A Rainha do Último Dragão
Cap. 3 de 26 · 8%

Uma Fuga Incerta

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O silêncio era a parte mais aterrorizante. Lyra esperava gritos, o som de botas militares na areia, a desordem barulhenta de uma perseguição. Em vez disso, recebia uma quietude opressora, uma ausência de som que se enrolava em seus nervos como uma serpente. Era o silêncio de predadores que não precisam se apressar, que se movem com a certeza da morte que trazem consigo. E no centro desse silêncio, uma presença singular, fria e focada, que ela sentia no ar como uma queda de pressão antes da tempestade. Ela não estava apenas fugindo. Estava em um diálogo mudo com a pedra e o vento, usando as ruínas como um tabuleiro de xadrez. Com um pedaço de sua túnica, apagava os próprios rastros em zigue-zague, uma manobra para dividir um grupo de perseguidores. Mas não havia grupo. Havia apenas uma sombra que se antecipava, um fantasma que parecia conhecer o próximo movimento dela antes que ela mesma o fizesse. O Coração de Ignis, escondido sob suas roupas, pulsava um calor constante, um contraponto vivo à frieza que a caçava. Encolhida atrás de uma coluna caída, a respiração presa na garganta, Lyra arriscou uma olhada. Uma única silhueta escura se destacava contra o céu sangrento do crepúsculo, postada em um arco desmoronado. O homem da duna. Ele não olhava para o seu esconderijo. Olhava para um ponto mais adiante no vale, para onde a lógica e o desespero a levariam em dez minutos. O pânico gelado que subiu por sua espinha não era de medo, mas de reconhecimento. Ele não a estava seguindo. Estava pastoreando-a. Esgueirando-se por uma passagem estreita, quase engolida pela areia, Lyra se sentiu uma amadora. Ele estava usando seu próprio conhecimento contra ela. Cada rota de fuga inteligente que ela escolhia era, na verdade, um corredor que ele havia deixado aberto. Ele lia seus instintos de estudiosa — a preferência por passagens ocultas, a atração por estruturas mais preservadas — e os transformava em algemas. Kael Draven observava o jogo se desenrolar, não com a luneta, mas com o mapa mental que construíra a partir das páginas dela. Seus homens, sombras silenciosas, moviam-se não para onde ela estava, mas para onde ela iria. Um tenente se aproximou, a voz um sussurro áspero. — Comandante, ela está se movendo para o setor oeste. Podemos interceptá-la no desfiladeiro. Kael nem se virou. Seu olhar estava fixo em uma estrutura no coração das ruínas, mais intacta que as outras, sua entrada uma boca de escuridão convidativa. O mausoléu. Em seu diário, ela o descrevera não como uma tumba, mas como uma "biblioteca de pedra", o lugar onde a história daquele povo finalmente descansava em paz. Um santuário. — Ela não vai para o desfiladeiro — disse Kael, a voz baixa, quase para si mesmo. A capa de couro do diário, guardado em seu alforje, pareceu mais pesada. — Uma soldado buscaria terreno elevado. Uma ladra, a rota mais rápida para fora. Ela... — ele parou, a palavra "estudiosa" morrendo em sua garganta. Era íntimo demais. — Ela buscará refúgio. Ele ergueu a mão, um gesto mínimo, quase imperceptível. Nas sombras abaixo, seus homens mudaram de curso sem uma única palavra. Silenciosos, eficientes, letais. Estavam cercando o único lugar que para ela significaria segurança. — Cerquem o mausoléu. Todas as saídas — sua voz era o aço de sempre, mas por dentro, uma dissonância o corroía. Ele estava usando as paixões dela, a alma que ela derramara no papel, para construir sua jaula. A caçada nunca fora tão pessoal. E tão desonrosa. Para Lyra, a visão do mausoléu foi como um gole de água após dias no deserto. A esperança, tão perigosa, floresceu em seu peito. Era perfeito. Imponente, defensável, um lugar que ela conhecia por dentro e por fora através de diagramas antigos. Se pudesse chegar lá, teria tempo. Tempo para respirar, para pensar, para tentar entender o artefato que pulsava em seu peito como um órgão recém-despertado. Ela correu. O último fôlego queimando os pulmões, os músculos gritando em protesto. A escuridão da entrada do mausoléu foi um abraço. Lyra deslizou para dentro, a mudança de temperatura e o silêncio denso e antigo a envolvendo. Por um batimento cardíaco, dois, três, ela se permitiu o alívio. Encostou as costas na pedra fria, a respiração voltando em farrapos. O Coração de Ignis pareceu sossegar, seu ritmo diminuindo para um zumbido suave. Segura. Estava segura. Seus olhos se ajustaram à penumbra, distinguindo as silhuetas dos sarcófagos, as paredes gravadas com histórias que ela sonhara em decifrar. Estava em casa, cercada por fantasmas amigos. Um sorriso exausto tocou seus lábios. Foi quando uma das sombras no fundo da câmara se moveu. Não era a sombra de uma coluna ou de um sarcófago. Tinha ombros largos e a altura de um homem. A sombra se desprendeu da parede com uma fluidez que não era natural, endireitando-se sem fazer um único som. A pouca luz que entrava pela porta tocou o metal negro de uma armadura, mas se recusou a brilhar. O sorriso de Lyra morreu. O alívio em seu estômago se converteu em uma pedra de gelo. Não era um refúgio. Era o fim da linha. O centro da armadilha que ela mesma ajudara a construir. Ele deu um passo à frente, lento, deliberado. O passo de um predador que não tem mais necessidade de caçar. Ele parou a poucos metros, uma estátua de dever e escuridão, o visor do elmo uma fenda impenetrável. O silêncio esticou, pesado e vibrante. Lyra apertou o calor pulsante do artefato contra o peito, sua única âncora em um mundo que desabava. A voz dele, quando veio, não era um grito de vitória ou uma ordem. Era um barítono grave e sem inflexão, que parecia ressoar da própria pedra. Ele não disse o nome dela. Disse algo mil vezes pior, mais íntimo e violador. — Então é aqui que a canção das pedras se cala.
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