A Última Carta do Farol
Cap. 2 de 20 · 5%

Tinta, Poeira e Segredos

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Durante a noite, os passos vieram. Não foram altos. Não foram teatrais. Vieram baixos, espaçados, do outro lado da porta do quarto de Artur Vargas, como se alguém conhecesse a casa bem o bastante para evitar as tábuas mais barulhentas — e, ainda assim, quisesse ser ouvido. Elara Vargas ficou sentada na cama, com o casaco por cima do pijama e as botas nos pés. A chuva batia de lado na janela. O lençol cheirava a armário fechado, poeira e sal. A concha quebrada que ela trouxera da cozinha descansava no criado-mudo, branca demais no escuro. Outra tábua rangeu. Depois, nada. A mão dela foi até a maçaneta antes que o bom senso chegasse. Parou a um palmo do metal frio. Não abra a porta se ouvir passos. A voz de Gael Monteiro voltou sem pedir licença, seca, irritante, quase próxima. Elara mordeu a parte interna da bochecha. Odiou obedecer. Odiou mais ainda admitir que estava com medo. Em silêncio, puxou a cadeira da escrivaninha e encaixou o encosto sob a maçaneta. Só então voltou para a cama. Não dormiu. Quando a manhã entrou pelas frestas da veneziana, o farol parecia outro. Menos ameaça, mais ruína. A luz pálida desenhava linhas tortas no chão, e o vento fazia a madeira ranger como um barco velho preso à terra. Elara tirou a cadeira da porta antes de sair. Não queria que ninguém visse. Não queria dar a Gael esse tipo de vitória, mesmo que ele nem estivesse ali para sorrir daquele jeito mínimo, quase sem querer. No corredor, parou. Havia uma marca de água no assoalho. Longa, irregular, atravessava as tábuas até sumir perto do rodapé. Podia ser goteira. Podia ser chuva trazida por uma fresta. Podia ser bota molhada. Elara se abaixou, mas não tocou. O cheiro de maresia estava forte demais para uma casa fechada. — Claro — murmurou para si. — Porque uma casa normal seria pedir muito. A resposta veio em forma de estalo no teto. Ela seguiu para a cozinha. Sobre a mesa, encontrou uma caneca limpa virada para baixo e, ao lado, uma chave pequena presa a um cordão de couro. Não havia bilhete. Só a chave, deixada bem no centro, como se alguém tivesse certeza de que ela entenderia. Elara pegou o cordão com dois dedos. — Isso é ajuda ou vigilância? A casa não opinou. Ela preparou café forte demais, queimou a língua no primeiro gole e decidiu que aquele seria o começo oficial do trabalho. Se ia vender o farol, precisava saber o que havia dentro dele. Se ia enfrentar as memórias, melhor que fosse de dia. Começou pela cozinha. Abriu gavetas emperradas, separou facas cegas, panos duros de sal, caixas de fósforos úmidas. Artur Vargas guardava tudo em ordem: pregos com pregos, barbante enrolado em cartão, botões dentro de um vidro de geleia. O avô odiava perder tempo procurando coisas. Elara fechou a mão ao redor do vidro de botões. Perdia pessoas. Não pregos. No fundo, preso ainda a um pedaço de tecido azul, havia um botão vermelho. Pequeno. Desbotado nas bordas. Ela passou o polegar sobre ele e a lembrança veio partida: um vestido balançando no varal, pés descalços no ladrilho, uma risada de mulher vindo da área de serviço. Liana Vargas. A imagem sumiu antes que Elara conseguisse segurá-la. Ela devolveu o vidro à gaveta com cuidado demais. Depois foi para a despensa dos fundos. A chave entrou na fechadura com resistência, como se a porta não quisesse entregar nada. Quando abriu, o cheiro de lona, ferrugem e madeira úmida a atingiu em cheio. Na infância, aquele cômodo era proibido. Artur dizia que as ferramentas tinham dentes. Ela acreditava. Ficava na soleira, espiando as prateleiras altas, imaginando que as cordas penduradas se mexiam sozinhas quando ninguém via. Agora, as cordas estavam imóveis. As prateleiras, tortas. As latas, sem rótulo. No canto, uma caixa de madeira guardava luvas, panos de algodão, uma lanterna e uma escova macia. Elara encarou o material por um instante. Gael tinha deixado a chave porque sabia que ela precisaria daquilo. Não era exatamente gentileza. Também não era só controle. Essa conclusão a irritou mais do que deveria. Ela calçou as luvas, pegou a escova, a lanterna e uma espátula fina de metal. A espátula não pertencia a uma casa qualquer. Pertencia a alguém que sabia levantar camadas sem rasgar. — Você escondia coisas, Artur — disse baixo. — Mas também ensinou onde procurar. Saiu da despensa e percorreu o farol com mais calma. Na sala pequena, o sofá afundado ainda tinha a manta cinza no braço. Elara lembrava de se enrolar ali depois do banho, o cabelo pingando, enquanto Artur fingia não ver água no chão. Na parede, marcas claras mostravam onde quadros tinham ficado por anos e depois sumido. Ela passou os dedos pelo vazio de um deles. No corredor estreito, as tábuas rangeram sob seus passos. Primeira, quarta, sétima. Na oitava, o som mudou. Oco. Elara parou. A marca de água da madrugada seguia exatamente até ali, perto do quarto de Artur, e desaparecia sob o rodapé. Ela se abaixou, passou a escova pela fresta. Poeira escura saiu grudada em sal, fiapos e algo que parecia cabelo antigo. A espátula entrou só a ponta. Havia espaço atrás da madeira. O pulso dela acelerou. Não mexeu ainda. Primeiro, foi ao quarto do avô. A cama estava desfeita do jeito que ela deixara. A mala aberta ocupava uma cadeira. Na escrivaninha, um tinteiro seco, uma régua e três lápis apontados pela metade pareciam esperar uma mão que não voltaria. O armário emperrou quando ela puxou. Elara quase forçou. Parou a tempo. Levantou um pouco a porta e puxou de novo. Abriu. — Ponto para você, Gael — murmurou, contrariada. Lá dentro havia casacos grossos, botas, um chapéu de chuva sem uma vareta e caixas de papelão no alto. Ela tirou tudo com método. Casaco sobre a cama. Botas alinhadas perto da parede. Caixas no chão, uma por vez. Papel velho rasga mais por pressa do que por idade. Na segunda caixa, encontrou cadernos de manutenção do farol. Datas, marés, troca de lâmpada, notas sobre óleo. A letra de Artur era firme, inclinada para a direita. Na margem de uma página, uma frase interrompeu a lista: “Vento de sudoeste traz visita.” Elara ficou olhando para aquilo. Visita de quem? Virou outras páginas. Nada. Só números, horários, peças trocadas. Como se aquela frase tivesse escapado de dentro dele e depois sido trancada depressa. Atrás do armário, a parede chamou sua atenção. Uma placa de madeira tinha cor quase igual às outras, mas o veio corria no sentido errado. Elara se aproximou. Quem escondia aquilo contava com olhos apressados. Artur nunca contaria com os dela. A espátula entrou pela lateral. Ela trabalhou devagar, soltando a madeira milímetro por milímetro. Quando o primeiro pino caiu, o som pareceu alto demais. Elara prendeu a respiração. Esperou. Do lado de fora, só o vento. O segundo pino rolou até debaixo da cama. A placa abriu para dentro. O cheiro veio primeiro: cedro, mofo e tinta velha. Depois, a forma escura no fundo do compartimento. Um baú. Pequeno o bastante para caber no colo. Pesado o bastante para marcar seus braços quando ela o puxou para fora. A fechadura de latão estava manchada de verde, e sobre a tampa, sob a poeira, havia as iniciais de Artur Vargas queimadas na madeira. Elara levou o baú até a escrivaninha. Ficou um momento com as duas mãos sobre a tampa. Havia coisas que a gente encontrava por acidente. E havia coisas que esperavam. Ela tentou a fechadura com a espátula. Nada. Pegou um grampo do próprio cabelo, desentortou com os dentes e encaixou junto ao metal fino. Não era bonito. Não era rápido. Mas Artur tinha ensinado paciência melhor do que afeto. Um toque. Pausa. Outro toque. Recuo. O clique veio baixo. A tampa abriu. Dentro, dezenas de envelopes descansavam amarrados em grupos por fitas desbotadas. Cartas amareladas. Algumas com selos nunca carimbados. Outras sem selo nenhum. Nomes, datas, marcas de dedos. Palavras prontas para partir que nunca tinham saído do farol. Elara tirou o primeiro maço. O papel fez um som seco, como folha que esperou tempo demais. Ela colocou os envelopes em fileiras sobre a escrivaninha. Um. Três. Sete. Doze. A luz da manhã bateu na tinta desbotada, revelando curvas conhecidas da caligrafia de Artur. Cada nome parecia uma porta. No fundo do baú, separado dos outros por um pedaço de tecido azul, havia um envelope sem selo. Elara puxou devagar. O botão vermelho na gaveta pareceu pesar do outro lado da casa. No centro do papel, a letra de Artur cravava duas palavras. Liana Vargas.
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