha do Último Dragão
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A Sombra do Comandante

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Kael Draven se tornara um mestre em não existir. No ar rarefeito da sala do trono do Rei Magnus Voren, ele era uma estátua de obsidiana e silêncio, o corpo imóvel, a respiração um fio invisível. As mãos enluvadas, unidas nas costas, eram a âncora que o prendia à disciplina enquanto a voz do Rei preenchia o vazio. — Uma assinatura de energia que não vemos há séculos, Kael. — A voz de Magnus era um perigo aveludado, cada palavra uma carícia que podia virar garra. — Nas Terras Proibidas. Exatamente onde os textos alertavam. A sentinela da Torre Oeste a registrou há menos de seis horas. Kael não se moveu, o olhar fixo num estandarte puído atrás do trono. Olhar para o Rei era um erro. Os olhos de Magnus Voren não viam, devoravam. E Kael fora forjado para servir, não para ser consumido. — Alguém violou a fronteira — concluiu, a voz um barítono baixo, sem vibração. Um sorriso fino, predatório, moveu os lábios do Rei. — Alguém encontrou o que jamais deveria. O Coração de Ignis. O nome caiu como uma gota de gelo no centro da sala. Um músculo saltou na mandíbula de Kael, uma traição infinitesimal ao seu controle absoluto. Coração de Ignis. Contos de ninar para recrutas assustados, lendas de poder dracônico capazes de queimar nações. Ferramentas de medo para manter a ordem, ele sempre repetira para si mesmo. Propaganda. — A missão é sua, Comandante. — Magnus se ergueu do trono, sua sombra longa se esticando até engolir a de Kael. — Encontre o Coração. Traga-o para mim. — E a responsável, Majestade? O Rei parou a centímetros dele, tão perto que Kael sentiu o calor do corpo real, o cheiro de vinho caro e ambição rançosa. Era um teste. Sempre era. — Uma acadêmica insignificante. Lyra Ashford. Vive fuçando as cinzas da história. — Magnus inclinou a cabeça, o sorriso se alargando. — A mulher... é um detalhe transitório. O artefato é o prêmio. Quero-o de volta, Kael. Sem escrúpulos. Sem hesitação. O couro da manopla estalou quando Kael cerrou o punho. *Um cão de guerra não tem escrúpulos. Um cão de guerra obedece.* O mantra que o moldara, a fundação de sua existência. O peso de sua armadura negra pareceu dobrar, não pelo metal, mas pela ordem. — Sim, Majestade. Horas depois, o cheiro de incenso e intriga deu lugar ao ar puro e frio do deserto. Sob a luz indiferente da lua, a paisagem era um esqueleto de rocha e areia. Kael desmontou, suas botas esmagando a pedra solta no único som que quebrava o silêncio. Sua equipe de elite, sombras treinadas em seu próprio molde de eficiência letal, já se dispersava pelo cânion. Um rastreador surgiu da escuridão, a voz um sussurro carregado de respeito e medo. — Comandante. Rastros frescos. Uma pessoa. E se move rápido. Kael não respondeu. Agachou-se, os dedos enluvados pairando sobre uma pegada na poeira. Pequena. O calcanhar afundado com urgência, os dedos do pé espalhando a areia para a frente. Pegadas de quem foge sem olhar para trás. — Uma mulher — murmurou, o som áspero como a pedra ao redor. — E não está apenas se movendo rápido. Está aterrorizada. Ele se ergueu, caminhando até o epicentro da perturbação. O ar ali era diferente. Vibrava, uma ressonância sub-sônica que arrepiava a pele sob a armadura. As marcas da escavação eram precisas, obra de uma mão paciente e experiente. Uma espátula descartada. Um pincel delicado. E no centro, uma depressão no solo, perfeitamente ovalada, de onde uma energia fantasma ainda pulsava como o calor de um corpo recém-partido. Kael tocou a poeira no fundo. Morna. Isso não fora um roubo. Fora uma descoberta. Ele fechou os olhos. A ordem de Magnus era clara. *Um detalhe transitório*. Mas a cena contava outra história. A história de uma estudiosa obcecada, não uma ladra. Alguém que buscava conhecimento, não uma arma — o crime mais perigoso no reino de Magnus Voren. Nas paredes do cânion, veios minúsculos de rocha brilhavam com uma luz âmbar residual, traçando padrões que lembravam uma escrita antiga. Uma língua morta que despertara por um instante antes de se calar. — Com o artefato, deve estar lenta. Não pode ter ido longe — disse seu tenente, a voz cautelosa ao seu lado. Kael abriu os olhos, o olhar varrendo a imensidão escura que se estendia para além do cânion. Aquele poder não era um peso. Era um farol. E Lyra Ashford era a tocha humana que o carregava, querendo ou não. — Ela pensa que a vastidão é seu escudo. — Kael se virou para seus homens, a voz agora dura como ferro forjado, despida de qualquer dúvida. — Flanco norte e sul. Cerco de três léguas a noroeste. Silêncio de rádio total. Abatam qualquer um que tente cruzar o perímetro sem minha ordem direta. Os homens assentiram e desapareceram na noite como espectros. Apenas seu tenente permaneceu. — E quanto ao senhor, Comandante? Kael olhou para o rastro solitário que se perdia na areia, uma linha frágil contra a imensidão. Ele não caçava uma fugitiva. Seus homens fariam isso. Ele caçava a fonte do incêndio. Quando se ajoelhou uma última vez perto do local da escavação, a ponta de sua manopla roçou algo sob uma pedra solta. Não era uma ferramenta. Era um pequeno diário de capa de couro, coberto de poeira. Ele o abriu. Na última página, um esboço feito às pressas, a mão tremendo: a forma oval do Coração de Ignis, pulsando com linhas de energia. E na margem, uma anotação apressada, quase ilegível. *Não é uma arma. É… uma canção.* Kael fechou o diário com um estalo seco. A ordem do Rei ecoou em sua mente, fria e absoluta. *A mulher é um detalhe transitório*. Mas o couro macio do diário sob seu polegar, a caligrafia que falava de assombro em vez de cobiça... aquilo não era um detalhe. Era uma alma. E pela primeira vez em anos, o cão de guerra sentiu o puxar de uma coleira que não era a de seu mestre.
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