A placa de Ponta das Marés apareceu depois da curva como uma coisa esquecida: torta, comida pela maresia, com duas letras quase sumidas. Elara Vargas pisou no freio antes de pensar em fazê-lo.
O mar surgiu à esquerda, cinza e inquieto, e foi como levar uma mão fria no peito. Ela fechou o vidro do carro, mas o sal já tinha entrado. Ficou na língua, na pele, na memória.
No banco do passageiro, a pasta da herança escorregou quando o carro passou por um buraco. Elara a segurou no último segundo. O envelope no topo trazia seu nome completo, escrito por alguém que não sabia nada dela.
Elara Vargas.
Herdeira do farol.
Ela soltou um riso curto, sem graça. Herdeira parecia uma palavra grande demais para uma mulher que só queria assinar papéis, tirar fotos, vender tudo e ir embora antes que o passado percebesse sua presença.
A estrada subia estreita pelo penhasco. Ela não precisava de mapa. O corpo lembrava antes da cabeça: a cerca baixa onde as crianças cortavam caminho, a venda de toldo azul desbotado, a curva em que o vento empurrava os carros para perto demais do abismo.
Artur Vargas dirigia ali com uma mão no volante e a outra segurando o boné. Dizia que o farol não era casa de ninguém. Era teimosia em forma de pedra.
Elara apertou o volante.
Na última vez que subira aquela estrada, ainda cabia inteira no banco de trás. Tinha os joelhos ralados, uma sacola de roupas no colo e uma ordem atravessada na garganta de Artur: não olha para o mar.
Ela olhou.
Havia barcos parados demais. Gente demais na praia. E a porta do farol aberta, batendo sem ritmo, como se alguém tivesse saído às pressas e nunca mais encontrado o caminho de volta.
O carro chegou ao fim da estrada.
O farol continuava ali.
Menor do que na lembrança. Mais gasto. A torre branca tinha rachaduras finas, manchas de ferrugem sob a lanterna e janelas fechadas como olhos cansados. A casa anexa, colada à base, parecia respirar umidade.
Elara desligou o motor.
O vento tomou o lugar do silêncio.
Ela ficou alguns segundos com a chave entre os dedos. Depois abriu a porta. A rajada empurrou sua jaqueta contra o corpo e desfez uma mecha do coque malfeito. Cheirava a algas, pedra molhada e óleo antigo.
— Só vistoriar, assinar, vender — disse para o banco vazio.
A frase soou pequena. Quase infantil.
Ela pegou a pasta, puxou a mala do porta-malas e caminhou até o portão. Havia uma corrente nova no ferro velho. O cadeado brilhava em alguns pontos, ainda não vencido pela maresia.
Elara enfiou a chave enviada pelo cartório.
Nada.
Tentou de novo. O metal bateu com um estalo seco.
— Claro — murmurou.
Uma gaivota gritou no alto, como se concordasse.
Ela largou a mala no cascalho e se inclinou para examinar o cadeado.
— Se veio pelo aviso da prefeitura, já passou do horário.
A voz surgiu atrás da casa anexa.
Elara se virou.
Um homem apareceu pelo caminho lateral, carregando uma caixa de ferramentas numa mão e uma lanterna apagada na outra. Barba por fazer, camisa escura grudada pelo vento, botas sujas de barro seco. Não parecia apressado. Também não parecia disposto a pedir licença.
— Não vim por aviso nenhum — ela respondeu.
Ele parou a poucos passos do portão. Olhou para a mala, para a pasta, para a chave inútil na mão dela.
— Então se perdeu.
— Difícil se perder quando o prédio tem uma torre.
Ele apoiou a caixa no chão, mas manteve a lanterna na mão.
— A visitação está suspensa.
— Eu não vim visitar.
Ele ergueu o queixo, esperando.
Elara abriu a pasta, tirou o primeiro documento e segurou a folha contra o vento com o antebraço.
— Elara Vargas. Neta de Artur Vargas. Isso aqui agora é meu.
Meu.
A palavra saiu dura, e mesmo assim pareceu não pertencer a ela.
O homem não pegou o papel. Leu de longe, rápido demais para alguém que quisesse ser simpático.
— Gael Monteiro.
Nenhuma mão estendida. Nenhum sorriso.
— O faroleiro — ela disse.
— O responsável pelo farol.
— Existe diferença?
— Existe quando alguém aparece com uma mala e uma chave errada querendo entrar.
Elara guardou o papel devagar. Prendeu o elástico da pasta com mais força do que precisava.
— O cartório me entregou essa chave.
— O cartório entrega papel. Aqui, quem segura a porta sou eu.
O vento bateu no portão. A corrente rangeu entre os dois.
— E por que a porta precisa ser segurada?
Gael passou o polegar pela lateral da lanterna, espalhando uma mancha de graxa.
— Porque gente entra onde não deve. Porque o telhado cedeu num canto. Porque a escada da torre não aguenta curioso. Escolha a resposta que combina com seu humor.
— Meu humor não veio na mala.
— Devia. Ajuda nessa estrada.
Ela soltou um riso pelo nariz. Não era graça. Era irritação procurando uma saída educada.
— Eu preciso avaliar o imóvel.
— Hoje não.
— Hoje sim.
— Não.
Elara deu um passo até o portão. A barra fria encostou em sua palma.
— Gael Monteiro, eu dirigi horas até aqui, tenho uma assinatura marcada amanhã, fotos para enviar e uma vida para voltar antes do fim da semana. Você pode abrir esse cadeado ou me dizer quem abre.
Ele ficou quieto. Tempo suficiente para o mar entrar na conversa.
Então tirou uma chave do bolso.
Elara recuou meio passo sem querer. Gael notou. Não comentou.
O cadeado abriu. A corrente caiu no chão com um peso feio.
— A sua vida talvez precise esperar — ele disse, empurrando o portão. — A fundação tem trinca. A lanterna principal gira quando quer. E a casa anexa faz barulho à noite.
— Tudo isso diminui o preço, não o meu interesse.
— Nem tudo se mede em preço.
Elara passou por ele puxando a mala. As rodinhas travaram no cascalho. Ela puxou com mais força; a alça bateu em sua coxa.
Gael viu.
Não ofereceu ajuda.
Por algum motivo, isso a fez gostar dele um milímetro. E desgostar dois.
O pátio interno parecia menor. Baldes encostados na parede, cordas enroladas, tábuas sob uma lona. A porta da casa anexa estava aberta. De dentro vinha cheiro de madeira úmida e coisa guardada por tempo demais.
Elara parou no batente.
A cozinha antiga continuava à esquerda. Azulejos brancos, alguns quebrados. A mesa onde Artur descascava laranjas ainda estava ali, marcada por círculos escuros. Sobre o armário, uma caneca lascada virada de boca para baixo.
Ela entrou sem tocar em nada.
O piso gemeu sob seus sapatos.
Cada som acordava outro: uma torneira pingando, o vento assobiando por uma fresta, um rangido distante vindo da torre.
Gael cruzou a porta atrás dela.
— Não mexi nos objetos pessoais. Só no que ameaçava cair.
— Você mora aqui?
— Na parte dos fundos.
— Com autorização de quem?
— De Artur Vargas.
O nome bateu na cozinha como uma porta fechando.
Elara virou o rosto para a mesa. Havia uma marca funda perto da borda. Ela passou o dedo pela cicatriz na madeira e trouxe poeira na ponta.
— Ele não me falou de você.
— Ele falava pouco de mim.
— Falava pouco de muita coisa.
Dessa vez, Gael não respondeu. E o silêncio dele não pareceu vazio. Pareceu escolha.
Elara caminhou até a porta que levava à base da torre. O arco de pedra estava escuro de umidade. No primeiro degrau, uma concha pequena, quebrada ao meio, repousava no canto.
Ela ficou olhando até a memória vir inteira: sua mão de criança guardando conchas no bolso do vestido; uma voz dizendo que o mar devolvia o que não conseguia guardar.
Elara se abaixou e pegou a concha.
Gael deu um passo.
— A escada está ruim.
— Eu ouvi.
— Não pareceu.
Ela fechou os dedos ao redor da concha e se endireitou.
— Você fala com todo mundo assim ou eu ganhei tratamento especial?
— Quem insiste em subir torre rachada ganha prioridade.
— Eu restauro livros com duzentos anos. Sei reconhecer coisa frágil.
— Livro não desaba em cima de você.
— Depende do tamanho da biblioteca.
A boca dele quase mudou. Quase. Mas Gael virou para a janela antes que aquilo virasse um sorriso.
Lá fora, o céu fechava rápido. Nuvens baixas vinham do mar, pesadas. A primeira gota bateu no vidro. Depois outra. Em segundos, a chuva começou a riscar a janela.
Gael pegou a caixa de ferramentas.
— A estrada escorrega quando chove. Melhor descer agora e procurar um quarto lá embaixo.
— Você acabou de dizer que a estrada escorrega.
— Disse.
— E quer que eu desça por ela.
— Quero que você não durma num lugar que não conhece mais.
Elara pousou a concha sobre a mesa.
— Eu conheço.
Gael olhou para a concha. Depois para ela.
— Conhecia.
A palavra foi baixa. Não cruel. Pior: verdadeira.
Elara abriu a boca para responder, mas nada saiu. Então tirou o documento de vistoria da pasta e o colocou sobre a mesa, como se aquilo fosse uma bandeira.
Puxou uma cadeira. A madeira rangeu.
— Tem luz?
— Às vezes.
— Banheiro?
— Com pouca pressão.
— Café?
— Ruim.
— Serve.
Gael apoiou a lanterna na mesa, perto do documento, mas não perto dela.
— Você vai ficar?
Elara olhou para a mala no meio da cozinha. Uma roda torta, sal grudado na lateral, o zíper meio aberto. Depois abriu o casaco, como quem parava de brigar com o vento.
— Uma noite.
Gael não discutiu. Saiu para fechar o portão. A corrente arrastou no cascalho e voltou ao encaixe com um som definitivo.
Quando ele retornou, trazia chuva nos ombros e uma expressão mais fechada do que antes.
— O quarto de Artur fica no fim do corredor. A fechadura emperra. Se ouvir batida na parede, é encanamento.
Elara segurou a concha antes de perceber que tinha feito isso.
— E se eu ouvir passos?
Gael parou com a mão na lanterna.
Pela primeira vez, ele desviou o olhar.
— Não abre a porta.